terça-feira, fevereiro 13, 2007

linha morta, rima posta

apuro indícios após o crime
faca não, nenhum revólver
denuncio a mim, juro que vi-me
bem mal o enigma se resolve

volta ao local a alma mordoma
quem cometeu nada o detinha
digital zero, testemunha em coma
o fim da linha não foi a rima

(Roberto Prado)

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O sangue e o batuque


no batuque do coração


rimo rindo
rimo porque sim

rimo indo e vindo

quanto mais rimo melhor

rimo sim e daí?

vivo porque rimo

se rimo amanhã saberei

rimo sempre

rimo uma eternidade

rimo porque morri

confesso que rimei

rimo porque em verdade

em verdade eu sei

que mesmo naquele dia

se a rima me faltar

rimarei

tantã

por fora
por dentro e entre
pela vida afora
e antes
hora após hora
por exemplo, agora,
eu rimo sempre

dono de batuque nato
às vezes bato fraco

nenhuma razão para dor
nenhuma razão de orgulho
somente mais uma canção
apenas mais um coração
fazendo barulho

(Roberto Prado)

domingo, fevereiro 04, 2007

Cruz e Souza pede passagem


Amigos. Estamos hoje aqui reunidos para ler o Cruz e Souza. Sem mais rodeios, vamos ao poema.

Vida Obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-se mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu, que sempre te segui os passos,
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!

Cruz e Souza (1861 – 1898)

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

O sorriso da Iara


A Iara Teixeira deu um susto em todos que amam a graça, o charme e o veneno do seu talento luminoso.
Bateu no hospital, quicou na UTI, mas foi aventura passageira: já está voltando para casa, sã e salva. Na foto, à esquerda, o sorriso da artista completa uma das suas obras-primas.
Bom retorno, Iarinha e parabéns para a irmãzinha Dóris Teixeira, foto à direita (arquiteta com alma), por ter cuidado tão bem deste patrimônio.

domingo, janeiro 28, 2007

Yes, nós temos Miran


Osvaldo Miranda, o Miran, é uma lenda viva das artes gráficas curitibanas. Ele, o Solda, o Rettamozzo, o Marchesini, o Rogério Dias, a Iara Teixeira e outros cobrões, trabalhando juntos, trocando figurinhas, botando o bloco na rua, criaram um padrão de excelência e um ambiente criativo que beneficiou muito a rapaziada mais recente. Abaixo, um orgulhoso exemplo, que tenho a soberba de relembrar, de um trabalho que tive o prazer de dividir com o mestre Miran (cuja edição ele, inclusive, viabilizou). Para ler o texto junto com a arte, clique aqui.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Lamentações de um coitadinho subtropical

Aí vai mais um texto publicado originalmente na revista Idéias, da Travessa dos Editores.

Passei a acordar às dez porque estou cansado de nove horas. Mas, como encarnado que sou e, portanto, sofredor solidário das vicissitudes da matéria, ainda considero útil um nadinha de formalidade. Ou até, talvez, quem sabe, um dia, já sonhando alto, viajando e querendo demais, alguma gentileza, de vez em quando. Se não for incômodo.

Veja bem, não estou pedindo a ninguém para colocar cadeiras na calçada, sentar e conversar com os vizinhos, enquanto uns jogam canastra, outros cantam ao som do violãozinho e o restante esmerilha o Lula, o Requião e o Beto Richa. Nem me passa pela cabeça que façam serenatas, como aquele meu inesquecível tio de Santo Antônio da Patrulha. Menos, bem menos.

O que é que custa aos curitibanos aborígenes e agregados, meus caros companheiros de glórias e infortúnios subtropicais, responder emails, retornar ligações ou, sendo bem realista, ao menos retribuir os tímidos bons dias uns dos outros?

Afinal, não somos todos meio parentes por parte de Dalton Trevisan? Não trincamos a mesma broinha de fubá mimoso? Não bebericamos igual licor de ovo? Não viramos (ou estamos virando) mão-de-obra escrava à disposição de empresas paulistas e/ou multinacionais que para aqui vieram com a nobre intenção de economizar 80% nos salários? Não escrevemos textos estupidamente entupidos de perguntas? E, sobretudo, não compartilhamos a idêntica desconfiança de que os amigos ursos, autóctones do sul do Trópico de Capricórnio, entocados entre os rios Paranapanema e Iguaçu, são incapazes de gestos desprendidos, de espontânea generosidade e distraída boa intenção?

Sossegue. Essas minhas desconsiderações podem, muito bem, ser apenas azedume passageiro. Mas, às vezes, é conveniente tomar uma dose dupla de chá de losna com vinagre e limão galego, cujo fel, dizem, evita que se crie calo na alma e limo no coração. É bom manter-se purificado, pois vem aí a conflagração universal. Como dizem as profecias, ela vai começar de um encontro mau-humorado entre os tubões da torcida organizada Império Alviverde e os rosários dos fiéis da novena do Perpétuo Socorro –que, apesar de vizinhos há quase um século, nunca se cumprimentaram.

Agora chega desse desleixo com o espírito alheio. Vamos ser otimistas. Numa dessas, na última hora, vem a recompensa: o Papai Noel me traz mais um bonequinho do Homem Invisível para a coleção.

(Roberto Prado)

sábado, janeiro 20, 2007

A vida está pela hora da morte

Vivemos dias mortais. Vejam dois exemplos.


Primeiro (mais detalhes no blog do Solda), o Mário Celso Petraglia, poderoso chefão do Atlético PR, fica uma arara com um cartum do Tiago Rechia e liga ameaçando encher o artista de chumbo.

(Pausa para um diálogo imaginário:

"- Alô, aqui é o Mário..."

"- Que Mário?"

"- Aquele que te rodeou o fiofó de bala ao sair do armário.")


Mas, sério, dê uma olhada acima e, mesmo sem ser psicanalista, me ajude a entender o que pegou tão pesado e bateu tão fundo a ponto de magoar por dentro o dirigente esportivo. Para quem não sabe: o cara atendendo o celular representa o Petraglia e o sujeito pendurado simboliza o jogador Dagoberto, que sacaneia e é sacaneado publicamente pelo Atlético há uns bons dois anos. Uma relação nitidamente sadomasoquista, que o Tiago Rechia soube definir muito bem.

Segundo, o Thadeu finalmente virou réu confesso e vai publicar um capítulo a cada três dias da saga O dia que matei o Wilson Martins. Começando nesta segunda, dia 22. Para quem não sabe, o Wilson é um importante acadêmico, intelectual e crítico literário (neste quesito cometeu alguns pecados, especialmente em Poesia, área da qual o cara provou não manjar lhufas). Não sei bem que espécie de barbaridade o Thadeu inflingiu ao insígne professor-doutor, sua vítima. Mas não vou perder os capítulos nem morto. Viva!


Terceiro: mesmo que tudo esteja indo de mal a pior, lembre-se sempre que a vida é boa, a turminha é legal, o mundo é bacana e este é um país que vai pra frente. Por isso, recomendo, com grande entusiasmo que, por enquanto, ninguém pregue bala em ninguém. No mínimo, pelo inútil ridículo inerente ao ato, já que a morte, segundo consta, não existe.

domingo, janeiro 07, 2007

Fazendo chouriço com o próprio sangue

Beto Trindade, parceiro deste e de outros, diante de uma cerveja tcheca.


gentileza

maravilha
essa vida é uma uva
mesmo à pé
sem dinheiro, na chuva

ora viva lua estrela flor
samba

maravilha
só me sobra alegria
me maltratam
eu respondo bom dia

ora viva manitu pã ogum alá
krishna

agradeço
esta terra querida
só me enxotam
quando estou de saída

ora viva cor sabor amor
clima

(Roberto Prado e Beto Trindade)

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Um poema de mil novecentos e lá vai pedrada


Eis um poema de 1981, que acabou virando bela canção do Sidail, foi cantado pelas madrugadas dos caminhos mais esquisitos, estreitos e escamosos do roçado do bom Deus (como diria o Plínio Marcos), escoou pelos ralos, evaporou, tornou a chover e, sei lá por quais cargas d'água, eu não havia publicado até hoje. Aí vai, antes que vire fumaça.


Era bonito

foi bom
aquele pisar manso

as ruas de granito

era bonito
ter atirado pedras
na cidade

sem saber
que a cidade

é pedra

(Roberto Prado)

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Um poema aprovado pela minha mãe

Dona Nadyr e eu relembrando os bons tempos do rádio mudo.

Dia da criança

num lar ao léu onde chorar é a lei
alguém vagava pelas ruas do Brasil
vinha com saudades do Casimiro de Abreu
aurora da vida, imensa pátria sem pai

alguma coisa ali voltava aos trilhos
um calor carinho vindo de longe

pôs um novo menino entre meus filhos

com um sorriso não sei de onde

foi ali, na hora em que o céu era todo seu,
que eu acariciei meus cabelos por você

foi só ali, pai, que me adotei

e aí foi que senti, só, que só faltava eu

(Roberto Prado)


Outra coisa: dêem uma espiada no texto do Bortolotto sobre o Natal, Um presépio pra alimentar o incêndio

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Eu e a guerra de símios

Aí, macacada: o número 54 da revista Idéias, da Travessa dos Editores, saiu com esse texto, que versa, entre outras coisas, da minha reconhecida incompetência na arte do arremesso de fezes. E já tem outro engatilhado, para o número 56, com o singelo título de "Lamentações de um coitadinho subtropical", que deve estourar semana que vem nas bancas. Vejam lá.




Apela para a ignorância
o ser de alma macaca


Eu estava matutando cá com meus botões. Mas, como a roupa que uso não tem botão coisa nenhuma, garrei a imaginar se não somos todos um pouco responsáveis pela preservação das obras geniais que cruzam nosso caminho, tanto quanto pelo ar, pela água, pelas plantas, pelos bichos. Confesso a você – e peço que espalhe – que senti um tantinho de culpa ao verificar a degradação do habitat literário, a imundície jogada na terceira margem do rio, a asfixiante psicosfera que paira sobre a nação zumbi. O frágil ecossistema intelectual nativo virou atoleiro e, nesse brejo das almas, é natural que os tímidos pandas se recolham à sua extinção e os mosquitos da malária reinem absolutos. A gente deste século, assombrada, vê as últimas reservas cercadas de símios, esses sim, sempre dispostos a bater no peito, arremessar fezes e urinar nos cantos para demarcar seus territórios.

Agora chega desta ladainha: vamos empunhar as bordunas do espírito e defender a biodiversidade humana. Com muito respeito, é claro, pois sem ele você morre atropelado pelo carrinho de sorveteiro - como nos ensinou Nelson Rodrigues. Para começo de conversa, fim de papo, como disse o Marcos Prado: se eu, que sou eu, de vez em quando coloca um pouco de oxigênio nesta mistura, você, que é muito mais esperto, certamente será capaz de colocar muito mais. A primeira lufada de ar fresco, perfumado de araucária, eu mandei vir do Jamil Snege: “Já inspecionei a proa, / amarrei a carga, / desatei a vela. / O vento sopra forte / e enfuna meu coração de alegria. / Agora é contigo, Senhor. / Toma o leme / e risca o rumo do meu barco / - não penses que irei por este mar sozinho.” E de Minas Gerais, para as emergências asmáticas da vida, carrego sempre comigo uma bombinha de Affonso Ávila e o ar de sua graça: “dentro da faixa / fora do perigo / dentro da fauna / fora do perigo / dentro da farsa / fora do perigo / dentro do falso / fora do perigo / dentro do fácil / fora do perigo.” No meio do caminho tinha um Bertolt Brecht e com ele, respirando fundo, a gente aprende que o Brasil é lá e a Alemanha é aqui: “Sento na beira da estrada / Enquanto o motorista troca a roda. / Não gosto do lugar de onde venho. / Não gosto do lugar para onde vou. / Então por que espero essa troca de roda / Com tanta impaciência?” Você, que conhece a alma humana, já deve imaginar que, na maior tempestade, esse alemão um dia acabaria dizendo algo assim: “Fora essa estrelinha apagada, pensei, / Não temos nada / E ela está toda suja e devastada / Ela é nossa casa, / Nossa única casa / E olhe só o estado da coitada.” Da água corrente de uma montanha do Japão veio o Kobayashi Issa, para refrescar nossa pobre alminha com coisas como “o mendigo olha / e reconhecendo-me / devolve a esmola “ e molhar nossos olhos com uma alegria quase extinta: “a neve mexe / no calor das crianças / a aldeia se derrete”.

Bem, isso já é um começo. Agora é com você. Mas eu já vou avisando que participar dessa cruzada pela melhoria da atmosfera mental do país é arrumar para a cabecinha e encarar a ira da massa ensandecida (procedimento que eu sugiro seja realizado com bom humor, malícia e precisão). Portanto, nada de reclamações. A batalha é inglória para quem procura sarna para coçar, chifre em cavalo, cabelo em ovo – coisas que, muitas vezes, achará. Mas, em plena desgrama, garanto que, de vez em quando, ouvirá o Domingos Pellegrini, direto do seu sítio: “Cadê os chinelos / aquele sonho cadê / vou procurar de joelhos / assim já estou pronto para agradecer.”

Leia, espalhe e preserve o que é bom. Numa dessas você encontra por aí, soprando com o vento pelas ruas de Curitiba, os mestres Marcos Prado e Márcio Cobaia Goedert no exato momento em que flagaram e eternizaram um simples freqüentador da birosca de uma periferia qualquer: “o velho e o bar // o velhinho é a alma do negócio / deixa a nota amassada e sai catando cavaco / pensou que via o carlos drummond de andrade / mas era uma valeta no meio do caminho / o pau d’água mergulhou na areia movediça / transformando-se no monstro do pântano”.

E mais não digo, pois os meus botões preferiram guardar a boca pra comer farinha.


(Roberto Prado)


Notas:
1) “Apela para a ignorância o ser de alma macaca” - verso emprestado do poema “Todos os lugares a deus” de Marcos Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski. 2) Poemas de Bertolt Brecht – versão brasileira: Roberto Prado. 3)
Poemas de Kobayashi Issa – versão brasileira: Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Criatura memória

nossa senhora das minhas musas
minha angelical divina fada
que a treva bata em sua trave
antes da batalha ser travada

sopre sua brisa, diva santa elegância
relevo morno, enlevo doce, leite, úmida alvorada
me leve logo para que eu não esqueça
como essa vida é difícil de ser lembrada

(Roberto Prado)

sábado, dezembro 09, 2006

não acordei esta manhã porque não dormi

Tem coisa boa rolando na cidade. Confira abaixo e para ver os horários entre no site da Fundação.


Vai ter música, poesia, teatro, vídeo, cinema, performance, cartazes. Para sentir como vai ser, tome essa:

as mil e uma faces do desespero


não acordei esta manhã porque não dormi

ontem sorumbático, insone agora

com o mesmo olhar que te viu indo embora


quando é que você vai vir

e ver quem te viu e quer te ver?


só vejo no espelho angústia, depressão, melancolia

solidão, mágoa, saudade, desgosto

quando as madrugadas deixarão de ser noite e dia?


E mais esse:


se o teu amigo diz que entende

o que você está escrevendo

peça a ele um documento

mas antes registre a patente

se um inimigo diz que entende

o que não leu do que você está escrevendo

meta fogo em tudo que é documento

mate e descarregue na patente


se sentir, porém, que ninguém entende

o que você está escrevendo

jogue tudo que fez na patente


mas se sentir que você mesmo não entende

aquilo que está escrevendo

mergulhe, feliz, pela patente

(Marcos Prado)


segunda-feira, dezembro 04, 2006

Semana Marcos Prado: o andamento da parada


Lançamento de Os catalépticos. Ao fundo, o grande Adriano Sátiro.

Aos beijos, aos chutes, aos poucos, aos montes, Marcos Prado amava Curitiba e Curitiba amava Marcos Prado, cidadão que tinha uma presença capaz de fazê-la menos triste, menos cinza, menos pobre, menos jacu. Agora, passados 10 anos da sua morte, a rapaziada da cidade resolveu dedicar uma semana de dezembro (de 9 a 15 - data do aniversário do poeta) para colocar o bloco do Marcos Prado na rua. Saiba direitinho sobre os eventos clicando AQUI e indo a um belíssimo blog especialmente criado para a ocasião. Aproveito para postar três poemas e algumas fotos do Marcos.


Marcos, de chapéu, pressente a presença do fotógrafo no botecão. À mesa, Léia Leite observa.

todo dia encontro um artista novo
eu escrevo, eu pinto, eu desenho, eu canto
mas todos têm aquela cara de ovo
trato-os humildemente mas com espanto
isso não está escrito na cara deles
não vejo em nenhum o ar de sua graça
nem o trato nobre ou o ímpeto reles
raro o dono da própria desgraça

tenho por eles, porém, um amor triste
um amorzinho vagabundo, menos que inho
que de tão diáfano não sei como resiste
um dia pego um deles pelo colarinho
estrangulo no balcão aos gritos: despiste
não fique roxo, não obre, isso é um carinho

(Marcos Prado)

Marcos (à direita) observa Beijo AA Força detonando.

a mentira é a melhor amiga das artes
nela, gelatinosa, as glosas seculares
minúcias de paisagens inexistentes
um coração onde cabe um milhão diferentes

dondoca de agora, amanhã de coturno
segue sempre os passos de um antigo perjuro
a arte imita a arte que imita tudo
e é profunda, é verdade, bem no fundo

mas somos piores que os pintores de florença
ridículos comparados aos poetas de provença
michelângelo cagaria em cima de nossas estátuas
beethoven se limparia com as nossas pautas

que é a nossa dança diante de um delírio índio?
que é um soco nosso perto de um clay vindo?
por que, se finda é a arte, continuar mentindo?
repetir o que se repetiu de novo se repetindo?

(Marcos Prado)


O sofá é o melhor amigo do homem.

não há nenhum lugar melhor que o deserto para as idéias
ponha-se o nada sobre ou sob o absoluto e tudo será areia
o destino traçado e a rota escolhida do pensamento não calçam as mesmas pegadas
quando um homem pensa sozinho pensa por todos
não há liberdade maior do que estar sozinho no deserto nem sofrimento maior também
as idéias são como fragmentos de areia que se espalham e só
se juntam com exuberância quando
como dunas
cada dia num lugar diferente
quanto ao céu
ele não existe neste deserto por enquanto
onde ele está ninguém que caminha pelo deserto tem a mínima idéia

(Marcos Prado)

terça-feira, novembro 21, 2006

Lou Reed pela lírica de Marcos Prado

Os velhos e bons Lou Reed e Laurie Anderson

O Marcos Prado fez versões brasileiras de vários poetas, sozinho e em parceria com criaturas ilustres como o Sérgio Viralobos, o Thadeu, o Edilson Del Grossi e outras menos ilustradas, por exemplo, eu. Em outra vertente, traduziu poesia cantada de figuras clássicas, com o auxílio luxuoso de personagens heróicos como o Ivan Justen. Os dois juntos fizeram muitas e boas, pretendiam lançar um livro só de letras traduzidas - algumas em parceria com o Edson de Vulcanis, o Márcio Cobaia Goedert, o Edilson. É um livraço e até agora não saiu (apenas dois exemplos daquelas belezas estão ao alcance, de Jim Morrison e Lou Reed, publicados no livro Ultralyrics, que saiu pela Travessa dos Editores). Então, aqui vai mais um exemplo. Dos velhos e dos bons.

suzana, eu te amo

você partiu meu coração e me fez chorar
disse que não sou um cara com quem se dance
mas agora volto pra te provar
que sou chegado num romance

faça o que tem a fazer
faça o que puder suzana cano
faça o que quiser fazer
mas lembre: eu te amo

faça tudo de uma vez
e mais uma segunda, suzana cano
faça o que quiser fazer
mas lembre: eu te amo

amo quando está boa
amo quando está sacana
faça o que quiser fazer
mas lembre de quem te ama


(I love you, Suzanne - Lou Reed / Versão brasileira de Marcos Prado)

domingo, novembro 19, 2006

Jokerman

Uma das coisas legais da miséria brasileira é que basta revirar umas gavetas para se achar coisas geniais inéditas. Por exemplo, esse roteiro para um curta, feito pela dupla Marcos Prado e Thadeu, há uns bons 15 anos. Leiam e façam o filme na cabeça. Ou esperem sentados.

Papel de Palhaço

Roteiro para curta-metragem


Cena 1

Executivo entra em sua sala de trabalho, esfrega as mãos e senta-se à sua mesa. Está sorridente.

Pega uma das folhas que está sobre sua mesa cheia de papéis, lê, atenciosamente, e rasga. Joga no lixo.

Volta-se para a pilha e, já sem sorrir, avalia a quantidade de trabalho que tem pela frente.

Pega outro documento, lê, nem tão atenciosamente, e rasga. Repete o gesto. Parte pra cima de outro. E outro. E outro, assim, sucessivamente até estraçalhar o último pedacinho.

Ao lançar o último pedacinho faz gesto típico de Pelé ao marcar um gol. Câmera pega em big close o pedacinho de papel em sua trajetória até a cesta de lixo transbordante.

A euforia do executivo acaba com a entrada da secretária que traz nos braços uma enorme pilha de papel que, educadamente, deposita sobre sua mesa. De cima da pilha ela pega um documento para que o executivo assine. Vê-se claramente a palavra “Contratação”, no alto do papel.

Secretária sai com o documento sentindo todo o olhar de seu chefe sobre sua bunda.


Cena 2

Executivo e assistente, em suas respectivas mesas, rasgando papéis, bastante animados e decididos.

Várias pessoas trazendo pilhas de papel são mostradas apenas pelo detalhe de parte do corpo, à altura dos papéis que carregam.

Os dois, à medida que aumenta o volume das entregas, aceleram da mesma forma a linha de produção de papéis em pedaços.

O ritmo vai acelerando, gradativamente.

Big close em mão do executivo, que sangra após corte em um grampo. Executivo olha para a mão e é cercado por vários entregadores. Câmera filma-os do ângulo de visão do executivo. Ou seja, aparecem pilhas de papel rodeando a sua mão.

Abruptamente, executivo reinicia o trabalho, deixando sangue sobre os papéis que rasga.

Ritmo dos carregadores aumenta ainda mais.


Cena 3

Secretária entra, munida de guilhotina e picador de documentos e une-se aos dois que estão descabelados e desgravatados, trabalhando alucinadamente.

O detalhe é que ela ajeita os papéis delicadamente para só então destruí-los.

O executivo levanta, abre um fresta na persiana e espia.

Câmera sai dali para a rua, onde caminhões, carros, garis, carteiros, carregadores e transeuntes curiosos estão na maior agitação.

O que está acontecendo na verdade é o seguinte: caminhões de lixo de um lado e caminhões de entrega do outro estão provocando o caos no trânsito da rua, pelo descomunal congestionamento.

No corredor do prédio, uma verdadeira guerra está sendo travada entre os que entram com papéis e documentos e os que saem com os sacos de papel picado.

Clima pesado. Empurrões. Sacadas.

Câmera retorna pela mesma fresta. O escritório a esta altura já está quase tomado pelos papéis.

Na pilha ao lado de seu assistente que está na últimas forças, quase completamente esgotado, câmera dá um close na guilhotina onde se vê a mão da secretária separada do corpo mas segurando firmemente um maço de papéis.

Assistente desaparece.

Executivo olha para as pilhas que despencam sobre ele e pula, como se estivesse mergulhando. Câmera acompanha seus movimentos. Close para emersão no meio dos papéis, executivo respira aliviado, puxa o ar e mergulha decidido.


Cena 4

Executivo mergulhado em mar de papéis, chegando ao relógio ponto. Limpa o local, localiza o seu cartão ponto, introduz na máquina, bate o ponto, confere e rasga-o.

Câmera tipo olho do executivo vai passando pela ficha técnica que nada mais é do que fragmentos de envelopes e documentos que estão no caminho.

A câmera é também filmada por outra câmera saindo em direção à porta.

Volta em close para os envelopes e papéis com os últimos nomes da ficha técnica e sai para a calçada, onde está, bem no meio, um solitário e pequenino pedaço de papel rasgado escrito fim, à mão.

(Marcos Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

domingo, novembro 12, 2006

Para a segunda feira fluir melhor


Um dia desses

Nuvens leves, vento sereno, quase meio-dia.
Diante das flores, um regato corre,
sorrindo entre os chorões.
Os homens não podem compreender
a alegria que transborda do meu coração.
Dizem que estou alegre sem motivo,
como uma criança.

Li Po (China, 701-762 d.C. Versão brasileira: Roberto Prado)

Um livro que eu levava no bolso do casaco


Um trechinho do livro Invenção de orfeu, do Jorge de Lima, cuja leitura eu recomendo com entusiasmo juvenil desde 1976 e que a senilidade não me deixou esquecer.

Também há as naus que não chegam
mesmo sem ter naufragado.
Não porque nunca tivessem
quem as guiasse no mar
ou não tivessem velame
ou leme ou âncora ou vento
ou porque se embebedassem
ou rotas se despregassem,
mas simplesmente porque
já estavam podres nos troncos
da árvore de que as tiraram.

Jorge de Lima (1895/1953)



quarta-feira, novembro 08, 2006

Mistérios infra-informáticos


Não posso dizer o que aconteceu com o blog durante esses dias. Pessoas reclamaram que ficou inacessível, conteúdos teimaram em não aparecer, algumas coisas sumiram de vez. Sei lá. Mas joguei sal grosso em volta da CPU, coloquei uma vassoura de ponta cabeça atrás da porta e parece que agora voltou a engrenar. Espero.

parafuso

longas datas até parecem ontem
monte de coisas tem memória curta
ando a cata de que me contem
certos fatos de maneira torta

o corpo crê lembranças vivas
a alma diz sofrer horas mortas
e se separam na via das dúvidas
deixando ontens pra pagar na volta

ao desencarnar não me desmontem
certamente falta um parafuso
algumas partes há que se rompem
entre outras já quase sem uso
(Roberto Prado)