linha morta, rima posta
apuro indícios após o crime
faca não, nenhum revólver
bem mal o enigma se resolve
volta ao local a alma mordoma
quem cometeu nada o detinha
digital zero, testemunha em coma
o fim da linha não foi a rima
(Roberto Prado)
Apenas mais um coração fazendo barulho.

no batuque do coração
rimo rindo
rimo porque sim
rimo indo e vindo
quanto mais rimo melhor
rimo sim e daí?
vivo porque rimo
se rimo amanhã saberei
rimo sempre
rimo uma eternidade
rimo porque morri
confesso que rimei
rimo porque em verdade
em verdade eu sei
que mesmo naquele dia
se a rima me faltar
rimarei
tantã
por dentro e entre
pela vida afora
e antes
hora após hora
por exemplo, agora,
eu rimo sempre
às vezes bato fraco
nenhuma razão de orgulho
somente mais uma canção
apenas mais um coração
fazendo barulho

Vida Obscura
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-se mais simples e mais puro.
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.
E o teu suspiro como foi profundo!

A Iara Teixeira deu um susto em todos que amam a graça, o charme e o veneno do seu talento luminoso.
(Roberto Prado)
Primeiro (mais detalhes no blog do Solda), o Mário Celso Petraglia, poderoso chefão do Atlético PR, fica uma arara com um cartum do Tiago Rechia e liga ameaçando encher o artista de chumbo.
Segundo, o Thadeu finalmente virou réu confesso e vai publicar um capítulo a cada três dias da saga O dia que matei o Wilson Martins. Começando nesta segunda, dia 22. Para quem não sabe, o Wilson é um importante acadêmico, intelectual e crítico literário (neste quesito cometeu alguns pecados, especialmente em Poesia, área da qual o cara provou não manjar lhufas). Não sei bem que espécie de barbaridade o Thadeu inflingiu ao insígne professor-doutor, sua vítima. Mas não vou perder os capítulos nem morto. Viva!gentileza
essa vida é uma uva
mesmo à pé
sem dinheiro, na chuva
ora viva lua estrela flor
samba
maravilha
só me sobra alegria
me maltratam
eu respondo bom dia
ora viva manitu pã ogum alá
krishna
agradeço
esta terra querida
só me enxotam
quando estou de saída
ora viva cor sabor amor
clima
(Roberto Prado e Beto Trindade)

Era bonito
foi bom
aquele pisar manso
as ruas de granito
ter atirado pedras
na cidade
que a cidade
é pedra
(Roberto Prado)
Dia da criança
num lar ao léu onde chorar é a lei
alguém vagava pelas ruas do Brasil
vinha com saudades do Casimiro de Abreu
aurora da vida, imensa pátria sem pai
um calor carinho vindo de longe
pôs um novo menino entre meus filhos
com um sorriso não sei de onde
que eu acariciei meus cabelos por você
foi só ali, pai, que me adotei
e aí foi que senti, só, que só faltava eu

Apela para a ignorância
o ser de alma macaca
Bem, isso já é um começo. Agora é com você. Mas eu já vou avisando que participar dessa cruzada pela melhoria da atmosfera mental do país é arrumar para a cabecinha e encarar a ira da massa ensandecida (procedimento que eu sugiro seja realizado com bom humor, malícia e precisão). Portanto, nada de reclamações. A batalha é inglória para quem procura sarna para coçar, chifre em cavalo, cabelo em ovo – coisas que, muitas vezes, achará. Mas, em plena desgrama, garanto que, de vez em quando, ouvirá o Domingos Pellegrini, direto do seu sítio: “Cadê os chinelos / aquele sonho cadê / vou procurar de joelhos / assim já estou pronto para agradecer.”
Leia, espalhe e preserve o que é bom. Numa dessas você encontra por aí, soprando com o vento pelas ruas de Curitiba, os mestres Marcos Prado e Márcio Cobaia Goedert no exato momento em que flagaram e eternizaram um simples freqüentador da birosca de uma periferia qualquer: “o velho e o bar // o velhinho é a alma do negócio / deixa a nota amassada e sai catando cavaco / pensou que via o carlos drummond de andrade / mas era uma valeta no meio do caminho / o pau d’água mergulhou na areia movediça / transformando-se no monstro do pântano”.
E mais não digo, pois os meus botões preferiram guardar a boca pra comer farinha.
Notas: 1) “Apela para a ignorância o ser de alma macaca” - verso emprestado do poema “Todos os lugares a deus” de Marcos Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski. 2) Poemas de Bertolt Brecht – versão brasileira: Roberto Prado. 3) Poemas de Kobayashi Issa – versão brasileira: Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski
nossa senhora das minhas musas
minha angelical divina fada
que a treva bata em sua trave
antes da batalha ser travada
relevo morno, enlevo doce, leite, úmida alvorada
me leve logo para que eu não esqueça
como essa vida é difícil de ser lembrada
(Roberto Prado)

as mil e uma faces do desespero
não acordei esta manhã porque não dormi
ontem sorumbático, insone agora
com o mesmo olhar que te viu indo embora
quando é que você vai vir
e ver quem te viu e quer te ver?
só vejo no espelho angústia, depressão, melancolia
solidão, mágoa, saudade, desgosto

E mais esse:
se o teu amigo diz que entende
o que você está escrevendo
peça a ele um documento
mas antes registre a patente
se um inimigo diz que entende
o que não leu do que você está escrevendo
meta fogo em tudo que é documento
mate e descarregue na patente
se sentir, porém, que ninguém entende
o que você está escrevendo
jogue tudo que fez na patente
mas se sentir que você mesmo não entende
aquilo que está escrevendo
mergulhe, feliz, pela patente
(Marcos Prado)

Marcos, de chapéu, pressente a presença do fotógrafo no botecão. À mesa, Léia Leite observa.
todo dia encontro um artista novo
eu escrevo, eu pinto, eu desenho, eu canto
mas todos têm aquela cara de ovo
trato-os humildemente mas com espanto
isso não está escrito na cara deles
não vejo em nenhum o ar de sua graça
nem o trato nobre ou o ímpeto reles
raro o dono da própria desgraça
tenho por eles, porém, um amor triste
um amorzinho vagabundo, menos que inho
que de tão diáfano não sei como resiste
um dia pego um deles pelo colarinho
estrangulo no balcão aos gritos: despiste
não fique roxo, não obre, isso é um carinho
(Marcos Prado)
Marcos (à direita) observa Beijo AA Força detonando. a mentira é a melhor amiga das artes
nela, gelatinosa, as glosas seculares
minúcias de paisagens inexistentes
um coração onde cabe um milhão diferentes
dondoca de agora, amanhã de coturno
segue sempre os passos de um antigo perjuro
a arte imita a arte que imita tudo
e é profunda, é verdade, bem no fundo
mas somos piores que os pintores de florença
ridículos comparados aos poetas de provença
michelângelo cagaria em cima de nossas estátuas
beethoven se limparia com as nossas pautas
que é a nossa dança diante de um delírio índio?
que é um soco nosso perto de um clay vindo?
por que, se finda é a arte, continuar mentindo?
repetir o que se repetiu de novo se repetindo?
(Marcos Prado)

O sofá é o melhor amigo do homem.
não há nenhum lugar melhor que o deserto para as idéias
ponha-se o nada sobre ou sob o absoluto e tudo será areia
o destino traçado e a rota escolhida do pensamento não calçam as mesmas pegadas
quando um homem pensa sozinho pensa por todos
não há liberdade maior do que estar sozinho no deserto nem sofrimento maior também
as idéias são como fragmentos de areia que se espalham e só
se juntam com exuberância quando
como dunas
cada dia num lugar diferente
quanto ao céu
ele não existe neste deserto por enquanto
onde ele está ninguém que caminha pelo deserto tem a mínima idéia
(Marcos Prado)
suzana, eu te amo
você partiu meu coração e me fez chorar
disse que não sou um cara com quem se dance
mas agora volto pra te provar
que sou chegado num romance
faça o que puder suzana cano
faça o que quiser fazer
mas lembre: eu te amo
faça tudo de uma vez
e mais uma segunda, suzana cano
faça o que quiser fazer
mas lembre: eu te amo
amo quando está boa
amo quando está sacana
faça o que quiser fazer
mas lembre de quem te ama
Uma das coisas legais da miséria brasileira é que basta revirar umas gavetas para se achar coisas geniais inéditas. Por exemplo, esse roteiro para um curta, feito pela dupla Marcos Prado e Thadeu, há uns bons 15 anos. Leiam e façam o filme na cabeça. Ou esperem sentados.Papel de Palhaço
Roteiro para curta-metragem
Cena 2
Cena 3
Clima pesado. Empurrões. Sacadas.
A câmera é também filmada por outra câmera saindo em direção à porta.
(Marcos Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

Um dia desses
Nuvens leves, vento sereno, quase meio-dia.
Diante das flores, um regato corre,
sorrindo entre os chorões.
Os homens não podem compreender
a alegria que transborda do meu coração.
Dizem que estou alegre sem motivo,
como uma criança.

Também há as naus que não chegam
mesmo sem ter naufragado.
Não porque nunca tivessem
quem as guiasse no mar
ou não tivessem velame
ou leme ou âncora ou vento
ou porque se embebedassem
ou rotas se despregassem,
mas simplesmente porque
já estavam podres nos troncos
da árvore de que as tiraram.
