sexta-feira, outubro 13, 2006

E o tempo não passa, torcida brasileira.


A CPI havia perdido a graça. A poeira baixou e, junto dela, nós também retomamos aos poucos o contato com a insuportável crosta terrestre.

Mas, quando o vazio da alma já ameaçava entrar em colapso e se tornar um buraco negro, eis que veio a salvação: a Copa. A Copa, claro, a Copa, como é que a gente pode esquecer uma coisa dessas? Só a expectativa já nos ergueu sete palmos acima do chão.

De repente, lá estávamos nós, inflados de gases nobres, leves criaturas aladas, livres da praga bíblica que nos condenou a cavocar a terra. Infelizmente, até a própria Copa do Mundo um dia tem fim. O indulto de futebol acabou, a lei da gravidade voltou a vigorar, vestimos a velha camisa listrada e saímos por aí, com bola de ferro no pé e picareta na mão.

As promessas do Pan, assim como desgraça pouca, não nos comovia. A máquina do tempo, emperrada, fez com que as semanas passassem a se arrastar penosamente, desembocando em segundas-feiras com o peso de muitos janeiros.

O resto você já sabe: para nossa sorte, era ano de eleição. O sol retomou seu ritmo, a vida se reconstruiu, cheia de fé, à espera das pesquisas, das denúncias, das anedotas, dos santinhos e, acima de tudo, dos debates, meu Deus, os benditos debates. Até a chuva parou, para não atrapalhar com aquele barulho irritante de água caindo pelas calhas. Agora, com licença, somos amigos, você é muito boa gente, mas, fique quieto, silêncio, nem mais um pio:

- Quer fazer o favor de calar essa boca, que eu estou tentando ouvir o horário eleitoral?


uma letra

puxe um silêncio do estoque
e deixe a letra bater
chame um batuque exato
para o silêncio dançar

puxe
chame
dance
e deixe

evoque que vem
no espírito da letra
todas as letras

que o silêncio tem

quarta-feira, setembro 27, 2006

Um texto do Tao

Eu, o Alberto Centurião e o Antonio Thadeu Wojciechowski encaramos a parada de traduzir a obra do sábio chinês Lao Tse. O resultado foi Tao: O Livro. Aproveitando a deixa eleitoral, selecionei dois dos 81 textos do livro, publicado em 2001 e sob ameaça de reedição. Leiam e me digam: é ou não é?

Conservador Revolucionário

O conservador é escola do revolucionário.
O revolucionário é mestre do conservador.

Por isso o homem de Tao revoluciona a poeira dos caminhos
mas conserva o peso da responsabilidade.

Não perdendo o sono por aplausos ou vaias
a vida não lhe é um pesadelo.

É claro que é possível ordenar pelo não mandar
sem necessidade de conflitar os extremistas.

No púrido conservadorismo o bem se imobiliza.
Na frívola revolução o que é ruim vira moda.


O Ter Coração

Sábio não tem opinião nem sentimento.
Nem por isso deixa de saber o que o povo acha
e de sentir muito o que o povo sente.

O bem e o mal dos outros
lhe são indiferentes
pois estão fora de si.

O bem está bom.
O mal também.
Para o bom diz: não está nada mau!
Para o mau diz: tenha a bondade!
Tao é a virtude.

A mentira e a verdade dos outros
não lhe são diferentes
pois estão dentro de si.

A verdade é crível.
A mentira é incrível.
Para os honestos diz: é verdade!
Para os mentirosos diz: não diga!
Tao é a fé.

O sábio não precisa viver no outro mundo
pois esse é um mundo bom e verdadeiro.
No coração do sábio cabe todo mundo
e todo mundo sabe quem são seus filhos.

(Textos extraídos de Tao: O Livro, de Lao Tse, tradução de Alberto Centurião, Roberto Prado e Thadeu Wojciechowski)

quinta-feira, setembro 21, 2006

Lá por volta de 1986, eu o Marcos, o Thadeu e o Sérgio Viralobos publicamos um livro chamado “Perolas aos poukos & Erdeiros do azar”, que tem o capítulo “Odiário Político”, de onde extraí o poema abaixo.


DEMOCRACIA

"declaro agora o carnaval
repitam a sobremesa
e antes do cair do sol
acabe-se a pobreza"


(Beto Trindade/Roberto Prado)


o povo desse povoado
resume tudo num refrão
"só dá ladrão, só dá ladrão"
mas sempre vota no mais votado

o povo é mais um na multidão
não vejo ninguém do meu lado
patife, pilantra, escroque, deputado
são sinônimos de rufião

"o povo não merece perdão"
pensa o general desde soldado
"o exército não tem salvação"
diz o povo de rabo espichado

esse povo nasceu no país errado
só existe em dia de eleição
e ainda assim porque é feriado
e logo voltam à sua nação

(Marcos Prado, Roberto Prado, Antonio Thadeu Wojciechowski)

sexta-feira, setembro 15, 2006



autobiografia animal


1. deixando passar

o polvo
cansa menos
se me movo

2. cadela mia: errata
(Com Marcos Prado)

cadela vira gata
alquimia
vira lata

3. nobreza

existe algo
na rua o cão manco
vira galgo

4. o melhor amigo

rua vazia
a sarna do cachorro
única alegria

5. ontem?

passo de lesma
parece que foi ontem
era ontem mesmo

6. é isso aí, bicho

fome canina
força de touro
sapiência girina

quarta-feira, setembro 13, 2006

Um trecho do Apocalipse



Certa feita, eu e o Thadeu resolvemos fazer a tradução de um texto do João Evangelista, extraído do livro Apocalipse, para a página que naqueles tempos a gente editava na Gazeta do Povo. E fizemos. E publicamos. Veja como ficou.


Visões de Babilônia

E partiu, caiu, ruiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios e covil de toda espécie de espírito mau e destino de toda a corja de vampiros e esconderijo de toda ave imunda e detestável.

E os seus pecados se acumularam até o céu. Recebei agora, segundo as suas obras: o quanto a si mesma se glorificou e viveu em luxúria, colhei igual medida de tormento e dor e pânico e terror.

Choram os reis da terra, mas não a socorrem, de longe, covardes, sussurrando: “ai de ti, poderosa cidade, que chegou sua hora”.

E sobre ela lamentam os mercadores da terra, que por meio da sua prostituição enriqueceram, tremendo, fugindo, blasfemando: “ ai, grande Babilônia, compradora e vendedora de almas, vestida de linho finíssimo, de púrpura e escarlata, adornada de gemas delicadas e pérolas raras, num só golpe foi devastada.”

E todos que se venderam e que dela sugaram e nela viveram e que com ela lucraram na opulência, se afastarão, diante da queda colossal.

E a grande Babilônia do bom e do melhor nunca mais será achada. Nem ruína de espetáculo, nem memória de ciência, nem caco de indústria, nem algazarra de casais e filhos, nem nenhum pio de passarinho se ouvirá na Babilônia caída.

Porque os seus reis foram algozes e seus vendilhões dominaram a terra e todas as nações foram profanadas pelas suas armas e seduzidas pelo seu ouro e desencaminhadas pela sua boca e pervertidas pela sua feitiçaria.

Porque o chão de Babilônia bebeu o sangue dos santos, dos profetas, dos justos, dos simples e dos puros e seu poder embriagado é cúmplice de todos os assassinatos da Terra.

Adeus, Babilônia, adeus. Aleluia, Babilônia, aleluia. Só a fumaça diz o que você foi. E só ela te chora e só ela te eleva, Babilônia, pelos séculos dos séculos, agora.

(Texto de João Evangelista, do livro Apocalipse. Tradução de Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

sábado, setembro 09, 2006

imperativo da primavera

humano, assuma o ar silvestre
época de amor conforme o calendário

flores façam tudo o que não digo

coração, aceite o eixo terrestre

ninho esta vida leve no bico
viva de brisa o papo sozinho
estações, aqueçam seu poeta
primaveras, passem com carinho

(Roberto Prado)

terça-feira, setembro 05, 2006

A próxima aventura

Um dia a gente vai acordar com saúde e ânimo de criança esperta, olhar em volta e ver que tudo vai dar certo. Parece loucura, mas, no fundo, sempre fomos assim, dispostos a embarcar em grandes aventuras. E é por isso mesmo que vai dar tudo certo.
Parece doideira? Os navegadores antigos venceram oceanos. Quem diria? Um bando de europeus que despejavam o urinol pela janela, com meia mentalidade medieval mal digerida nos miolos, alguns deles com resquícios de uma terra quadrada na cachola, foram capazes de largar tudo e enfrentar o desconhecido em barcos que mais pareciam cascas de nozes com fraldas esticadas.

Dá para acreditar? E se alguém predissesse que, entre esses europeus, justamente os lusitanos se destacariam em técnica e arrojo, seria internado em inglês, desprezado em holandês, preso em francês, xingado em italiano e assado em espanhol. Quem acreditaria? No entanto, aqui estamos nós, falando português e provando que o impossível está aí para acontecer.

Quem sabe as coisas mais inimagináveis existam justamente para nos dar água na boca, coceira nos miolos e aquela sensação infantil de que você é o herói e que tudo um belo dia vai dar certo. Inclusive deste lado do Atlântico, inclusive no Brasil, inclusive bem aí, inclusive, em sua casa.

Por isso, não queira sair por aí como um maluco. E nem pense em se apresentar para o próximo vôo a Marte. Lá é mais frio que Curitiba. A melhor parte da aventura é o fato dela ser uma viagem que começa sem ser preciso sair.

Mire-se na lição zen: você já passou milhares de vezes por um lugar e, de repente, um belo dia, sem que nada tenha mudado, fica surpreso com um detalhe inesperado que, na verdade, sempre esteve presente naquela paisagem. É essa a iluminação, a sua iluminação pessoal e intransferível, que liberta das trevas as maravilhas que você já tem. Só não as deixa maravilhar.

Mas quando a gente acordar dentro da aventura, é claro que não vai querer estar sozinho. E é aí que está o verdadeiro desafio, o “impossível”, o “improvável”, o nosso oceano desconhecido: não queremos partir deixando amigos para trás e, portanto, tudo tem que dar certo para eles também, ou será apenas mais uma banal aventura solitária.

Sozinho não tem graça, fica parecendo o que aconteceu daquela outra vez, quando a gente ainda achava que tinha que ir bem longe para chegar na frente. Sozinho, o novo mundo é muito chato.

Não! Desta vez, levaremos todos os amigos, todos os amores (ou ser levados por eles, tanto faz). E eles serão quase todos. É claro, vamos fazer uma grande farra, conversar, cantar e dizer poemas. O meu, inclusive, já está até escrito:

a volta triunfal

aqui vamos fazer nossa casinha
ali a fábrica não ficará muito longe
uma escola com vista para a montanha
e o templo sem imagem nenhuma

desta vez não vamos sujar o rio
nem inventar leis desalmadas
apenas novamente simples heróis
descobrindo mundos, trocando fraldas


(Roberto Prado)

quinta-feira, agosto 31, 2006

Vamos sofrer lá no meu apê?

Um tio meu, lá de Santo Antônio da Patrulha, costumava dizer que amizade é vício. E ainda tinha a pachorra de explicar que a doença começava na simpatia, da raiz grega synpathein, algo parecido com “sofrer junto”. Ser amigo dói e faz doer? Confesso que eu, mesmo cultuando a genialidade desse meu tio, não conseguia digerir completamente o conceito, apimentado demais para um mero iniciante no mundo das drogas emocionais. Turbinado pelo meu bando e protegido pela minha turba, eu ainda era incapaz de avaliar os terríveis efeitos colaterais produzidos pelo hábito de compartilhar as dores da tribo.

Agora, vamos aos phatos, como diria, carregando no sal, aquele meu tio. Pense na expansão global de todos os tipos de bordéis e diga se não é verdade que esse sucesso estrondoso nasce da busca do prazer no contato descompromissado com estranhos, inimigos e indiferentes. Seria a prostituição nas relações uma forma de fugir das simpáticas criaturas pelas quais nos doemos de graça? O que vendem os barões da felicidade? Amigos, amigos, negócios à parte, não damos um tostão furado para os coitados que conhecem a nossa face sofredora, a não ser quando eles inventam de adoecer. E, pior, quando se vão sem obedecer o pacto de morrer todo mundo abraçado.

Hoje, depois de uma desabalada sucessão de janeiros, vejo claramente que, assim como esse meu tio de Santo Antônio da Patrulha, venho me entregando gostosamente ao vício de sofrer em grupo. Viver dói, o mundo é cheio de arestas e em todo canto existe uma quina pronta para saltar sobre a sua canela. Por isso, continuo cultivando uma sábia burrice: mais triste que levar no lombo junto com os amigos, é ser feliz em má companhia.


é de quem não pegar

tanta coisa Deus dá
tonto fico observando
desisti de pegar

se dou-me uma folga pra pensar
esse muito que cai do céu
eu tento, mas não sei abraçar

cada sonho em seu lugar
Deus dá demais
fico com o que deixo passar

algo, se me cabe, gruda sem pesar
sobras, descansem em paz
amigos, nada a separar

(Roberto Prado)

sexta-feira, agosto 25, 2006

DO AUTO-ATRAPALHO À CULPA DOS OUTROS: A ARTE DE DAR ERRADO

De certo modo é reconfortante saber que o costume de dar com os burros n’água e ver a vaquinha brejeira atolada até o gorgomilo não é um problema pessoal, mas característica profunda da alma brasileira. Atire o primeiro projeto gorado aquele que dentre vós nunca fracassou. Por isso, não fique triste, não se zangue, sossegue o coração: esse tropismo ancestral para o infortúnio não é motivo de vergonha ou constrangimento. Não precisa discutir com a patroa, bater nos filhos e sair par aí atropelando velhinhas por uma coisinha à toa dessas. Sem escândalos e chiliques, por favor. Afinal, não é culpa de ninguém.

Fracassamos, sim, e daí? Talvez seja um resquício do carma coletivo pelos pecados da escravidão o que nos leva a achar razoável comprar uma kombi para puxar banana caturra de Antonina, empacotar farinha suruí de Guaraqueçaba, distribuir pinga com mel de Morretes. Quem sabe as atrocidades cometidas contra os paraguaios ainda atraiam espíritos vingativos que nos cochicham para investir em avestruz, plantar pupunha, abrir aquela pousada em Matinhos ou mais um bar em Curitiba. E essa pressa de enfrentar o muro com a cabeça, essa disposição de abrir caminho para o abismo, essa ânsia de esmurrar pontas de faca, essa vontade de pegar o touro à unha, essa coragem de passar a mão no traseiro do Mike Tyson – tudo isso não pode ser considerado também um grande fator de integração nacional?

Portanto, nada de ficar lamentando igual a um maricas. Você não é melhor do que ninguém por ter duas ou três firmas enroladas, pessoas jurídicas que, aliás, jamais sairão dos registros oficiais, pois está cientificamente comprovado que é impossível fechar uma empresa neste país. Se a paciência do Bush permitir e o mundo sobreviver, o seu tropeço ficará eternamente a engordar os números da nossa economia, alimentando as estatísticas e comprovando a espetacular habilidade dos governantes de plantão em sua santa tarefa de disseminar o espírito empreendedor. Chega de choramingos, isso aí é só mais um pouquinho de Brasil, iaiá.

E se o Brasil houvesse levado a Copa do Mundo pela sexta vez? Isso não teria sido uma ofensa à nação, espécie de humilhação coletiva, sucesso capaz de esmagar gente como a gente, que usa as pilhas de recibos e cartões das firmas falidas para anotar recados telefônicos e nivelar o pé do armário? Nada disso. Basta lembrar que os nossos clubes são tão perdedores que nenhum daqueles hoje apedrejados artistas da bola joga no time nosso ou no time teu - sequer moram no país do futebol.

E para que você fique totalmente reconfortado, saiba que o caneco mundial do empreendedorismo é verde e amarelo: são mais de 500 mil novos negócios abertos por ano. Recorde absoluto. Mas, como não deixamos por menos e queremos ser campeões em tudo, cerca de 450 mil dessas portas se fecham antes de completar 12 meses, marcadas pela asa do corvo, levadas no bico do urubu e arrastadas para as profundezas pelo tsunami constante dessa maré de azar. Sorte nossa: é nós na fita, é o Brasil na frente, é outra medalha de ouro para a coleção.

Devagarzinho, quase sem querer, socializamos o azar. Quando não chutamos direto na bandeirinha de escanteio, tudo sempre dá na trave para todos, indistintamente, pois ela é grossíssima, o gol é pequeno, o goleiro é imenso, a bola é quadrada e o gramado também não ajuda. Pobres e ricos, irmanados, estão fracassando e andando juntos por este país-continente. Os humildes querem ir dar banho em defunto no exterior, voltar com uma bela bolada e abrir a franquia estrangeira que estiver mais em conta. Os posudos esperam que, no último minuto da prorrogação, chegue aquela multinacional para injetar uma grana preta nas suas outrora prósperas marcas e, de xepa, sonham emplacar um emprego de executivo na ex-empresa, pois – não é nada, não é nada – ao menos aparece na televisão. A gringarada, mesmo sem entender direito o que se passa, compra tudo e ainda paga mais do que valemos. Pedem logo dois, um para comer no local, outro embrulhado para viagem. Lá de onde eles vêm ninguém gosta de ser chamado de “looser” – felizmente um termo sem tradução em português. Então, dão a maior força, que é para a gente não ficar na pior.

Agora, me desculpem, vocês são muito boa gente, o papo estava ótimo, mas eu tenho que resolver uns negócios, acertar com o contador, passar na prefeitura, tirar licença, comprar um carrinho, falar com o vereador, conseguir um ponto. Pois com essa minha idéia genial do cachorro-quente de três vinas não tem erro: é correr para o abraço. Ou para a fronteira do México.

(Roberto Prado - publicado originalmente na revista Idéias)

quarta-feira, agosto 16, 2006

Larguem mão: meninos, eu li.



Eis um texto que já nasceu milenar e deveria ser imprenso nos cadernos escolares, no lugar da letra do hino. Salve Fraga, que o concebeu e ave Solda, que o publicou. Largo mão e divido a pérola.


Ter – verbo intransitório.
(Fraga)
O dia descamba na praça. Hora de escambo: dou meu olhar, o sol me dá seu pôr. Raios aquarelados tingem as pessoas, etnia nova em torno de bolas. Jogos na quadra, eu no jirau do banco, julgando as gingas juvenis.

De repente, o homem e seu enferrujado carrinho de supermercado param por perto. Troco o alambrado pelo gradeado do carrinho. Através da trama de metal invado sua propriedade. Tudo o que tem na vida, à vista. Enquanto não me nota, catalogo o que cata: utensílios sem utilidade (para mim), velha valise valiosa (para ele), lataria, embalagens plásticas, e sacões e sacolas cheias de sacos cheios de saquinhos. Todo o seu tesouro. Amarrado às laterais, atrás, à frente, patrimônio incomensurável, além de irrespirável. O homem mexe, remexe, remelexe. Tudo exclusivo de seus gadanhos.

Esse proprietário do nada me inquieta. Automaticamente, meto as mãos nos meus poucos e próprios bolsos. Faço um balanço instantâneo de posses. E indagações se apossam de mim: o que possui esse desvairado? O que acumula alguém que nem razão tem mais? Diante dos meus olhos voltados para outros tempos, uma fila de insanos ajuntadores de trecos. Como nas ruas, se multiplicam na memória.

Reparo e separo bem: não são mendigos, papeleiros – não é a sobrevivência que move esses pirados. Desfilam para a minha incompreensão, todos firmemente agarrados a seus embrulhos, trouxas, caixas. Quasímodos com pacotes mal-feitos e desfeitos no menos cotidiano dos cotidianos. O que possuem tais mentes? Quanto carregam de seu, de si, para si? O que os impele a agregar mais e mais do menos? Tiro as mãos dos bolsos, vazias de sentido.

O homem do carrinho não olha o jogo, não olha nada nem ninguém. Se ocupa de sua tralha. Revira o revirado, de novo, e outra vez. Afrouxa e aperta nós; desfaz e refaz amarras, agitado sempre. Está atado ao que juntou. Protege seus bens com cordões que já foram coloridos, barbantes emendados, fios em frangalhos. Um dispensável desvelo protecionista, dada a desimportância da sua imunda riqueza para a rapinagem reinante ao redor. O homem apalpa cada saco, radar tátil a confirmar conteúdos, ri quando reconhece posses extraviadas no monturo móvel. Breve sossego: mão pousada num “meu”. A mão alça vôo, recomeça a busca. Estouram bolas no alambrado, ele não reage. Desplugados não se assustam.

Por que e para que somos donos? Sãos ou não, de quinquilharias nos enchemos, abarrotados de badulaques. Muletas luxuosas, bengalas miseráveis. Mais vultos assomam, sobrecarregados de pertences despossuídos por outros. E os sacos, os sacos, sacos e sacos, sacos e mais sacos. Os mais malucos entre os mais doidos varridos, os que não vêem o mundo que vemos, principalmente eles, não tinham, nunca, as mãos livres. Sobraçavam seus volumes em zelo animalesco, ciumento e temeroso, o possessivo elevado à irracionalidade. Que residual sentimento de posse perdura neles? Por que tal instinto prevalece enquanto ruíram os demais? E qual loucura enlouquece tanto a tantos mas nunca a ponto de desligar o mecanismo da mão possessiva na direçăo de quaisquer coisas?

A mão não pára, pendura sacos. Talvez os últimos ganchos enganchados na realidade. O homem do carrinho some enquanto penso no que tenho ou não tenho. No que tive e deixei de ter, no que quis ter e não consegui, no que pude e não quis ter. Rol imaterial maior que o rol material. As sombras catadoras saem da imaginaçăo. Desaparecem no lusco-fusco da praça. O jogo cessou, outras sombras apanham roupas, objetos, ninguém sai sem nada da quadra. Pego minha bolsa no banco e me vou. Dedos sem convicção sustêm a alça da minha lucidez.

(Texto do Fraga, emprestado do blog Solda Cáustico)

domingo, agosto 13, 2006

Um capítulo do Inspetor Geral

Eu, em concentração zen, lavando uma louça na casa da sobrinha Camila, pela lente do sobrinho Caetano. Foto capturada do blog do Solda, com link aí do lado.

Está circulando por aí, publicada pela Editora FTD, uma versão que fiz da peça O Inspetor Geral, do Nicolai Gógol, em forma narrativa (meio novela, meio romance, por aí). É parte da coleção Teatro em Prosa. Acompanhe, abaixo, um capítulo.


Reflexões à beira do abismo


Khlestakov, sozinho no quarto, aproveita para refletir. Afinal de contas, é nas horas difíceis que um homem deve ter força moral para avaliar a sua situação e crescer interiormente. “Mas que fome desgraçada!” Ele havia dado um passeio para ver se a monotonia da cidade e a visão do lixo nas ruas lhe tirariam o apetite. Mas não havia jeito. Se não fosse aquela maldita farra, teria dinheiro ao menos para voltar para casa.

“Onde é que errei, meu Deus.” E continuava a fazer sua corajosa autocrítica. Aquele capitão de infantaria tinha um estranho poder: era capaz de fazer o milagre da multiplicação dos ases. E ainda riu como um bárbaro, um verdadeiro animal, quando, em menos de 15 minutos, arrancou o couro de Khlestakov, praticamente o deixando pelado na sarjeta. Mesmo assim, o rapaz estava ávido por voltar a jogar com ele. Por azar, havia acabado justamente em Babuska. Uma cidadezinha chata, de gente que não quer vender fiado, um bando de canalhas que economiza até o tempo em que poderia ter alguma conversa interessante.

- É isso mesmo! Descobri! O meu grande defeito, o meu maior erro é ser um grande, um tremendo de um azarado.


Khlestakov não teve tempo para aprofundar ainda mais as suas reflexões, pois Ôssip voltava ao quarto, acompanhado, não pelo hoteleiro em pessoa, mas por um criado. Nada pior para seu amor próprio ferido.

Khlestakov se concentra. Nunca imaginou ter de buscar tantas forças para dobrar um simples serviçal. O criado do hotel, para você, que já conhece a nossa teoria (que tem por base a observação e a análise do comportamento dos lacaios), não precisaria nem ser descrito. Ele é o reflexo perfeito do seu patrão, o duro comerciante. De uma polidez gélida, seria capaz de enfrentar um desmoronamento sem tirar a toalha do braço ou demonstrar qualquer emoção.

Mas o patrãozinho não é lá essas coisas em relações humanas e parte para uma desesperada tentativa de conquista.

- Vem cá, meu irmãozinho, como é que vai essa força?

- Estou bem, obrigado. O patrão mandou perguntar o que o senhor deseja.

- E o hotel, como vai o movimento? Tudo certinho. E as gorjetas, generosas? Está tudo bem com o serviço?

- Tudo ótimo, tudo sob controle.

- Muitos hóspedes?

- Sim, bastante.

-Que ótima notícia, meu querido! E há muitas mulheres? Aposto que quando você passa pelos corredores todo mundo acorda com o barulho dos suspiros e dos coraçõezinhos batendo mais forte. É ou não é?

- Eu não compreendo, senhor...

- Certo, você é discreto, mas comigo pode se abrir, amigão. Todo mundo comenta que você é o maior conquistador desta cidade. Também, com esta postura e este perfil grego é até covardia. Fico imaginando o seu sucesso em São Petesburgo!

- Perdão senhor, mas o trabalho me espera.

- Nada demais, sem problemas. Por um esquecimento qualquer, que já está perdoado, não me trouxeram ainda o almoço. Mande vir, mas não demore, que já lá pelo meio da tarde tenho aí uns compromissos.


O criado simplesmente nem piscava. Repetia as palavras do seu patrão sem lhes dar nenhuma ênfase. Enfim, a comida não viria e além disso, o hoteleiro estava querendo se queixar ao governador.

- Queixar-se por quê. Ouça você, que tem o dom da inteligência. Meu querido, você compreende que eu preciso comer. Senão emagreço e posso até ficar doente, não é verdade? Pense bem e veja se não tenho razão...

- Eu entendo perfeitamente, senhor, mas o patrão disse: sem dinheiro, sem comida e ponto final.

- Viu? Analise estas palavras e verá que ele falou num momento de delírio. E só você pode fazê-lo recobrar a razão e voltar a raciocinar. Você conhece o caminho para convencê-lo, não é mesmo?

- O senhor quer que eu diga algo ao patrão? O que, exatamente?

- Nada demais, faça um apelo, em nome da lógica. De uma vez por todas. Ele tem de entender que eu preciso comer. Dinheiro é apenas dinheiro, é outro assunto, que agora não vem ao caso. A verdade é que o seu patrão, que veio da dura vida no campo, pensa que todos são capazes de sobreviver comendo apenas uma vez por semana. Mas eu não sou camponês, compreende? Ótimo. Então faça o seu patrão voltar à si.

Ôssip olhou assombrado para Khlestakov. Com que paixão ele havia feito aquela tentativa desesperada. Foi o blefe mais descarado que ele já havia testemunhado em sua longa carreira de espectador de jogatina, mas a verdade é que, de alguma maneira, funcionou. O criado do hotel resolveu falar com o seu chefe. Saíram os dois para o corredor. Mas o criado andava muito lentamente para a urgência da fome de Ôssip. Abraçou-se a ele.

- Vamos lá, rápido, rápido. Que moleza. Até parece que quem não almoçou aqui foi você...

(Trecho de O inspetor geral, de Nicolai Gógol, versão de Roberto Prado, editora FTD, SP)

terça-feira, agosto 08, 2006

Durmo logo acordo


canção do carneirinho

Adeus, elegante repetição,
salto sobre salto sempre certo.
Desculpe, sou mesmo um desastrado.
Desaprendi a arte de pular cercas
e hoje já não sirvo para fazer dormir.

Na hora de dar sono sou mero penetra,
outra ovelha preta, desgraçadamente a cair.
Mas dentro do sonho você me encontra,
conta comigo quando a coisa escurece
e os meus amiguinhos já não estão nem aí.



virado do avesso

ponha-se na sonolenta sina
do sonhador profissional
calcule-se sonhar acordado
e, ao dormir, virar seu avesso

imagine-se despertar na real
e perto do eterno recomeço
abra-se e venha de lá um abraço

agora sim, amigo, eu te reconheço


quarta-feira, julho 26, 2006

Dando nome aos bois

Aí vai um texto meu que saiu no número 45 da revista Idéias.

As desventuras de Boi Barroso, Boi Pitanga e Boi da Cara Preta na terra das palavras mutantes.

Palavra de escoteiro que está nas sagradas escrituras que no início era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus. Escavando direitinho, encontraremos no passado imemorial de todas as culturas essa mania humana de apresentar como simultâneos os atos de criar a manada e dar nome aos bois.

Até aqui chegamos. E vamos acrescentar, de passagem, como quem não quer nada, que esse ato fundador, esse compartilhar de palavras sentidas e significadas, essa divisão coletiva do mundo simbólico, representa o nosso despertar para o reconhecimento daquilo que mais se aproxima do que gostamos de chamar de “humanidade”.

É por isso que, talvez, a maior insurgência contra a porção gente da civilização seja chamar as coisas de coisas, trens, trecos, negócios ou menos que isso. E proceder assim de caso pensado, não sob o efeito de uma paulada na cabeça, um derrame cerebral ou por ter adquirido o hábito de dar milho a bicicleta, mas reescrever os dicionários, deliberadamente, como acontece hoje no país das palavras mutantes. Famosos artistas, piedosos bispos, políticos de nomeada, empresários de renome e cientistas de escol descobriram esse filão e o exploram sem dó, com tamanha fúria fratricida que o idioma luso corre o risco de voltar ao pó que era antes de emergir das trevas. Não sem antes cumprir toda a sentença, passando de língua que mamãe ensinou para um pavoroso grude de verbos gosmentos, sujeitos molengas, predicados escorregadios e objetos inexistentes.

Palavra de honra que agora vou explicar melhor. Se dar nome aos bois é um ato fundador, essa mesma capacidade de criação foi transformada num poder semelhante, mas exercido às avessas, da luz para a escuridão, com o objetivo de subtrair o nome das coisas e confundir uma coisa com outra, para que tudo fique a mesma coisa, só que sem coração e sem memória. Que pátria amada salve salve resiste a esta dança alucinada de palavras que começam o dia sem saber exatamente o que significarão no final do expediente? Como capturar o sentido de frases corriqueiras como “o ladrão foge da polícia para não ser preso”, quando, muito melhor do que simplesmente escapar das garras da lei é mudar as definições de “ladrão”, “polícia” e “preso”? Como resistir a argumentos tão fortes e bem fundamentados como: “É, você pode até ter razão, mas essa merda dá dinheiro!” Viu? Até nome feio está valendo.

Acompanhamos, assombrados, a escalada vertiginosa dessa onda avassaladora de modernidade que nos assalta. Até mesmo a tradicional indústria da palavra falsificada, antes uma das mais prósperas da nossa economia – e com importante contribuição do Paraná, vem sendo amplamente superada pelo crescente setor do roubo de significados. Os empreendedores interessados em descolar os objetos das suas designações originais, além de incentivo fiscal e terraplenagem gratuita, têm a sua tarefa favorecida pelo momento histórico. Hoje, qualquer porcaria aspira tornar-se marca, ícone e símbolo, para depois ser preenchida pelo conceito que estiver mais à mão. E sou capaz de jurar que por este buraco de cerca passa boi sem nome, passa boiada anônima, passa quase tudo.

Você eu não sei, mas eu vou continuar chamando pelos velhos nomes os meus bons amigos Barroso, Pitanga e Da Cara Preta, enquanto corremos os quatro atrás da Vaca Mimosa, pois até quem está arriscado a ficar sem palavras precisa garantir o leite das crianças.


o que tanto você lembra?


Lembra? Claro que lembra, era aquela,
aquela, lembrou?
Ah! Não!
Vai dizer que esqueceu
justo aquela uma
que praticamente a gente morou?
Aquela uma lá, que representa o tipo
de uma estradinha,
aquela lá lá, perto do armazém da Dona Coisinha,
logo ali,
que antes parecia tão longe.

(Roberto Prado)


terça-feira, julho 18, 2006

Um poder mais alto se alevanta

Não se iluda um só momento: a gente nasce para obedecer. Mas também tem o seguinte: é livre para escolher a quem. Há quem se contente em obedecer chefe, presidente, polícia, Marcola. Eu, por exemplo, prefiro obedecer a algumas pessoas que eu considero dignas de obediência. Uma delas é o Sérgio Viralobos, que acaba de invadir a blogosfera e solicita apoio tático. Ele e seus comparsas Edilson Del Grossi e Chico Capetão prometem chumbo grosso. Quem tem juízo, obedece.

Veja o manifesto do Malocabilly e vá lá:

SALVE GERAL

Aí, meus irmãos, saudação pra todos, sem exceção.
O salve é do comando três malocas: todo mundo em sintonia com este blog.
Quem der caixa postal vai pagar à altura.
Aí, maloqueiro, o salve é esse: se não acessar a gente te acha, firmeza ?
Na última cena você deixou a desejar. Agora é hora de fazer a coisa certa.
Aproveite a situação enquanto é tempo: daqui a noventa dias vai ser o arrebento.
Solta na banguela, pode começar.

(Texto extraído do blog Malocabilly)

quarta-feira, julho 12, 2006

A musa britânica de Beto Trindade e Marcos Prado

Mais um exemplar recuperado da série de poemas em inglês da dupla Marcos Prado e Beto Trindade, perdidas na noite dos tempos. Com esse, já são três. Em algum lugar dos arquivos deste blog você encontra os outros dois que voltaram à luz. Com uma pequena ajuda dos amigos (atenção pessoal d'Os Cervejas, Missionários e outros!) garimparemos todo o calhamaço. Por enquanto, fiquem com a preciosidade.



Neanderthal Woman

come and see, mister
this creature from the depths of limbo
not to stir up your libido
but to poison your blood with terror

no, this is not a peep show
behind the red curtain there's a jail
inside the jail there's a lady
and inside the lady lies a wild beast

don't starve your curiosity
cause a starving curiosity
is like a sleeping sentry
and a sleeping sentry
won't let you be a real man

come and see who your wife comes from
if you don't fear the past, man
come on
in

(Beto Trindade e Marcos Prado)


Mulher Neandertal

venha e veja, cavalheiro
esta criatura das profundezas do limbo
não para mexer com a sua libido
mas para envenenar o seu sangue com terror

não, isto não é um peep show
atrás da cortina vermelha há uma jaula
dentro da jaula há uma mulher
e dentro da mulher vive um animal

não deixe de alimentar a sua curiosidade
pois uma curiosidade com fome
é como uma sentinela adormecida
e uma sentinela adormecida
não vai deixar você ser um homem de verdade

venha e veja de quem a sua mulher descende
se você não tem medo do passado, cara,

vamos, entre

(M.Prado/B.Trindade - tradução de Beto Trindade)

segunda-feira, julho 10, 2006

Três poetas que estão na cara

A grande amiga de todos os tempos Dóris Teixeira, arquiteta da alma, me mandou um trecho do Maiakovski. Bonita lembrança de uma bela pessoa a quem eu, obviamente, devo estrita obediência. Aproveitei o embalo da sugestão para compor com outros dois poetas que não estão no mapa, Beto Trindade e Domingos Pellegrini. Não dá tempo para ficar triste com amigos assim, não é dona Dóris?


Trecho de Maiakovski enviado pela Doris

Eh ! senhores
amadores de sacrilégios,
carnificinas e crimes,
já vistes o mais terrível?
Meu rosto
quando estou
absolutamente tranqüilo.

Eu para mim é pouco.
Algo se empenha em sair de mim
como um louco.

(Vladimir Vladimirovitch Maiakovski)


SP e RJ: relembradadas em Londres

a classe média do rio é o ranço da corte
a síndrome do não gosto
conservativismo de esgoto

a vã vanguarda paulista com seus negócios

projetos e pretensões britânicas elitistas

os britânicos com suas classes

bem mal divididas adotam pretos

como animais de estimação e

rolam com eles no chão

os pretos pensam que são granfinos
e estão com a bola toda

os indianos se ressentem no posto de gasolina

os sul americanos viram patriotas

e eu acho tudo uma grande bosta

(Beto Trindade)



Poema do Pellegrini

Cadê os chinelos
aquele sonho cadê
vou procurar de joelhos

assim já estou pronto

para agradecer

(Domingos Pellegrini)

domingo, julho 09, 2006

Curitiba, desperdício da nossa alegria



Um dia desses a revista Idéias publicou um texto meu que dizia mais ou menos assim:

Não estou inventando. Um dia desses eu pensei ou li em algum lugar que Curitiba, sempre que tem chance de aparecer na fotografia, simboliza a si mesma com imagens de parques, prédios públicos e obras viárias. Se não pensei, deveria ter pensado. E se li, deveria ter escrito antes, pois está na cara que nós, as pessoas, os atores, só servimos mesmo para atrapalhar este espetáculo produzido, escrito e dirigido por cenógrafos.

Alegria, alegria!

Pode virar cambota e dar pirueta à vontade. Aqui a plebe não tem tempo a perder com besteira. E a elite está muito ocupada mandando em você. No filme da cidade, fomos contratados como extras, orientados para não ficar na frente do cenário e limitados aos desafiantes papéis de passantes, populares e cidadãos genéricos. E lambam os dedos, pois os nossos chefes estão prestes a descobrir que, para isso, é mais negócio contratar um elenco em São Paulo.

O que é que o bahiano tem?

Parece exagero? Acha que eu inventei? Então faça o teste: procure algum anúncio oficial com o título ao menos próximo de “Curitiba, terra de Dalton Trevisan”, mande cópia e concorra a uma viagem com tudo pago para a maravilhosa terra de Jorge Amado.

Tubo de imagem queimado.

Agora, vamos calcular juntos e sem inventar moda: se nem mesmo os portentos da literatura, da arte, da ciência e do esporte servem como ícones de coisa alguma, imagine eu, você e o tal do povão. Nós todos, esse bando de pobres coitados que insiste em andar por aí enfeando a paisagem, não temos nem o direito sagrado de aparecer vendendo acarajé, batucando pandeiro, manobrando as velas do Mucuripe, tostando um boi no espeto, assando na praia ou comendo chineque no Centro Cívico.

Queimando o filme bonito.

Nossa principal função simbólica consiste em estrelar comerciais dos governantes dizendo variações da frase: “Ih, tá bem mió. Arresorveu. Coéssa obra gora tá mir di bão. Celente mesmo!”. E nada de invencionices. No final, devemos fazer um tímido sinal de positivo e sorrir amarelo. Nunca em close, claro, seria pedir demais, pois sabemos que é preciso dar destaque ao trator de esteira em primeiro plano, à perfeição da nova malha asfáltica e às dimensões do caminhão cegonheira que passa, simbolizando o tamanho da utilidade da obra. Feita com o dinheiro de quem? Dos extras.

Falta na entrada da área, quem vai bater?

E se tudo isso não fosse, como parece, uma grande sacanagem, mas, sim, a alta pedagogia de uma elite sábia, que assim evita nos estragar com elogios, mimos e carinhos? Esqueça: é sacanagem mesmo. E se você acredita no sofrimento como método de aprendizado, pode tirar o coitado do cavalinho do granizo: a necessidade, definitivamente, não é a mãe da invenção. Sofrer ensina a ser sofredor, necessidade ensina a ser necessitado. É científico. Ou você acha que o Rogério Ceni treina cobrança de falta descalço, chutando paralelepípedos, enquanto lhe passam a mão no traseiro e dão tapas na orelha “pra ficar esperto”? Então você dirá: esse rapaz não joga aqui, mas no São Paulo e o título deste post não é seu, mas de um compositor de Irará, no interior da Bahia. E eu serei obrigado a concordar. Pois agora você me pegou. E, pior, me pegou em flagrante, tentando inventar.

(Roberto Prado)

terça-feira, julho 04, 2006

O país que voltou ao pó



banquete em medellin

num banquete em medellin
estaba nuestro presidente
tambien estaban presentes
el maradona y la dona del cartel

repousando en mi carro
una bomba prestes a explodir
y la dentro yo despreocupado
com la dona del cartel a bulir

de repente escobar apressado
por uns dolares que tenia que sacar
pedio emprestado mi carro
y ahora está nel cielo a gastar

segui a percorrer com la dona
el caminito que sabia de cor
y ainda pegamos carona
com maradona y el presidente collor


(Beto Trindade e Edilson del Grossi)

segunda-feira, junho 26, 2006

Para entender Curitiba


Um poema da obra ainda inédita O livro póstumo de Marcos Prado e Sérgio Viralobos.


ARAUCÁRIA ANGUSTIFÓLIA

taça de luz o caralho
pinheiro espinha ninho
pinha não é pra bico de passarinho
só gralha se empoleira no seu galho

a mais mau caráter das plantas
prepondera sobre as gramas ralas
e acha as outras todas palhas
por que além de si vicejam tantas?

não há vento que alise sua carapinha
pinheiro não dá sombra pra ninguém
suas iras fincam raízes na vizinha

a árvore casca grossa desde o gen
nega fogo se for palito de caixinha

será o diabo se houver vida vegetal no além

(Sérgio Viralobos e Marcos Prado)

terça-feira, junho 20, 2006

Solda e Bortolotto: dois sujeitos da melhor qualidade

Duas humildes sugestões para se refazer a alminha maltratada de tantas lamúrias, lamentações, choro e ranger de dentes: dê uma conferida diária em dois blogs devidamente linkados aí ao lado, pilotados por Solda e Bortolotto. São completamente diferentes, com jogadas diversas, mas que têm em comum a boa e velha alegria de viver, a saúde de quem é do bem, a energia de quem pratica a sua arte por esporte, a graça de quem joga bonito mas sabe dividir a bola quando é preciso. Se fizeram o seu ouvido de penico ou, inadverdidamente, leu algum maricas choramingando sua frustração por não aparecer no Fantástico, recarregue as baterias do espírito e faça uma tranfusão neuronial. A gente se encontra por lá.