sexta-feira, junho 09, 2006

Deu caroço de porco na cabeça


Trecho de um texto meu publicado na
revista Idéias número 47. Começa assim. E por aí vai.

Os cínicos, os suicidas e o caroço de porco no cérebro.

Até bem pouco tempo a gente sofria com gosto, pois o Brasil era o país do futuro. Éramos maltratados, até mais do que hoje, mas a desgraceira tinha um significado maior, que justificava todo sacrifício: logo logo, assim que entrasse uma graninha, isso aqui ia virar um Canadá sem gelo, um EUA sem caretice, um Japão sem disciplina marcial, uma Europa sem mofo, uma Austrália sem tubarões.

Bastava à nossa população – composta por gente amiga, criativa, cordial, bem humorada e cheia de amor para dar – esperar, sentada, o advento do grande porvir, pois o destino, glorioso, já estava traçado. Movidos por essa certeza absoluta, defendíamos nosso modelo tropical de civilização com fé cega, digna de homens-bomba, dispostos a morrer antes de ver a pátria invadida pelos batalhões da razão, do bom senso e da inteligência.

(Roberto Prado)

sexta-feira, junho 02, 2006

mantra

amor & cabana
sonho boboca
vida bacana


(Roberto Prado)

comovendo junto

árvores sem movimento
dói o mormaço lá fora

eu moro por dentro
vivo de brisa
e demoro longe

não vejo a hora
quebro vento
e arrumo galho

o pouso da ave
vale quanto penso
não move uma palha

apenas o sopro do sentimento
comovo uma folha

(Roberto Prado)

sexta-feira, maio 26, 2006

Dois poemas de morte

é preciso que se morra
mas que se morra aos poucos
devagar
dentro do horário
com cautela
sem onerar o erário
é preciso morrer
na disciplina protocolar
parar de respirar
sem nenhum comentário
morrer
é muito particular

(Luiz Antônio Solda)


eu morro

as cordas do meu cavaquinho me disseram
que um pandeiro havia me deixado na mão
sinto saudades do corpo do meu violão
samba, bata em mim, não pare agora
sou um apito que ri
e uma cuíca que chora
nesta cozinha que hoje é um salão

(Marcos Prado e Edson de Vulcanis)

segunda-feira, maio 22, 2006


Os egípcios usavam o mesmo hieróglifo para epilepsia, possessão demoníaca e inspiração divina.



linha morta, rima posta

apuro indícios após o crime
navalha não, nenhum revólver
denuncio a mim, juro que vi-me
bem mal o enigma se resolve

volta ao local a alma mordoma
quem cometeu nada o detinha
digital zero, testemunha em coma
o fim da linha não foi a rima

(Roberto Prado)

terça-feira, maio 16, 2006

Dois poemas dos quase 47


Eu, aos 46, em foto da minha filha Natália, sem o auxílio luxuoso do quase onipresente óculos, companheiro desde os 25.

é de quem não pegar

tanta coisa Deus dá
tonto fico observando
desisti de pegar

se dou-me uma folga pra pensar
esse muito que cai do céu
eu tento, mas não sei abraçar

cada sonho em seu lugar
Deus dá demais
fico com o que deixo passar

algo, se me cabe, gruda sem pesar
sobras, descansem em paz
amigos, nada a separar

(Roberto Prado)

panorama da ponte que partiu


eu tinha lá minhas dúvidas
naquele tempo nada mais normal
passaram toneladas cúbicas
debaixo da ponte sobre o rio tao
guardo ainda uma ponta de súbitas
o tempo teima em não me fazer mal
idéias dóem, algumas ainda úmidas
vai, água suja, ardo mas digo tchau


(Roberto Prado)

quarta-feira, maio 10, 2006

dez mandamentos

delire na criança
não bula na flor
pense estrelas
não rele no bicho
gire o sol
não zombe do bem
sofra uma lua
não duvide do amor
acredite nos amigos

e não saia da sua

(Roberto Prado)


são nunca

dei duro e eros me abriu seu coração
não preciso nem de boca pra baco estender o garrafão
marte me deu uma mão
mamom perguntou quanto era e puxou o talão
um belo dia tive de dizer não
mas ainda amo essa humanidade marrom
fiel a eros, baco, marte e mamom

(Roberto Prado)

domingo, maio 07, 2006

suave mãe que nos dá a sombra

a suave mão do pai fecha as cortinas
não é fácil, pai e mãe, sonhar sozinho

na triste treva o coração ingrato
ao ledo engano pede belo pesadelo
ora pela luz de um astro estranho
e fere os olhos na noite medonha

o meu, pai e mãe, sonhar mesquinho
é não sentir mais o peso do descanso
e ainda pedir uma graça: sempre ver no escuro
a palavra, cantiga, beijo, boa noite

se o mais certo é dormir sem ficar cego
não é fácil, pai e mãe, sair do sonho

(Roberto Prado)

terça-feira, maio 02, 2006

Nossos comerciais, por favor.

O Juca Kfouri, no melhor programa esportivo do rádio, ao chamar o intervalo para os comerciais, diz: "está na hora do seu remedinho, dona Nadir". Pois, então, aqui vão quatro recomendações, algumas urgentes, outras urgentes urgentíssimas, de coisas bacanas que o bando anda colocando no mundo. Os links, em vermelho, facilitam o encontro.


Não temos nada a perder é o magnífico livro do Thadeu com o Sérgio Viralobos, que tem a vitalidade de um pedaço de floresta amazônica nascido em pleno deserto do Saara. Para conseguir, tem uma manha: entre no blog do polaco da barreirinha e encomende com o próprio.


Tem ainda a versão em prosa narrativa da peça teatral do Gógol, O Inspetor Geral, que eu fiz para a Editora FTD. É para ter em qualquer livraria do país. Se não tiver na sua, encha o saco da editora que aparece. Até eu, que escrevi e fui obrigado a ler umas quinhentas vezes, ainda acho engraçado.

E o Ultralyrics, do Marcos Prado, organizado pelo grande timoneiro Felipe Hirsch, apresentado por mim, com texto da contracapa do Mário Bortolotto, o emocionante depoimento histórico do Solda e, de quebra, um CD com canções do Beijo aa Força. Se você ainda não tem, implore à editora, a Travessa dos Editores, para ser mais exato.

E, para finalizar esse verdadeiro guia de bons companheiros para sobreviver à selva do existir, vá ao show do Carlos Careqa, em São Paulo. E o cara teve a manha de não cobrar nada.

Para não ficar sem nenhum poeminha, aqui vai a mais nova profecia do poeta, compositor, escritor, instrumentista e maestro Adriano Sátiro:

aquém do horizonte

eu nunca fui flor que se cheire
porém, eis-me aqui sentado no vaso
um bom lugar pra escrever poemas
e pra cagar,
talvez até seja o caso
depois da obra feita mãos ao pente
frente pro espelho
que mostra meu perfil
se lavar as mãos é ser indiferente
escovo alguns dentes e com outros sorrio


(Adriano Sátiro)

quarta-feira, abril 26, 2006

Três poemas com Beto Trindade


Beto Trindade e sua idéias luminosas.

O Beto Trindade é um poeta, ator, mímico, cantor e compositor que mantem-se a saudáveis 12 mil quilômetros da pátria amada, em Londres. Em junho, por exemplo, faz show em Paris. Mas, graças à incrível capacidade elástica de sua aura genial, ele muitas vezes consegue estar aqui e lá, simultaneamente. Para provar, veja essas parcerias dele com alguns autócnes.


1

sabe quanto custa um quilo de plástico?
pergunte ao burro sem rabo
quanto custa um quilo de plástico
ele vai gargalhar na sua cara
e você vai diminuir
diminuir
até sumir da minha frente
e nunca vai saber o preço do plástico
eu não vou te dizer o preço do plástico


(Beto Trindade e Thadeu Wojciechowski)


2

que bom se fosse ontem
e hoje começasse o amanhã
agora é tarde
estou mais sóbrio de manhã

oh infinito mundo
que não me dá espaço
móveis são as pedras
em que tropeço


(Beto Trindade, Marcos Prado e Márcio Cobaia Goedert)


3

amanheci
o que é que eu estou fazendo aqui
com essa gente que não para de rir
nem sabe o que sonha
um pobre rapaz do sul da tasmânia

sei onde ir
como chegar sem nunca sair
vou trabalhar numa idéia que tive
enquanto chorava limpando meu rifle

de manhã o sol raia na praia
como é lindo meu pedacinho de austrália

por isso, crianças
quando estiverem de castigo
taquem fogo na sala
e venham comigo
distribuir bala
pra esse bando de loucos
que vem fazer farra
na terra dos outros

(Beto Trindade e Roberto Prado)

segunda-feira, abril 24, 2006

falando com as paredes


a parede da direita
é amiga de infância
cheia de rabiscos, mas perfeita
sob a aparência branca

a parede esquerda me entorta
parece minha família
tem até uma porta
que abre e fecha de carícia

com a parede em frente
não posso guardar segredo
encaro o espelho enorme
apenas com algum medo

parede para as estrelas
o teto lembra jesus
lá uma lâmpada acende velas
na falta de outra luz

mas falando com as paredes
não pode faltar a da janela
por onde, olhando bem,
ainda saio por ela


(Roberto Prado)


sábado, abril 22, 2006

Para as velhas e boas novas aventuras

A volta triunfal

aqui vamos fazer nossa casinha
ali a fábrica não ficará muito longe

uma escola com vista pra montanha

e o templo sem imagem nenhuma

desta vez não vamos sujar o rio
nem inventar leis desalmadas
apenas novamente simples heróis
descobrindo mundos, trocando fraldas


(Roberto Prado)

quarta-feira, abril 19, 2006

O menos, o mais e outras matemágicas da vida


subtrações

que tal pegar tudo que temos
e deste todo fazer a grande falta
um salto que cai, uma queda que salta
essa soma assim sem mais nem menos?

por que não juntar o nosso nada
o eterno que move, o nunca que repousa
e fazer destas perdas somadas
o achado de alguma coisa?
(Roberto Prado)
vou te contar
o vento venta
deixe eu pensar
não sei de cabeça
é oito ou oitenta?

porém não esqueça
que antes e depois e no meio
- isso só contando
no sentido horário -
tem outros novos números
que esqueci num dicionário

o vento venta
o oito não é o começo
o oitenta não chega ao fim
é oito ou oitenta?
conte pra mim
(Roberto Prado)

sábado, abril 15, 2006

Através da cortina de fumaça: Trindade e Marcos Prado em inglês


Mais um da série de poemas em inglês da grande dupla Marcos Prado e Beto Trindade. Num post logo abaixo tem outro. Aos poucos vamos recuperando essas preciosidades. Com uma pequena ajuda dos amigos que guardam os originais, ainda teremos o livro completo. Quem sabe com o título Through the curtain of smoke? Que acham? Este poema foi musicado e gravado pelo Beijo aa força, numa fita K7 muito bacana, mas, infelizmente, difícil de se achar. No final, minha versão em português.


Ideas exploding


Since my house exploded

All the books I read

Don't make sense anymore


I have been hurt

Colours became rare

My roof is under the floor


Sartre is dead and Nietszche

That son of a bitch

Is nothing but a ghost


Never will see them again

Proust, Poe and Twain

As me are lost


My house has truly disappeared

And I keep safe only my beard


Shakespeare, Wilde and Whitman

How can I forgive them?

Why didn’t they survive?


Now their words are ashes

And my mind is burning

Who will blow it away?


Marx, Freud, Jung and Reich

Gregório, The Hell’s Mouth

All the things they spoke


Reached higher than the sky

You can see them fly

Through the curtain of smoke


(Beto Trindade e Marcos Prado)

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Explosão de idéias


Desde que minha casa explodiu
Todos os livros que li
Não dizem mais nada

Tenho sido tão pisoteado
Cores estão indo embora
Meu telhado está abaixo da privada

Sartre morreu e Nietszche
Aquele filho da puta
É apenas um espectro

Nunca mais verei as suas fuças
Proust, Poe e Twain
Como eu, perdidos no deserto

Minha casa sumiu de verdade
Só salvei minha barbaridade

Shakespeare, Wilde e Whitman
Como perdoá-los?
Por que não livraram a cara?

Suas palavras agora são cinzas
Minha mente está pegando fogo
Quem poderá apagá-la?

Marx, Freud, Jung e Reich
Gregório, o Boca do Inferno
Suas palavras caíram em desgraça

Mas subiram acima do céu
E você ainda pode vê-las voar
Através da cortina de fumaça


(Beto Trindade e Marcos Prado - versão de Roberto Prado)

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segunda-feira, abril 10, 2006

Três poemas do livro novo


Hoje eu vou deixar vocês com alguns poemas do Apenas mais um coração fazendo barulho, um livro que estou tramando e deve estourar logo por aí. Não façam cerimônia. Eles são de casa.



uma letra


puxe um silêncio do estoque

e deixe a letra bater

chame um batuque exato

para o silêncio dançar

puxe

chame

dance

e deixe

evoque que vem

no espírito da letra

todas as letras

que o silêncio tem


(Roberto Prado)


descascando cebola


dentro do dentro

no meio do miolo

nas profundas do centro

do núcleo de tudo

é ali, no fundo, no fundo,

que habita você

minha alma doutro mundo


(Roberto Prado)



vim, vi e inventei


Nem sempre há o em frente.

O nunca, de hoje em diante,

são passos pra todos os lados

em direção ao mesmo diferente.


Pedaços de mau caminho,

esfinge que nem me vê:

a partir daqui só siga quem sabe

voltar sozinho.


(Roberto Prado)


quinta-feira, abril 06, 2006

Tudo o que eu digo está escrito

Hoje, nessa nossa conversa com versos, eu pretendia falar de três assuntos. Mas, como já achei tudo escrito, só tive o trabalho de transcrever. Divirtam-se.


Primeiro assunto:


sacaneando majestosamente

o brasil está pra lá de lindo
aqui há criação em estufa de cínico
há quem jante no penico
há quem leve a lata d'água na cabeça
pra jogá-la fora da bacia

(Marcos Prado e Márcio Cobaia Goedert)



Assunto dois:


a mulher nua e os três patéticos

debaixo daquela toalha
tem uma mulher nua
no prédio em frente
três patéticos
aquela mulher é uma doente
e os psicopatas do outro lado da rua

agora que vimos e é feia
um rifle com mira telescópica
explodir sua cabeça e não sei

a mulher nua está na janela
chupando um vaso
e os três assistindo televisão

(Marcos Prado, Márcio Cobaia Goedert, Edson de Vulcanis)



E lá vai o três:


primata sangue frio

fui no passeio público tirar meu retrato
os sagüis me deram uma banana
os mandris me jogaram merda na cara

macacos me mordam!

(Marcos Prado e Márcio Cobaia Goedert)


sábado, abril 01, 2006

Marcos Prado e Trindade no inglês da rainha


Pouca gente sabe que o Marcos Prado deixou poemas em inglês, escritos em parceria com o Beto Trindade. Hoje, remexendo o ontem de uma gaveta, achei este sobrevivente da safra seleta das aventuras da dupla na língua de Yeats. Então, divido com vocês a preciosidade. Os outros da série, só por obra e graça do Santíssimo Trindade: está nas mãos dele. E, para quem, como eu, não entende picas de inglês, fiz a versão que segue logo abaixo do original.


An old love


I don’t want to know your age
Cause we speak the same language

I raise your dress up to your neck
You pull down my pants and find the Jack

It doesn’t matter you are old

I can smooth out all your folds

Your groans are just like a wolf’s howl
And when you come, that’s the carnival

(Beto Trindade e Marcos Prado)

Um amor velho

Não quero nem saber quantos anos você soma
Agora que nossas línguas falam o mesmo idioma

Eu ergo seu vestido até o gorgomilo, de surpresa
Você abaixa minhas calças e topa com o pé-de-mesa

Não dou a mínima que você seja uma velha
Posso até alisar suas rugas, se me der na telha

Seus gemidos são o uivo do lobo mau
E quando você goza, vovó, é o carnaval

(Beto Trindade e Marcos Prado, tradução de Roberto Prado)

quinta-feira, março 30, 2006

Leia enquanto eu lembro de esquecer

Esse aí sou eu, fotografado por não lembro quem, posando para algo que nem sei mais o que era. De vez em quando acontece comigo de certas coisas do passado parecerem ter acontecido com outro. Não digo mudar completamente, mas ver você mesmo como se relembrasse outra encarnação. Algo assim. Como não devo ser o único débil mental do mundo, pode ser que aconteça com outros. Até com você. Por isso é sempre bom dar uma boa lida no velho e bom livro de Tao, aproveitando a boa vontade do Thadeu, que postou um razoável tasco da maravilha lá no Polaco da Barreirinha (link ali ao lado). Aprender a deixar o passado passar. Mas não sem antes dar uma olhada no meu poeminha.


parafuso


longas datas até parecem ontem
monte de coisas tem memória curta
ando à cata de que me contem
certos fatos de maneira torta

o corpo crê lembranças vivas
a alma diz sofrer horas mortas
e se separam na via das dúvidas
deixando ontens para pagar na volta

então ao morrer não me desmontem
certamente falta um parafuso
algumas coisas há que se rompem
entre outras já quase sem uso

(Roberto Prado)

segunda-feira, março 27, 2006

Um brinde para matar o bicho da saudade

Hoje vai mais um poema do Beto Trindade, para afastar a quizumba de uma segunda-feira fria, garoante e cheia de bicho. Na foto ele está diante de uma igreja antiga, muito antiga, nos arredores de Londres, que ele recebeu com o encargo de transformar em um centro cultural, se o Blair deixar.

Sem selo

Papel aceita tudo
Não me venha com cartas de amor
Ir embora foi desaforo
Já vivi sozinho antes
Por minha própria escolha e/ou desculpa

Domingo de manhã
Sair pra comprar a Folha
Chinelão
Xixo de camarão
É bom e bacana
Supimpa e legal
A minha moqueca você sempre castigou de sal

(Beto Trindade)

quinta-feira, março 23, 2006

Buffo, Reynaldo e as flores do jardim da nossa casa


Em primeiro plano,Thadeu (de bigodes) e José Buffo.

Este post é um fruto de outro, mais abaixo, sobre a passagem do Reynaldo Jardim e a interferência dele na cultura de Curitiba. O Beto Trindade, lá de Londres, deu o seu recado. Agora, o José Buffo chega para botar fogo na cinza e avivar a memória de uma cidade que, quase sempre, sente-se melhor representada pela estética dos seus prédios e obras públicas do que pelo que tem sangue, anda, respira – e precisa comer de vez em quando. Quando o Jardim chegou por aqui, era pior. E o Buffo – que conheci em 1977, quando estudava no Colégio Estadual e ele morava do outro lado da rua, na Casa do Estudante – estava no olho do furacão. Lembro que o Buffo, em célebre reunião de intelectuais no teatro Paiol (leia nos posts), roubou a palavra quando falavam de poesia concreta, dizendo: “ – Quem entende de poesia concreta é o Rafael Greca.” Para quem não sabe, Rafael Greca, além de nome de um futuro prefeito de Curitiba, denominava também uma famosa construtora e fornecedora de concreto para obras.

Produtores culturais: leiam com atenção que do texto do Buffo já surgem, no mínimo, três idéias: 1) fazer uma edição especial com o melhor do Pólo Cultural (nome criado por Gláuber Rocha, definindo a Curitiba daquela época de algazarra criativa); 2) fazer um documentário com o que ficou gravado em filme e vídeo; 3) fazer uma mostra com os curtas produzidos na época. Quem sabe juntar tudo isso num evento e convidar gente de todo o Brasil para a festança.
Para conhecer melhor o Buffo, dois exemplos. Leia o poema abaixo e procure ouvir a genial canção Valsa Danada, parceria Buffo/Renato Quege, maravilhosamente gravada pelo Beijo aa Força no CD Sem suíngue.


frevo frenético

faça disso um forte abraço
me ame goze faça estardalhaço
faça disso um forte apache
me deixe doce me chupe feito sorvete pistache
na pele do bicho, na pele do sol
na pele da anta, na pele do gol
na pele da pele na pele do mato é apelido
carrapato escalpelado, carrapato escapulindo
pelado chupando tudo feito um sorvete
melado melando melindo

(José Buffo)


Reynaldo Jardim por José Buffo

Beco, querido. Isso tudo meu deu foi saudade. O Jardim, ou o Garden como a gente chamava, chegou e botou fogo no circo. Ele tinha um slogan próprio: "nascido em São Paulo, vivido no Rio, morrido em Curitiba". Ele achava isso aqui um cemitério, mas, como em todo cemitério, também pode brotar ervas daninhas. Foi o que ele fez.

Tento puxar pelo fio da memória coisas que ele facilitou e portas que ele abriu pra turma toda entrar e aprontar. Com o Pólo Cultural ele fez uma revolução de alto nível, até hoje um jornal sem igual no país. Com o Correio de Notícias (só a turma da madruga, do past up, já era um a loucura. Novo jornalismo todo dia no ar. Poesia pura em forma de notícias) ele fez a alegria das bancas de jornais e dos leitores que buscavam nos jornais mais que o rame-rame do noticiário esdrúxulo do dia a dia.

Aquela do Paiol, lembro-me muito bem, estava lá. Acho até, se deus quiser, tenho um cassete gravado com o papo todo que rolou por lá. Acho, só acho. Mas foi no apoio a toda rapaziada que o Garden de fato marcou. Ele era um lord. A Anarte fazia parte da Feira Nacional do Humor, que acontecia num circo ali no largo. Já foi dito ai. Ele ganhou para divulgar o evento vários cartazes de rua, out door. E o que fez? Chamou a rapaziada para pintar, um a um. Uma diversão e tanto. A Ferrofonia, maestrada pelo Luis Cláudio, acabou em pancadaria, para não dizer outra coisa, quando quebraram o arco do violãocelo do maestro. E todo mundo achava que fazia parte do espetáculo, afinal, uma porrada mais ou a menos tanto fazia. E o circo estava cheia de autoridades civis, militares eclesiásticas e...

Quem filmou tudo isso foi o Peter, em 16 mm, alguém deve ter esse filme. No MIS, então, ele foi muito generoso. Todos os filmes super 8 que fiz (nossos, foram 4: Um lance de dedos; Brasil - ou vai ou rocha ; Jovina, a menina da Vila Nori e João Passamão; e um clássico do cinema udigrudi, com câmara do Tupã (em relação ao dono do cu há controvérsias), que foi o... bem não me lembro do nome, minha flor. Enfim, o Garden foi a nossa Embrafilme, entre outras coisas, garantindo filmes, revelações, montagens, tudo no MIS. Os filmes viraram bolsa de jacaré em algum lugar.



No Rio, em outro agito. Da esquerda para a direita: Ferreira Gullar, Lygia Pape, Theon Spanúdis, Lygia Clark e Reynaldo Jardim, os “neoconcretos”, em 1959.


Mas o Garden não parava. Estava sempre pronto a editar um livro, publicar um poema, armar um evento.
Embalados por uma ideologia dos situacionistas, a idéia era armar e aprontar alguma de maneira rápida em algum lugar, qualquer lugar. Uma delas virou matéria de capa inteira do Jornal do Brasil, da lavra do nosso Beraldo. Um luxo para nós. A Arte Não Vale um Gato Morto, como citou o Trindade, fazia parte da divulgação da Anarte, e houve mesmo um desfile de caixão pela cidade, com entrega de panfletos e tudo mais. Aliás, nossa apresentação no circo, começou assim: o féretro chegando e lá de dentro saindo alguém. Claro que era difícil do cara sair, pois o defunto estava sempre muito bêbado.
Mas nesse auê todo aí teve um auezinho anterior que foi a única e exclusiva apresentação da Banda Bandida no TUC, uma banda aberta, gente que ia sendo catada na rua, clarinetista de banda militar, Didi no bongô, Luís Cláudio no arranjo, Marcos Prado na percussão, Rodrigão, Renato, Sérgio, sei lá mais quem, um monte de gente, cada um com seu instrumento, neguinho tocando piano, e a platéia cheia, urrando, foram umas 4 horas de show, sem parar, sem ensaio, sem estrutura, apenas tocando e falando e cantando e tudo isso foi gravado naqueles gravadores de rolo, DEVE ESTAR NO Museu da Imagem e do Som, se é que alguém sabe disso. Bem, a banda ou o bando durou só essa apresentação. Foi o máximo. O sucesso de um show só. Ah, talvez tenha me equivocado nos nomes, mas o que importa é que não sonhei. Estavam todo lá. Todos mesmo.

Onde o Garden entra nessa? Ah, sei lá. O Garden apoiava tudo. Tem outras coisas que puxando pela memória vai saindo. Bem, querido Beco. Qualquer coisa a gente vai se falando. Acho que fazer algo pela passagem do Jardim aqui pela plagas curitibana é mesmo muito legal e merecedor.

terça-feira, março 21, 2006

Bom humor, malícia e precisão


Desde bem pequeno eu já desconfiava que não tinha vindo ao mundo a passeio. Não que tenha sido geneticamente programado para ser desgracido, como bem disseram o Marcos Prado e o Sérgio Viralobos num célebre poema. Nada disso. É que as coisas teimam em acontecer. E quando as coisas acontecem, as coisas de verdade, as tais coisas da vida, elas não costumam mandar convite com hora, data e local. No meio do tiroteio, fui fazendo opções que, coincidência ou não, me afastavam de uma vida tranqüila e sem grandes problemas. Simplesmente não consigo fingir que não é comigo, mudar de calçada e seguir em frente. Arrumo para a cabecinha. Portanto, não posso reclamar. Confesso que procurei: sarna pra coçar, chifre em cavalo, cabelo em ovo - e, muitas vezes, achei. Fazer o que? Me ensinaram que a gente não aprende as coisas apenas para enfeite, mas para, na hora do vamos ver, ter coragem para encarar a massa ensandecida - com bom humor, malícia e precisão, é claro. Cheguei até aqui bem inteirinho, levando em conta o tamanho da desgrama. Talvez porque, de vez em sempre, eu lembro de coisas como este poema do mineiro Affonso Ávila:


quem obedece a sinalização evita acidentes

dentro da faixa
fora do perigo
dentro da fauna
fora do perigo
dentro da farsa
fora do perigo
dentro do falso
fora do perigo
dentro do fácil
fora do perigo

(Poema de Affonso Ávila, do livro Código Nacional de Trânsito)