segunda-feira, dezembro 04, 2006

Semana Marcos Prado: o andamento da parada


Lançamento de Os catalépticos. Ao fundo, o grande Adriano Sátiro.

Aos beijos, aos chutes, aos poucos, aos montes, Marcos Prado amava Curitiba e Curitiba amava Marcos Prado, cidadão que tinha uma presença capaz de fazê-la menos triste, menos cinza, menos pobre, menos jacu. Agora, passados 10 anos da sua morte, a rapaziada da cidade resolveu dedicar uma semana de dezembro (de 9 a 15 - data do aniversário do poeta) para colocar o bloco do Marcos Prado na rua. Saiba direitinho sobre os eventos clicando AQUI e indo a um belíssimo blog especialmente criado para a ocasião. Aproveito para postar três poemas e algumas fotos do Marcos.


Marcos, de chapéu, pressente a presença do fotógrafo no botecão. À mesa, Léia Leite observa.

todo dia encontro um artista novo
eu escrevo, eu pinto, eu desenho, eu canto
mas todos têm aquela cara de ovo
trato-os humildemente mas com espanto
isso não está escrito na cara deles
não vejo em nenhum o ar de sua graça
nem o trato nobre ou o ímpeto reles
raro o dono da própria desgraça

tenho por eles, porém, um amor triste
um amorzinho vagabundo, menos que inho
que de tão diáfano não sei como resiste
um dia pego um deles pelo colarinho
estrangulo no balcão aos gritos: despiste
não fique roxo, não obre, isso é um carinho

(Marcos Prado)

Marcos (à direita) observa Beijo AA Força detonando.

a mentira é a melhor amiga das artes
nela, gelatinosa, as glosas seculares
minúcias de paisagens inexistentes
um coração onde cabe um milhão diferentes

dondoca de agora, amanhã de coturno
segue sempre os passos de um antigo perjuro
a arte imita a arte que imita tudo
e é profunda, é verdade, bem no fundo

mas somos piores que os pintores de florença
ridículos comparados aos poetas de provença
michelângelo cagaria em cima de nossas estátuas
beethoven se limparia com as nossas pautas

que é a nossa dança diante de um delírio índio?
que é um soco nosso perto de um clay vindo?
por que, se finda é a arte, continuar mentindo?
repetir o que se repetiu de novo se repetindo?

(Marcos Prado)


O sofá é o melhor amigo do homem.

não há nenhum lugar melhor que o deserto para as idéias
ponha-se o nada sobre ou sob o absoluto e tudo será areia
o destino traçado e a rota escolhida do pensamento não calçam as mesmas pegadas
quando um homem pensa sozinho pensa por todos
não há liberdade maior do que estar sozinho no deserto nem sofrimento maior também
as idéias são como fragmentos de areia que se espalham e só
se juntam com exuberância quando
como dunas
cada dia num lugar diferente
quanto ao céu
ele não existe neste deserto por enquanto
onde ele está ninguém que caminha pelo deserto tem a mínima idéia

(Marcos Prado)

6 comentários:

Ivan disse...

Excelente - cada vez o Marcos aparece mais vivo nessas postagens e em outros textos e contextos -

a foto na Saldanha Marinho (a primeira) tem o Cobaia ao fundo, sentado com cara de mau à mesa, e a participação cúmplice deste que voz não revela mais.

Priscila Andrade disse...

Oi Roberto, já tem tempo que você foi lá no meu cantinho e eu estou de vir aqui. E chegando aqui descubro esse poeta no mínimo interessante, intrigante - Marcos Prado.
Vou parar para ler com mais atenção.

bjs,
P.

doris disse...

beijos Marcos!!!

Fraga disse...

Roberto, que bom que
astrália está no mapa.
Vou espalhar.
Grande abraço.

Don Suelda disse...

Beco:

Eu sei que estamos entrando na Semana Marcos Prado, mas amanhã você bem que poderia dar um pulo no Beto Batata pra levar um livro Moças Finas, do Orlando Pedroso. Cierto, hermano? Depois eu entro junto na semana do caçulinha. He! He! Leve Thadeu e Cia, pelamor de Deus!

Solda

Bitten disse...

Beco

Pode parecer estranho, mas eu não consigo participar de homenagens oficiais, principalmente quando a FCC está envolvida, logo ela que, a meu ver, não preza poetas encarnados. Ainda assim, divulguei no meu blog e fiz lá a minha homenagem.

Um abração