quinta-feira, março 30, 2006

Leia enquanto eu lembro de esquecer

Esse aí sou eu, fotografado por não lembro quem, posando para algo que nem sei mais o que era. De vez em quando acontece comigo de certas coisas do passado parecerem ter acontecido com outro. Não digo mudar completamente, mas ver você mesmo como se relembrasse outra encarnação. Algo assim. Como não devo ser o único débil mental do mundo, pode ser que aconteça com outros. Até com você. Por isso é sempre bom dar uma boa lida no velho e bom livro de Tao, aproveitando a boa vontade do Thadeu, que postou um razoável tasco da maravilha lá no Polaco da Barreirinha (link ali ao lado). Aprender a deixar o passado passar. Mas não sem antes dar uma olhada no meu poeminha.


parafuso


longas datas até parecem ontem
monte de coisas tem memória curta
ando à cata de que me contem
certos fatos de maneira torta

o corpo crê lembranças vivas
a alma diz sofrer horas mortas
e se separam na via das dúvidas
deixando ontens para pagar na volta

então ao morrer não me desmontem
certamente falta um parafuso
algumas coisas há que se rompem
entre outras já quase sem uso

(Roberto Prado)

7 comentários:

Lara Schultz disse...

Quanto mais apertam os parafusos, mais malucas parece que as pessoas ficam. Li os poemas do Tao lá no Thadeu. Deu um baque. Volto a falar do assunto.
beijos
Lara

roberto prado disse...

Calma, Lara, um dia a cabeça desatarraxa do pescoço e voa. Ou, na pior da hipóteses, rola pelo chão. Espero que o baque do tao tenha sido positivo.
Beijos pra você também.

Anônimo disse...

intão é pur iço. eu sempre via oce fazendo aqele movimento circular espiral com o dedo na cabeça e achava qe tu tava enrolando os caxo do cabelo, mas oce tava é afrochando os parafuzo...

Fraga disse...

Troço louco isso,
em poema-dor
um lance sintomático:
Pro autor, é resquício
pro leitor
é autobiográfico!

roberto prado disse...

bem observado, acho que é assim mesmo.
Por isso muitos têm dificuldade de perceber, por exemplo, o humor em Edgar Poe ou Augusto dos Anjos e a compaixão em Bukowski, Fante e cia.
O autor vira personagem, talvez como defesa do leitor, para não ligar os neurônios e ver que algo ali é de sua própria vida.

marilda confortin disse...

Roberto, peguei um pedaço do teu parafuso e emparafusei lá no meu blog. E esse postpoema que o Fraga postou aí é... o bicho! Não conheço o Fraga, mas to com uma baita vontade de controlcear o que ele escreveu pra você e controlvear lá pro meu blog. Pergunta se ele deixa?

roberto prado disse...

Santo bom gosto, Marilda. O Fraga é o feliz proprietário de um dos melhores textos jornalísticos deste Brasil e de outros, se houver. Neste padrão tem ele e o Ivan Lessa, que não vale, pois está em Londres há 40 anos. É um humorista de dar coceira nos miolos. Não satisfeito com isso, é um tremendo poeta. E, coisa mais rara ainda, é um leitor com fina sensibilidade, somada a uma evidente percepção extra-sensorial. Para ter uma idéia, dê uma olhada nos textos e nos comentários dele lá no Solda Cáustico. Portanto, control v - control c nele. Sem dó. Fraga, manifeste-se, não deixe a moça esperando.