quarta-feira, março 01, 2006

O desafio de Issa e seus aquilos

Issa e Seus Aquilos é nome do livro que eu e o Antonio Thadeu Wojciechowski estamos preparando há uma boa década, com livres adaptações de poemas do japonês Kobayashi Issa (1763/1827). A Alice Ruiz e o Paulo Leminski fizeram algumas das mais brilhantes traduções para o português da obra do mestre do haicai. Por exemplo:

escrevam aqui
amava haicai
e caqui


O Millôr Fernandes, o Guilherme de Almeida e a Olga Savary também andaram mexendo no vespeiro do japonês. Por essas e por muitas outras que é preciso uma boa dose de coragem, irresponsabilidade, cara de pau e doideira braba para entrar nessa seara. Justamente o que não nos falta. Metemos a mão na massa. Com muito respeito, é claro, pois, sem ele, você morre atropelado pelo carrinho de sorveteiro - como nos ensinou Nelson Rodrigues.

Mas, antes de conhecer algumas livre-adaptações minhas e do Thadeu, extraídas do livro Issa e seus aquilos, vai um original do Issa e a tradução em inglês. Como ficaria no idioma de Marcos Prado, Paulo Leminski e Torquato Neto? Sugestões para a caixa de comentários.




Gimme that moon!
cries the crying
child

(Tradução de David G. Lananoue)




o mendigo olha

e reconhecendo-me

devolve a esmola

Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)




lua da montanha

ilumina também a mim

o ladrão de flores


Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado)



sombras amigas

nas asas das borboletas

minhas outras vidas

Kobayashi Issa (livre adaptação de Antonio Thadeu Wojciechowski)



crisântemos

sobre o monte de estrume

um só perfume

Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)



a neve mexe

no calor das crianças

a aldeia se derrete

Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)



6 comentários:

schpatoff disse...

Beautiful, seen through holes
made in the paper screen:
the Milky Way

Issa

Solda disse...

Beco:

Eu também mexo nesse vespeiro e espero nuna ser atropeladopelo carrinho do sorveteiro. Fui o primeiro cartunista a publicar um haicai diário em jornal, Correio de Notícias, 1980.

Soldissa (Don Suelda del Itararé)

roberto prado disse...

Olha aí o haicai chegando direto do Japão, pelas mãos do grande Jorge Schpatoff. Quem se habilita a aportuguesá-lo? Valeu pelo achadom, Jorge e bem-vindo ao blogue, véio.

Solda, claro que eu lembro que você foi o primeiro - e até onde eu saiba, o único - a ter uma coluna diária com haicai. E haicai integrado à ilustração. O vespeiro a que me referi não era o dos praticantes, mas o dos que traduziram os poemas do Issa (acho que esqueci do Manuel Bandeira). Prometo postar aqui os poetas do haicai brasileiros. Você, Alice, Leminski, Guilherme, Millôr, Thadeu. Mas aí já não é mexer com vespa, mas com marimbondo. Abração!

roberto prado disse...

Eu já tava esquecendo do motivo principal da postagem: o dasafio de decifrar o poema do Issa,a partir da tradução para o inglês. Solda, manda sua versão do poema do Issa! E o seu irmão Jorge colocou outro na roda, direto de Tóquio:

Beautiful, seen through holes
made in the paper screen:
the Milky Way

Issa

Ligia K disse...

Beco, não lembro se contei para você, mas a avó do Bill - nascida em Tóquio há 80 anos - compõe haicais em japonês. É curioso que os filhos e os netos não se interessam pelos versos dela, exceto a neta alemã... Ano passado, trouxe da França uma edição bilíngüe (francês e japonês) com poemas do Issa. Os olhinhos dela brilharam, porque é difícil achar alguma coisa em japonês por aqui. Beijos.

roberto prado disse...

Sensacional, Lígia. Isso significa que ela é também uma calígrafa,uma artista zen. Vê se consegue digitalizar algum original para eu colocar aqui! Beijo!