segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Uma rosa para Rosalina de Jesus Silva

Por um desses acasos com hora marcada, achei esse emocionante depoimento do Mário Bortolotto sobre uma amiga de antes, de durante e de depois, de todos os tempos, inclusive agora. Quem conheceu a Rosa vai concordar que apenas este texto bastaria para colocar o Mário no Olimpo, com direito a néctares e ambrosias à vontade. (Roberto Prado )


"Este texto aí embaixo é outro dos requentados. Escrevi pra me despedir de uma grande amiga nossa. Outra que foi cedo demais. A ROSA era uma cantora extremamente talentosa e a gente gostava muito dela. Mais de um ano depois e eu volto a postar ele aqui como uma pequena homenagem.


CHUTE NA BOCA É UMA COISA MUITO LOQUAZ

Lembro que eu sempre pedia pra ela cantar essa. Era do Marcos Prado, se não me engano. E ela cantava. Bêbada, sembre bêbada, extremamente louca, com aquela voz rouca, abençoada, purificada de álcool e desatino. Acho que eu devia ficar quieto, só. Lembrando do jeito bêbado meigo que ela intimava : "ô Mariãââo. Cara, você não acredita, Mariãããão." E a gente bebia, e ria um pouco. E eu reclamava de algumas coisas. Ela não. Ela quase nunca reclamava de porra nenhuma. Pra ela a vida era um passeio num bosque turvo, com uma neblina espessa, mas que no final tinha uma cachoeira e um sol do tamanho do coração dela. E onde ela podia mergulhar e fazer de conta que não era com ela. Talvez ela tenha mesmo acreditado que não era com ela. Até o fim. Até que a sacanagem toda aconteceu. Porque, cara, é uma puta sacanagem quando uma merda dessa acontece. Não que essa merda de vida valha realmente alguma coisa, mas é que ela fica valendo menos ainda quando esse tipo de sacanagem acontece. Aí humanamente a gente faz a pergunta clichê: Porque essa merda tinha que acontecer logo com a ROSA? E Deus não tá nem aí, brother. Ele vai deixar a pergunta ecoando. Não sei se ele curte o som. Ou se é só pra deixar a gente na pior mesmo. Talvez Ele nem saiba todas as respostas. E diante do silêncio divino, a gente se arvora no direito de interpretar do jeito que a gente bem entender. Aí a gente pobremente resume tudo numa palavrinha só : Sacanagem. Puta Sacanagem. Ela era a outsider mor. Ela sempre foi louca demais pra fazer parte de alguma turma. Nenhuma turma era louca o suficiente pra segurar a barra dela. Nem o Bando do Cão sem Dono do grande Bernardo segurou a doidera dela. Ninguém segurava a ROSA. Ela era um vulcão, um chute na boca, uma tempestade, mas também era terna e doce, desesperadamente sensível, improvisando um blues num boteco podreira da Amaral Gurgel. Tinha muita gente que não parava pra ouvir a ROSA falar, mas quando ela cantava, meu camarada, não tinha filho da puta que não estacava. Um respeito quase religioso, quase patriota por aquela cantora desalinhada, selvagem. A ROSA foi nessa. E foi fodona, como sempre viveu, sem pedir desculpas, mesmo porque ela nunca deveu nada pra filho da puta nenhum. E a gente ficou por aqui, na nossa vidinha torta, na nossa vidinha minúscula. Já fazia uma cara que eu não falava com ela. Porra, já fazia uma cara que a gente não se encontrava. E eu me dei conta disso agora. Da merda toda. Sabia que ela tava doente, mas não acreditei que fosse acabar assim. Aliás, nunca nem pensei na possibilidade, e sempre foi tão possível. Sempre teve tão perto de acontecer. Tenho algumas imagens em vídeo dela cantando bêbada num boteco, e a gente embevecidos, rindo de felicidade. Uma felicidade quase pura, do tipo que a gente nem é mais capaz de sentir. Caralho, tô precisando beber um conhaque, um whisky vagabundo, qualquer aditivo que me faça acreditar de novo na minha inexorabilidade. Porque agora, meu camarada, eu não tô sentindo nada de bom. Queria tá tomando um porre com a Jeca e com o Marcião. Talvez numa ação desvairada provocada pela grande quantidade de álcool ingerido a gente se atrevesse a cantar emocionados e desafinados "se oriente, não me leve a mal. Aí vagau Tchau". Não acredite em nenhum metereologista de merda. Eles estão todos errados. Essa noite vai fazer frio."

Mário Bortolotto

15 comentários:

Anônimo disse...

A Rosa era uma pessoa muito legal. Onde estará a sua filha, a Camila?

Liliane

polacodabarreirinha disse...

Pois é, né, Beco? Ela cantava as nossas canções como ninguém. Teve uma noite no Bebedouro que a gente cantou Eu vou te enxertar ( eu vou te encher tá?)a noite toda. Depois saímos eu, a Rosa, Marcos Prado e o Edilson e amanhecemos na rua cantando e dançando como loucos. Ela ficou lá em casa uns 3 ou 4 dias. E aprendeu as músicas que o Mário fala no texto. Quando estive em Londrina falei com uma amiga dela que a acompanhou até o fim. Fiquei triste naquele final de noite com a história toda.

roberto prado disse...

Pois é, Liliane, e a Camila? Se alguém aí souber do paradeiro desta linda garota, peça pra ela entrar em contato. O pior, Thadeu, foi não ter tido nem oportunidade de estar perto dela. Não sei por quais artes do azar foi num período em que não conseguimos encontrá-la de jeito nenhum, mesmo com tantos informantes em Londrina.

Mário Bortolotto disse...

A Camila tá legal. Tá em Londrina. Encontrei com ela da última vez que estive lá, que foi aliás a vez que o Thadeu também esteve, no Londrix. É uma garota muito doce. Ela veio falar comigo e eu não a conheci de prima. Ela tá legal.

roberto prado disse...

E aí, Marião, legal ficar sabendo que a Camila está bem. Tomara que um dia a encontre e ela ainda lembre da minha cara. Várias vezes ela se hospedou aqui em casa, com a Rosa, mas bem novinha. Depois, a Rosa foi para SP e apareceu só mais umas duas vezes. Mais tarde, estava casada com um cara que, segundo me disseram, tocava no Zácaro, fato que para um paulista deve querer dizer alguma coisa, mas para mim, quando estive aí, não me ajudou a achá-la e visitá-la. Depois desse período de sumiço, ou desencontro, veio a notícia. Conheci a Rosa quando tinha uns 17/18 anos e ela uns 15/16. E desde lá sempre ficava encanado de achar um jeito de protegê-la das coisas do mundo, de si mesma, sei lá. E veio certa culpa. O seu texto, então, bateu forte. Você está certo quando diz que ela era mesmo fora de qualquer limite. Até mesmo do carinho. Ou estarei louqueando? Abração, cara.

Renato Castañeira disse...

Toda essa nostalgia lembrou-me de um trecho de "A Espera de um Milagre", onde um dos condenados, arrependido de seus crimes, perguntou ao carcereiro: "...se um homem arrepender-se de todos os seus crimes, poderia ele voltar ao tempo em que foi mais feliz e viver lá para sempre?..."

roberto prado disse...

É, Renatão, felicidade retrospectiva não dá pé. Deixar para ser sábio depois de morto é a maior roubada.
Abração, cara.

Marco Redondo disse...

Uma idéia de Rosa

Conheci a Rosa muito depois de termos nos encontrado, a primeira vez em algum evento do movimento estudantil, Diana pequeno e Jaime Canet dominando a cena, documentos secretos do partidão circulando esotéricos conclamando a unidade das oposições. Liberdade Luta, Liberdade Puta! Estava a caminho de Londrina em uma Kombi cheia de doutrinados ouvintes de Mercedez Soza e dos irmãos Parra, um gosto de vodka e Trotski na boca pesquisadora que se enfiava cada vez mais pelo interior do Paraná. Creio te-lo visto, Roberto, pela janela de um ônibus qualquer, a caminho de um Paraná vasto em Aracárias e colonos católicos esquerdistas, e estranho ao nosso movimento de inseminar o futuro.
Pegou, a inseminação, e tive uma filha com a Rosa, quando o novo momento já havia mostrado seus dentes com os restos do feijão mastigado nos anos da ditadura que não conhecemos. A Laila, nossa pequena filha, morreu, sob a face miserável do inverno Curitibano, na casa do Laerte Ortega, Alto da XV. Retratada naqueles dias, a Rosa não pode ser lembrada bêbada, nem mesmo em sua explosiva forma de existir como poesia bruta, a Rosa dos bares. Sempre mais soft e ajuizada que os circundantes, estes sim plenos da cessação do mal e de qualquer possibilidade de um novo bem. A Rosa ainda tinha espinhos.
Uma linda foto, que acomoda seus seios pequenos e rechonchudos, ainda dorme nas minhas caixas de um pepelão com a cor de uma espera de 30 anos. Vou posta-la, pois é a imagem que guardo da Rosa, da exuberância que flores e gente só têm assim de passagem pela vida. Como todos, sinto saudades, mas duvido que lhe tenha faltado sabedoria. Esperteza, talvez. Ela cantou sempre alto, com sua voz linda e inconfundível, mas não podia ser ouvida. Muito ruído por aí...

ricardo disse...

poxa. foda. e eu que nem conheci a Rosa. e agora acabei me envolvendo com essa desconhecida amada de vocês assim de gaiato no navio, de post em post, de comentário pra comentário. perdoem a intromissão. botem na conta do poder do amor e da internet e da saudade como sentimento unificador dos lusófonos. ninguém tem imagens dela pra postar?

Roberto Prado disse...

É assim mesmo, Ricardo, a teimosa persistência do sentimento. Sabe Deus de onde vem esta energia toda que passa de pessoa pra pessoa sem que precise ter dono. Boa idéia a das fotos. Eu dó tenho em papel, vou dar um jeito de digitalizar...Abração

Camila Taari disse...

eis-me aqui! em londrina, mãe, quase formada, enfim... dói tão apertado, tão insuportável, daquelas dores que enchem o peito e fazem doer e faltar o ar! adorei todas as histórias e queria conhecer o pai da laila, uma irmã que eu nunca conheci mas que carrego dentro de mim sempre, como um pedacinho de nós, como se fossemos as pétalas da rosa, manu, laila e eu. um beijo a todos!

Roberto Prado disse...

Camila, que maravilha ter você por aqui! Já visitei o seu blog e achei muito bacana.

Beijos
Beco

kaká disse...

Camilinha!! tão bom sentir essa luz que a Rosa segue acendendo, né?
Valeu a postagem e valeu o texto Mário.

Zé Aroeira disse...

Poxa, que foda, só hoje, ao ler seu blog, foda, foda, foda.
josé ruy

marco machado disse...

Camila, gostaria de conhece-la. Estive com a Rosa em 1979 e 1980, quando a Laila nasceu e morreu. Vivo em São Paulo. Posso te visitar?
Marco