quinta-feira, março 09, 2006

O fim do mundo vai acabar



sim e não

os problemas ficaram pequenos
penderam entre o sim e o não
quando tudo era mais ou menos


a dúvida nunca foi o meu cruel
há muito perdi a conta
de quantos quero ver no céu


certo, errado, cabeça tonta
viva quem coloca a bomba
e viva quem a desmonta


(Roberto Prado)

segunda-feira, março 06, 2006

Por um meio literário com menos chutes e pontapés


O brasileiro poderia ler mais, discutem os sábios, entre os pequenos e os grandes lábios, como bem disse o Leminski, falando de um outro assunto. Fora os blablablás de sempre (educação, preço, distribuição, etc. ad nausean) é preciso reconhecer que isso também é conseqüência da chatice reinante no próprio meio literário, onde cristalizou-se uma lenga lenga de afastar a mais curiosa das boas almas. Livros muito legais, interessantes, emocionantes, muito vivos, são dissecados, embrulhados e rotulados de maneira assustadoramente desagradável. Quem lê o setor de "resenhas" e "críticas" de revistas e jornais sai com a alma em farrapos. A leitura, que é um presente a nós mesmos, um agrado ao espírito, está sendo tratada como adereço externo. Que tal experimentar, de vez em quando, apresentar a literatura pelo que ele realmente é: aventura pelos caminhos do planeta, cheia de vida e emoção, sangrando e chorando de felicidade. Cada um tem sua maneira de se relacionar com o livro. E é isso que faz dele um cinema com algo à mais, individual, pois trata-se de um filme que você mesmo dirige, escolhe o elenco, sonoriza, corta, edita. Esses dias li no blog da Marilda Confortim (link ao lado) um poema que trata disso.


Bagagem literária?

Bobagem!
Nessa viagem
leve um coração
leve

e sobretudo um
olhar de veludo

(Marilda Confortim)

domingo, março 05, 2006

Pela preservação da genialidade humana

Às vezes imagino se não somos todos um pouco responsáveis pela preservação das pessoas e obras geniais que cruzam nosso caminho. Tanto quanto pelo ar, pela água, pelas plantas, pelos bichos. Por isso sinto-me um tanto incompetente - e, por extensão, a minha cidade - quando lembro que três patrimônios da humanidade conviveram entre nós e partiram um pouco cedo demais: Paulo Leminski, Marcos Prado e Jamil Snege. Abaixo, um texto do Jamil Snege, extraído do livro Senhor. Pequena amostra de um mestre do conto, do romance, da novela, da crônica, da poesia. Leia, espalhe e preserve. A atmosfera da nação agradece.


Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.

O vento sopra forte e
enfuna meu coração
de alegria.

Agora é contigo, Senhor.

Toma o leme e risca
o rumo do meu barco - não
penses que irei por
este mar sozinho.

Jamil Snege (1939/2003)

quinta-feira, março 02, 2006

Só para não ficar barato

Soube pelo blog do Mário Bortolotto que um "crítico" da revista Veja foi extremamente desrespeitoso com os escritores André Santana, Marcelo Mirisola, Daniel Pelizzari e Nelson de Oliveira. Normal. Eles deviam mais é mandar emoldurar e pendurar no escritório. É uma espécie de medalha e, a partir de agora, prestarei continência cada vez que eles entrarem no ambiente. Claro, óbvio e evidente que não li a tal "crítica" ou qualquer outra seção da revista. Passei dessa fase masoquista, de ler só para "garrar" ódio. Talvez, quem sabe, um dia, numa sala de espera qualquer, se cair na mão, eu dê uma olhada. Pela reação que causou em alguns dos maiores talentos e das inteligências mais aguçadas do nosso tempo (o Bortolotto teve a pachorra de fazer um roteiro de textos lá no blog dele) dá para saber que não foi uma crítica de gente honesta, decente e trabalhadora. Só para não ficar barato e esse pessoal ainda mais espaçoso, aqui vai uma colaboração, minha e do Thadeu, sobre esse assunto:

Abaixo da crítica:
o que é que há, bicho?


Reflexões na sala de espera do hospício
cercado de cadernos 2 por todos os lados.

há os de barbicha de mágico de mafuá
quando entram na entrevista
falando pelos cotovelos

- quem lhes decifra os garranchos ?


há os que dão cotoveladas de amor
há os que ajoelhou tem que resenhar
carolas coronários do normal

- quem lhes ouve a ladainha ?


há os que se escrevem de bruços
pra justificar o dialeto
de seus amigos diletos

- quem lhes aplaude a tolice ?


há os que acertaram um dia
ao pegar de susto
e até hoje tiram o sono dos justos

- quem lhes publica a insônia ?


há os zagueiros violentos
que levantam sepulturas com seus podres
sem conseguir abrir mão do osso

- quem lhes rói os traumas ?


há, principalmente, os impublicáveis,
hienas aplaudindo a volta da carniça
que dá vida e graça às suas claques

- quem lhes fareja a sabujice ?


e há, ainda, os balões de ensaio,
egos inflados por prisão de ventre,
digerindo os cheiros do passado heróico

- quem lhes conta a verdade ?


(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

quarta-feira, março 01, 2006

O desafio de Issa e seus aquilos

Issa e Seus Aquilos é nome do livro que eu e o Antonio Thadeu Wojciechowski estamos preparando há uma boa década, com livres adaptações de poemas do japonês Kobayashi Issa (1763/1827). A Alice Ruiz e o Paulo Leminski fizeram algumas das mais brilhantes traduções para o português da obra do mestre do haicai. Por exemplo:

escrevam aqui
amava haicai
e caqui


O Millôr Fernandes, o Guilherme de Almeida e a Olga Savary também andaram mexendo no vespeiro do japonês. Por essas e por muitas outras que é preciso uma boa dose de coragem, irresponsabilidade, cara de pau e doideira braba para entrar nessa seara. Justamente o que não nos falta. Metemos a mão na massa. Com muito respeito, é claro, pois, sem ele, você morre atropelado pelo carrinho de sorveteiro - como nos ensinou Nelson Rodrigues.

Mas, antes de conhecer algumas livre-adaptações minhas e do Thadeu, extraídas do livro Issa e seus aquilos, vai um original do Issa e a tradução em inglês. Como ficaria no idioma de Marcos Prado, Paulo Leminski e Torquato Neto? Sugestões para a caixa de comentários.




Gimme that moon!
cries the crying
child

(Tradução de David G. Lananoue)




o mendigo olha

e reconhecendo-me

devolve a esmola

Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)




lua da montanha

ilumina também a mim

o ladrão de flores


Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado)



sombras amigas

nas asas das borboletas

minhas outras vidas

Kobayashi Issa (livre adaptação de Antonio Thadeu Wojciechowski)



crisântemos

sobre o monte de estrume

um só perfume

Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)



a neve mexe

no calor das crianças

a aldeia se derrete

Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)



terça-feira, fevereiro 28, 2006

As aventuras de Adriano Sátiro ou Quem avisa não vai pelos outros

Eu já disse a vocês que o Adriano Sátiro, além de debulhar diversos instrumentos musicais, também sabe mineirar palavras, comendo quieto, pelas beiradas, o mingau fervente da poesia. Pois aí vai uma pequena amostra. De quebra, umas fotos, para vocês recortarem, ligando os textos à figura. E para que vocês se convençam, definitivamente, que o Sátiro não é apenas um rostinho bonito.


Adriano Sátiro debulhando uma guitarra indefesa.

a nata está em festa
e nem é fim de ano

reunidos em sete
palmas
comemoram a pena
do décimo-segundo arcano

pobre de quem ri primeiro
porque o vigésimo vem
com o décimo-terceiro

(Adriano Sátiro)


Los cuatro amigos: Arrigo Barnabé, Osvaldo Rios, Adriano Sátiro e Carlos Careqa agradecem a atenção dispensada. Alta concentração de talento por m².


tempesta:

o galho balança


o pássaro

incerto

pousa de asas abertas

na firmeza do vento


(Adriano Sátiro)



edson x blackout


dá-lhe castiçal

castiga

enquanto

luz que liga

versus

vela antiga

em versos

levo a briga


(Adriano Sátiro)


mãos aos alto


as mãos voltadas

para cima

esperam algo

de mim


lá existe um céu

e um tanto de anjos


esse amontoado

de vazio


é apenas pra você

ficar cheio de mim

(Adriano Sátiro)

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Eu sou um poeta legal, agora só falta convencer a minha mãe.

Essa é minha mãe, a dona Nadyr do Prado de Oliveira, vestida com o seu velho manto sagrado. Esses dias fui visitá-la e a encontrei detonando um ameaçador tijolo de mil páginas do Harold Bloom. E ela sempre foi assim. Mente ágil e curiosa, fortalecida pelo halterofilismo vivencial de criar 7 filhos sozinha e sem um tostão. E haja fosfato para acompanhar a Dona Nadyr. Nunca esqueço que, quando criança, nos famosos festivais de música, ela ensinava a gente que bom mesmo era o Jards Macalé em Gotham City, Raul Seixas em Let me sing e Walter Franco em Cabeça. Kafka, Sartre, Cortázar, Borges, Cervantes são apenas alguns exemplos do que eram os nossos livros infantis. Mas o que eu quero dizer mesmo é que ela sempre foi o primeiro controle de qualidade dos Prado, antes de nossas gracinhas irem para a rua. Eu e o Marcos Prado, quando alguém elogiava demais os nossos textos, sempre dizíamos: - "Eu escrevo bem. O duro é convencer a minha mãe". As pessoas que não conhecem os modos da dona Nadyr podem até achar que isso é literatura. Mas não, é vida. Uma vida cheia de vidas.

domingo, fevereiro 26, 2006

Chora sorrindo, olha pra nada

Nesta foto a minha filha me pegou em flagrante rindo sozinho, fato que eu negava, para não dar o que falar e também para ficar sossegado no meu canto. Isso acontece de vez em quando e agora existe essa prova material. Mas acontece não por problemas nos neurônios e nem porque eu relembre a piada do mexicano que entra de chapéu na igreja. Geralmente rio de satisfação ao lembrar de alguém ou alguma coisa muito bacana. Uma pessoa, um verso, uma música, uma atitude. Repentinamente, o mundo deixa de ser tão mal quanto aparenta. Quer um exemplo? Leia o poema que o Adriano Sátiro me mandou. E se você me encontrar rindo por aí nos próximos anos, não me interne, ainda não. Pode não ser culpa minha, mas de algum amigo. Como o Adriano, por exemplo.


volta ao batuque

(adriano sátiro)


hoje o beco me deixou sem saída
agradecido me vi obrigado a dar meia-volta
numa reviravolta de minha vida
que eu não sabia nem me dava conta
mas andava meio mal resolvida

acontece que há muito tempo
me despedi das palavras velhas companheiras
por achar que nelas já não achava graça
nem serventia quem dirá olheiras
só os acordes me acordavam
só as notas me notavam
tal qual a nona do beethoven
que já se encontra meio velhinha
eu só tinha ouvidos para a música
e andava surdo pra poesia

mas a escrita é santa e as palavras são sábias
as abandonei mas elas não a mim
ficaram me aguardando no amigo beco
e sem lançar mão de manhas nem de lábia
usando apenas de seu honesto fim
sabendo que este eu parado
mesmo demorado um dia passaria
aproveitaram o ensejo e de bom grado
me devolveram através do prado
o mais profundo amor pela poesia

sábado, fevereiro 25, 2006

Façam alguma coisa pelo nosso amor

Porque hoje é sábado, tenho uma ou duas coisas a dizer. Primeiro: fiz uma adaptação da peça O Inspetor Geral, do Nicolai Gógol para a coleção Teatro em Prosa, da editora FTD. Já ouvi muito sermão de amigo me cobrando por ser um folgado e não ir atrás de editora grande, de lançar algo em São Paulo, Rio, Europa e Bahia. Pois, então, agora vão lá, comprem, leiam, comentem, escrevam resenhas, façam alguma coisa pelo nosso amor. E quem, além de amigo, é professor e dizia não poder recomendar que os alunos comprassem livros de editoras "alternativas", agora acabou a desculpa. É uma editora legalmente constituída, o livro ficou bem bom e tem até um material de apoio para professores e alunos. Mas não é livro didático, entendam bem. Dá pra qualquer um ler. Sem vergonha.


A outra coisa é que já está nas boas bancas de jornal e livrarias o número 38 da revista Idéias, da Travessa dos Editores, com um texto meu. Quem reclama que eu fico escondido, que não saio da toca, que sou um jacuzão, que não divulgo, que estou fora da mídia, vai ficar feliz de me ler lá, ao lado de Fábio Campana, Dalton Trevisan, Ernani Buchmann, Luiz Geraldo Mazza. Podem experimentar um bocadinho. Mas a matéria completa, só na revista Idéias.

Do auto-atrapalho
à culpa dos outros:
a arte de dar errado


"De certo modo é reconfortante saber que o costume de dar com os burros n’água e ver a vaquinha brejeira atolada até o gorgomilo não é um problema pessoal, mas característica profunda da alma brasileira. Atire o primeiro projeto gorado aquele que dentre vós nunca fracassou. Por isso, não fique triste, não se zangue, sossegue o coração: esse tropismo ancestral para o infortúnio não é motivo de vergonha ou constrangimento. Não precisa discutir com a patroa, bater nos filhos e sair par aí atropelando velhinhas por uma coisinha à toa dessas. Sem escândalos e chiliques, por favor. Afinal, não é culpa de ninguém."

E tem uma terceira coisa a contar que é sobre o lançamento da nova edição da versão do Livro de Tao feita por mim, pelo Alberto Centurião e pelo Antonio Thadeu Wojciechowski, por uma editora paulista, com a direção de arte por conta de um dos maiores artistas gráficos do mundo, o genial Daniel Kondo. Mas essa notícia eu deixo para o Thadeu explicar melhor lá no Polaco da Barreirinha. Essa é uma notícia legal para quem reclama que fazemos edições muito pequenas, que os livros acabam. Agora quero ver todo mundo comprando de penca, para si e para presentar aos amores de suas vidas. Sem vergonha.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

A brutal elegância da conversa com versos.


Antônio Thadeu Wojciechowski, Sérgio Viralobos, Marcos Prado e Roberto Prado desempenham com perfeição o papel de bons rapazes por ocasião do lançamento do livro Os Catalépicos, no qual autografaram com diversos carimbos: "amigo", "amiga", "gostosa" e "desconhecido".




Marcos Prado, Antonio Thadeu Wojciechowski e Márcio Cobaia Goedert em espetáculo musical na capital paranaense.


Antonio Thadeu Wojciechowski e Marcos Prado navegando para um compromisso social numa ilha deserta.


Temos aqui em Curitiba um grupo de amigos poetas, que se comporta, às vezes, como quadrilha, bando ou banda. Um pessoal, digamos assim, meio extravagante, maltrapilho, desastrado, meio... para ser bem sinceros mesmo, meio jacus. Mas, por conjunções cósmicas desconhecidas, até que fazemos uns versinhos interessantes de vez em quando. Pois bem. Os nossos amigos famosos no mundo das letras e das artes vivem tentando ajudar a gente e reclamam que os modos da turba assustam às visitas. Fazemos força, tentamos tranqüilizá-los:

pão seco na porta

eu bem que tento fazer tudo certinho
só preciso de um pouco de compreensão
o doutor disse: "- você vai ficar bom!"
e já me sinto bem mais bonzinho

tenho fé de que tudo vai melhorar
nunca mais vou precisar me desculpar
a vida não é brinquedo vocês sabem
e por mais que cuide acaba saindo bobagem

eu nunca fui ladrão, prefiro pedir
perdão se um dia ofendi sendo sincero
devo tudo a vocês, não canso de repetir
amor carinho é tudo que eu quero

que seja um bálsamo para tu’alma estas rimas
fiz de coração aberto e espírito desarmado
por sensível, acabam me tomando por viado
viu? acabei de fazer mais uma das minhas

(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

Certa vez, estávamos prestes a nos dar bem com um grande editor de São Paulo (obrigado, amigos famosos), mas não resistimos à tentação de lhe mostrar nossa última criação, achando que, por ser um soneto, ia pegar bem:

ponto crítico

Saúde, luz e vida longa ao crítico,
Alma humana que merece salvação.
Escura morte morna à Crítica,
demônio doente com o diabo no corpo são.

Não odeia, aquele que foi bafejado pela razão,
os afastados de Deus pela ausência de prazer.
Não se exija do necrófilo nada além de saber
arrastar cadáveres para a prostituição.

As lingüiças existem, carentes de encheção.
Não erga a voz para justiçar sem dó
Àqueles que a dor do silêncio já respondeu.

Ame, também, os que estão abaixo da abstração,
sem querer chorar o que é riso só,
sem querer sorrir o que entristeceu!

(Roberto Prado, Marcos Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

Bem, o editor foi educadíssimo, mas – acreditam nessa? – reclamou aos nossos amigos famosos que éramos talentosos, mas muito agressivos. Claro que não publicou nada: "fora do perfil". Nossa indignação foi proporcional ao tamanho da injustiça:

me enterrem vivo

Você vai acabar gostando
No começo pode até estranhar
Só que chorar não adianta
Chega uma hora que a gente cansa de lutar

Aí você bebe até se enlamear
De boca na valeta não levanta
Mas amanhã será o mesmíssimo dia
De todos eles a censura e o rancor

Da raiva saber que o mundo é assim
Só o vírus da dor me contagia
Não tenho amor nem por mim

E se você pensa que não vai cair na vida
Alegria, alegria, alegria, alegria
Começou a sua festa de despedida

(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

Mas não somos de guardar mágoa. Logo nos reunimos à maloqueirada, conversamos, cantamos, demos umas boas gargalhadas e, inspirados, transformamos a frustração em uma mensagem altamente edificante:

sentado à beira do campinho

ninguém vai querer saber
se você presta ou não presta
a grande maioria te odeia
e o resto te detesta

eu já fui como você
não tenho vergonha de dizer
agora pernas pra que te quero
que ninguém é de ferro

na guerra entre o ponteiro
e o quarto zagueiro
quem vai na bola
sai pra reserva de padiola

só não me use como espelho
eu sou bonito e você é feio
tire a minha imagem do tubo
quadrado é o teu cubo

(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski )

Bom, hoje os nossos amigos famosos evitam apresentar a gente para as novas patroas ou nos convidar para as suas casas novas com as patroas antigas. E só nos chamam à festa para carregar caixa (depois que a festa começa, a gente fica na cozinha). Mas, só para você ter uma idéia da nossa boa vontade, desprendimento e superioridade moral, chegamos ao cúmulo de dar explicações e até revelar as origens do nosso transtorno:

imaginem se eu tivesse infância

não me venha cobrar pela agressão gratuita
ensinar que é bom ninguém ensina
depois ficam falando por trás das minhas gracinhas
paródias, deboches, escárnios sem o menor respeito
entendam de uma vez que esse é o meu jeito

nunca tive dinheiro pra comprar um livro
os que roubei eram de um mau gosto incrível
todos diziam que eu não valia o sermão que ouvia
dicas, palpites, orientações, exemplos sadios
meus amigos eram todos uns vadios

ler e escrever pra mim já é muito
os bons se acham demais pra perder tempo comigo
pra chegar onde cheguei só eu sei o que engraxei
disso ninguém lembra na hora de exigir qualidade
meu escrito e escarrado é o retrato dessa realidade

subnutrido não aprende nada na escola
a dureza da vida foi minha tese de pós-graduação
quem não teve sapato pra jogar tem que entrar de sola
repetidor, inculto, kitch, demodê, estilo indefinido
o que vocês tiram dos livros, eu tiro do ouvido

guardei na pele toda a sorte de humilhações
hoje, quando me querem no picadeiro de letrados
vejo que estava até certo ponto errado
abraços, beijos, elogios: dêem ao coitado do porteiro
minha parte da glória eu quero em dinheiro


(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

É. Impressionante como esse mundo é mau mesmo. A gente crente que está abafando, quase com a mão na taça, a um passo do nirvana e na hora h, no dia d, sempre aparece alguém para sacanear. Você pode até achar que tudo isso é o fim do mundo. Com toda razão, pois é mesmo:

desta vez vai bater

em todos os textos antigos
desde os tempos mais remotos
maremotos e terremotos
ainda não foram castigos

o pior não está acontecendo
deixe o cometa halley voltar
o céu prepara um calote polar
nada se verá de tão tremendo

daquela vez ia bater
da próxima vez vai bater
desta vez vai bater

tem que bater

o mudo terror de tua alma em alarde
nem o mais escuro esconde
quer correr mas agora é tarde
quer gritar mas agora é longe


(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

Essa é apenas uma das conversas que dá para montar com os poemas do livro Conversa com versos, que logo vai sair, só com poemas em parceria. Se algum amigo famoso quiser dar uma força, pode ficar tranqüilo, vamos nos comportar como na primeira foto..

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

As aventuras do Sátiro peralta e do santíssimo Trindade

De pé, atrás do Marcos Prado, o Adriano Sátiro, hoje habitante da paradisíaca Penha, no litoral de Santa Catarina.


De mãos para o céu, o Beto Trindade, diante de igreja histórica nos arredores de Londres, que ele recebeu com a missão de transformar num centro cultural.

Pois essas duas criaturas, hoje morando em locais antagônicos do planeta, moravam em Curitiba e tinham coisas em comum. Uma rebeldia natural contra qualquer rótulo, por exemplo e a facilidade de lidar com todas as artes, isso para resumir mal e porcamente a personalidade desses dois trabalhólatras assumidos. Claro que eles foram embora de Curitiba.

Mas o que eu quero dizer é que sob a batuta dessa dupla eu aprendi um bocado sobre música, poesia, sonoridade, teatro, coerência, respeito, honra e tradição. Suei um bocado para acompanhar o ritmo alucinado dos dois compositores mais rápidos no gatilho.

Uma letra é uma letra. Fiz algumas. Gosto delas, não esqueço e nem renego. Nunca. Mas o que me orgulha de verdade nessa história de letrista e compositor é ter sido capaz da proeza de colocar versos em músicas de caras que escrevem melhor do que eu, como o Adriano Sátiro e o Beto Trindade.

Além de canções, escrevi e atuei numa peça de teatro em parceria com o Adriano, Tô de cara, coração, em 1982, um espetáculo que chegou ao cúmulo de ter público na platéia.Fui operador de som e fiz a letra da música-tema de K, o Monólogo, peça da Familía Buty King, de assombrosa memória (Trindade, Julio Garrido, Gilberto Canabarro e Eduardo Prante). Com Trindade e Adriano, juntos ou separados, participei de muitos shows, dizendo meus versinhos e até cantando, para desepero dos músicos de pouca fé, temerosos de uma invasão massiva de poetas lhes tomando o ganha pão. Mas os dois não estavam nem aí.

Não sei direito o que o Adriano está aprontando no momento. Mas posso apostar que, com ele por perto, Penha já deve ter grupo de teatro, coral, banda de rock, estúdio. O Trindade tem uma banda lá em Londres, junto com um inglês e um Palestino, a Macogna, além da carreira solo.

O legal é que eles têm duas outras coisas em comum. A primeira é que os dois são parceiros do Carlos Careqa, que não é bobo nem nada e sabe que agregar talento é um dos seus grandes talentos. Procure os discos Os homens são todos iguais, Música para final de século e Não sou filho de ninguém. E ouça para ver o que é bom. A segunda coincidência é que os dois têm CDs solo produzidos pela Homem de Ferro, de Curitiba, a produtora dos heróis da resistência Rodrigo Barros e Luís Ferreira (anjos da guarda que, além de nos darem o Beijo aa Força e o Maxixe Machine, agora estão tramando os últimos detalhes do CD Wojciechowski, com as pérolas do cancioneiro do Thadeu).

Procure por aí. Nos Cds O melhor do bom do Trindade, do Beto Trindade, é claro, e em A caminho do céu, com Adriano Sátiro e os Bem Aventurados. Ou em mp3. Coisas geniais, maravilhas que você pode dar de presente a você mesmo, esteja você disposto ou não a ir para Penha/BR ou Londres/UK.




quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Estamos nesse mundo de passagem


De dentro para fora: Nelson Cavaquinho observa a Mangueira.



De fora para dentro: Mangueira observa Nelson Cavaquinho.


Quando o ano chega nestas épocas, lembro que muita gente não sabe separar o samba-samba, a instituição, com o samba-carnaval, uma das suas vertentes.

"Todos têm o direito
De sorrir neste mundo

Só eu choro porque

Sou um rei vagabundo."

Algo como um norte-americano confundir o som do Lou Reed com o de uma dessas bandas especializadas em mega-concertos carnavalescos.

"Noites eu varei
Mas cada amor me fez um rei

Um rei vadio

Um poeta tão sem lei"

Aí me lembrei de um texto que escrevi junto com o Thadeu para o encarte de um CD do Maxixe Machine, o Barbabel.

"Quando eu ouço
As badaladas do sino
daquela igrejinha

Julgo-me ainda feliz
E que és toda minha

E quando vejo
a torre bem alta

Daquela linda catedral
Fujo da tua amizade infernal"

Um breve ensaio que fala de samba, de poesia e de carnaval (ou a ausência dele). E acabou ficando bem divertido. E quem ainda não conhece o Barbabel, corra. Por enquanto, leia o texto:

Os Acadêmicos da Sapolândia

De repente o tal do Luís Américo nos dá o X da questão

“Vou dar bolacha

em quem mexer com a minha nega

já dei colher de chá,

agora chega”.

O povão é louco mesmo. Do brejo das almas salta uma tessitura de ecos e ressonâncias, sambando a la John Donne

“cuidais que são e não são

homens que não vão nem vêm

parece que avante vão

entre doente e o são

mente a cada hora a espia

na meta do meio-dia

andais entre o lobo e o cão”.

Pérolas bóiam na lavagem atirada aos porcos da mídia, puro deleite, entortando a gramática, bagunçando a lógica (ouvide Adoniram), nos apaixonando

“pela dona do 1º andar”.

Mas

“eu já disse a você

que malandro demais

vira bicho”

por isso não confunda com vanguardismo. Já no século XVII, Gregório de Matos misturava coisas de todos os povos que por aqui saqueavam e andavam

“pés de puas com topes de seda

cabelos de cabra com pós de marfim

pés e puas de riso motivo

cabelos e topes motivos de rir”.

Ouça os fonemas oclusivos bilabiais (P – surdo- e B – sonoro), nos linguodentais (T – surdo- e D – sonoro), e no velar C – surdo - formando os pares aliterativos. Quero morrer na cadência bonita do samba. Augusto dos Anjos, poeta singular, em Gemidos da Arte, faz as letras A e R voarem

“Um pássaro, alvo artífice da teia

de um ninho, salta, no árdego trabalho

de árvore em árvore e de galho em galho,

com a rapidez duma semicolcheia.”

Por outro mesmo lado, Cruz e Sousa imporia ritmo forte, frenético e penetrante no soneto Acrobata da Dor

“Da gargalhada atroz, sanguinolenta,

agita os guizos, e convulsionado

salta, gavroche, salta clown, varado

pelo estertor dessa agonia lenta.”

O mestre negro ensinou nossos brancos a amar Baudelaire e Edgar Poe. Em Noel Rosa, o pulo inverso: um branco ensina nossos negros que

“batuque é um privilégio”.

A doida brasileirice ecoa nas marchinhas, onde o espaçotempo desintegra a realidade

“ô abre alas que eu quero passar”,

“mamãe eu quero mamar”,

“alalaô ô ô, mas que calor ô ô”.

Momo hoje perdeu graça, graças à reciclagem mecânica do que já está na parada. Kojak devia meter bronca nesta moçada, junto com o kung fu, chinês valente, homem pra chuchu. Mas não importa, afinal, carnaval é um bando de dedo pra cima, fantasiado de turista. Samba é de outros carnavais.


O the best do tempestuoso carnaval curitibano não é música, batuque, dança, alegoria e, sim, o glorioso nome de uma escola: Acadêmicos da Sapolândia, onde sílabas pulam animadamente. O solitário sambista de Curitiba é tão inédito que nem nós, que somos nós, conhecemos o Lápis. Luiz Carlos Paraná fez nascer Maria quando a folia, mas as mocinhas da cidade pensam que é filha do Roberto Carlos. Fazer o que, se é aqui

“onde moro que me sinto bem”?

Pois somente aqui,

“onde ela mora”, e "a avenida tem fim"


demora essa sonoridade

“eu nunca tive pinta de eunuco

nem de voyeur do teu balacobaco

meu passarinho saiu do teu relógio cuco

você deixou meu coração batendo fraco”.


Pra terminar, uma pergunta: ouvidos novos ouvem ou vêem os sons que vêm e botam ovos?


(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Um antiensaio do aniquilamento


O cara da foto acima é o Marcos Prado posando para o livro Dois mais dois são três em um, parceria dele com o grande Sérgio Viralobos. Uma preciosidade na idéia, no texto, na concepção gráfica, foi o marco inicial de uma nova forma de ler, de sentir, de praticar e de se editar poesia. Poemas em parceria. Índice comentado. Epígrafes que complementavam. Tudo pensado nos mínimos detalhes. Fez revolução, mexeu com as cabeças e pôs as pernas para funcionar. A rapaziada em volta sentiu que o "faça você mesmo" não precisava e não devia significar indigência.

Onde eu quero chegar? Simples. Esse livro, que tanto sucesso fez, hoje é uma raridade. Conhecido mais por ouvir falar, sentido pela influência em outras obras, virou lenda. Quem tem, esconde para não roubarem. Marcos Prado ganhou recentemente uma edição primorosa, o Ultralyrics, pela Travessa dos Editores, que tem até CD encartado. Mas outro grande livro da mesma dupla ainda está inédito: O livro póstumo de marcos prado e sérgio viralobos.

E isso me faz lembrar de obras misteriosas, como a do título matador Um antiensaio do aniquilamento. Quem me passou um exemplar, entusiasmado, foi o César Bond, em algum dia do meio da década de setenta. Eu e o Marcos lemos e concordamos: o cara era forte. Mas, como bons meninos, devolvemos o exemplar ao Cesinha. Pronto. Nunca mais conseguimos botar a mão no livrinho. Sobrou apenas o que ficou na memória. Muitos amigos duvidavam da sua existência e um chegou a dizer que desconfiava ser um heterônimo nosso.

Mas eu sei que o autor era do interior de Minas Gerais, seu nome era Eduardo Alcântara e na época (quase 30 anos atrás) já não era nenhum jovenzinho. Ele existe (ou existiu) sim, senhores, e espero que algum mineiro bem informado diga onde encontrar Um antiensaio do aniquilamento e outras bossas do mesmo poeta.

Enquanto isso, sobra o que me ficou na memória. Pois ela insiste em teimar que caras assim não merecem ser esquecidos:

Anticredo

Creio na sombra que me isola,
creio na inútil mansidão
que rumina o passado; e creio
nos erros digeridos;
na assimilação anticonfessada
de emoções que frutificam
sem Ti.

Creio na fuga do sol
e na ausência da flor.

Creio no prematuro, o inacabado;
na volúpia do tempo
e na fortuna do espaço,
que afastam os germes;
creio no Id, no Ed, e no Supered
que me obrigam a crer
no sonho, na angústia e o antiímago.
Creio em Ti
Como sombra que afaga tanto Nada
para que a luz não se extinga entre meus dedos
de esqueleto sem pés e sem história.
Amém. Ou talvez não.

Eduardo Alcântara, de algum lugar das Minas Gerais.

sábado, fevereiro 18, 2006

Quem resiste, apanha. Quem espera, desiste.



Ler a poesia completa do Bertolt Brecht é esporte radical, passeio em montanha russa sem cinto de segurança.

Num momento, somos levados para os abismos da alma humana, flertamos com a eternidade e recebemos o universo de bandeja. Em outros, caímos de bode com textos datados, panfletos antifascistas e loas ao partido comunista.

Aí, damos um trilhão de descontos, pois o sujeito não estava posando de esquerdista na TV, mas enfrentando Hitler e a SS. Breve intervalo e passamos para saborosos poemas zen-taoístas, linguagem límpida, força primitiva, um misterioso ar oriental mexendo delicadamente com as cortinas da nossa cachola.

No final, novo susto e saímos maravilhados com algumas das mais gloriosas e estonteantemente belas odes à amizade que este planeta já ouviu, repletas de afeto, honra, gratidão, fidelidade.


Você, que conhece a alma humana, já deve saber que os poderosos de qualquer regime não deixariam um sujeito desses viver sossegado em lugar nenhum do planeta (e olha que ele rodou meio mundo):



De cidade em cidade

Sento na beira da estrada

Enquanto o motorista troca a roda.

Não gosto da cidade de onde venho.

Não gosto da cidade para onde vou.

Então por que espero essa troca de roda

Com tanta impaciência?

(Bertolt Brecht - tradução de Roberto Prado)


E o cara continuou, incorrigível, metendo o bedelho em tudo, incapaz de fingir que não era com ele:

Terra nostra

Fora essa estrelinha apagada,

pensei, não temos nada

E ela está toda suja e devastada

Ela é nossa casa, nossa única casa

E olhe só o estado da coitada.

(Bertolt Brecht - tradução de Roberto Prado)


Só de olhar a foto dá para imaginar que ele não estava nem um pouco preocupado em agradar à cachorrada. Vão lá. Tem muito mais de onde saíram esses dois.

* O título deste post é verso de Brecht traduzido por Domingos Pellegrini e publicado no livro Poemas para gente de teatro. Quem se habilita a reeditar essa preciosidade?

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Estou cansado, onde é meu lar?

Eu estava aqui pensando com meus botões, mas, como a roupa que uso não tem botão algum, acabei lembrando do Arnaldo Baptista.

Um cara que, desde antes dos Mutantes até depois de hoje, deixa bom tudo o que toca - há mais de 40 anos. Não que precisasse tanto o cara que fez um verso como “meu trem/ você vai demorar/ estou cansado/ onde é meu lar?”.


Daí, lembrei que o Sérgio e o Thadeu fizeram um poema só com frases desentranhadas de entrevistas do Arnaldo:

o a e o z

o coração é a parte mais importante pra mim

pulou na frente quando era pra eu pular

no futuro haverá um museu cheio de novidades:

amplificadores valvulados, guitarras gibson e energia solar


explicações que minha profundidade tem a dar:

no transístor a distorção é sibilante!

meu sonho pessoal amplificado em milhões de watts

o equipamento vai me deixar transmitir isso?


(Sérgio Viralobos e Thadeu Wojciechowski)

Vítima de um erro médico, o Arnaldo Baptista caiu da janela do hospital e, durante anos, essa mesma medicina afirmou que o cara estava condenado a ser um vegetal. Ele e sua mulher não acreditaram no que estavam ouvindo. E, em alguns anos, voltou a andar, a falar, a tocar, a escrever, a compor.

Lembro também que, quando voltou à ativa nos palcos, diziam que o Arnaldo Baptista estava maluco e não levaram à sério sua insistência de que era preciso voltar a usar os amplificadores valvulados em shows profissionais. Hoje a ciência sabe que ele tinha razão. No auge dos Mutantes, era um modelo, um ícone, um símbolo e imagino que isso não deve ter sido fácil para um ser com sua estranha sensibilidade. O bando é cruel e, depois de um tempo, acha que sabe como você deve ser melhor do que você saberia.

Pois foi então emendei outra recordação, uma obra prima da mesma dupla de poetas sobre esse assunto:

abraço aos amigos ursos

em meio à fumaça do meu sono

um rosto que nunca vi mais fino

chegando, sorrindo e me nomeando:

- ó, chefe dos escoteiros junkies!

não, não era um filme de david cronenberg

era um sonho em curta-metragem sobre meus amigos

eu por todos e todos cada um por si

perdido e me perdendo pelos outros

como boi de piranha da manada nihilista

atravessando velha que não queria ser atravessada

só acordei com a fisgada na carteira

meu melhor amigo com a arma na minha cara

foi então que a lâmpada acendeu-me uma idéia:

- declaro aberta a temporada de caça !

(Sérgio Viralobos e Thadeu Wojciechowski)

E foi aí que me deu saudades do Sérgio Viralobos, hoje em SP, um cara que, como o Arnaldo Baptista, deixa o ar da sua genialidade em qualquer texto onde ponha a mão.


Me toquei também que, com tantas parcerias cruzadas entre eu, ele, o Marcos e o Thadeu, só em uma se juntaram os quatro mosqueteiros:

chão de brasas

comido o pastel de brisa

sonho pela barriga

o vídeo da última comida

não há piquenique sem formiga


salva de sal grosso

nas partes do elefante

acordo para o almoço:

espetinho sem carne


(Marcos Prado, Roberto Prado, Sérgio Viralobos e Thadeu Wojciechowski)


Mas é claro que não é filho único, pois disso tudo, dessa vida, desse esforço coletivo, dessa fome, dessa - como disse o Sérgio - "suruba mental com todo o respeito" surgiu um certo ar, uma certa alegria, um certo bom humor negro, uma poética da criação que acaba fazendo parte de tudo que todos escrevem, seja com quem for. Será isso mesmo? Meus botões preferiram guardar a boca pra comer farinha. E vocês, o que acham?