quinta-feira, março 09, 2006
segunda-feira, março 06, 2006
Por um meio literário com menos chutes e pontapés

O brasileiro poderia ler mais, discutem os sábios, entre os pequenos e os grandes lábios, como bem disse o Leminski, falando de um outro assunto. Fora os blablablás de sempre (educação, preço, distribuição, etc. ad nausean) é preciso reconhecer que isso também é conseqüência da chatice reinante no próprio meio literário, onde cristalizou-se uma lenga lenga de afastar a mais curiosa das boas almas. Livros muito legais, interessantes, emocionantes, muito vivos, são dissecados, embrulhados e rotulados de maneira assustadoramente desagradável. Quem lê o setor de "resenhas" e "críticas" de revistas e jornais sai com a alma em farrapos. A leitura, que é um presente a nós mesmos, um agrado ao espírito, está sendo tratada como adereço externo. Que tal experimentar, de vez em quando, apresentar a literatura pelo que ele realmente é: aventura pelos caminhos do planeta, cheia de vida e emoção, sangrando e chorando de felicidade. Cada um tem sua maneira de se relacionar com o livro. E é isso que faz dele um cinema com algo à mais, individual, pois trata-se de um filme que você mesmo dirige, escolhe o elenco, sonoriza, corta, edita. Esses dias li no blog da Marilda Confortim (link ao lado) um poema que trata disso.
Bagagem literária?
Bobagem!
Nessa viagem
leve um coração
leve
e sobretudo um
olhar de veludo
(Marilda Confortim)
domingo, março 05, 2006
Pela preservação da genialidade humana
Às vezes imagino se não somos todos um pouco responsáveis pela preservação das pessoas e obras geniais que cruzam nosso caminho. Tanto quanto pelo ar, pela água, pelas plantas, pelos bichos. Por isso sinto-me um tanto incompetente - e, por extensão, a minha cidade - quando lembro que três patrimônios da humanidade conviveram entre nós e partiram um pouco cedo demais: Paulo Leminski, Marcos Prado e Jamil Snege. Abaixo, um texto do Jamil Snege, extraído do livro Senhor. Pequena amostra de um mestre do conto, do romance, da novela, da crônica, da poesia. Leia, espalhe e preserve. A atmosfera da nação agradece.Já inspecionei a proa,
amarrei a carga,
desatei a vela.
O vento sopra forte e
enfuna meu coração
de alegria.
Agora é contigo, Senhor.
Toma o leme e risca
o rumo do meu barco - não
penses que irei por
este mar sozinho.
Jamil Snege (1939/2003)
quinta-feira, março 02, 2006
Só para não ficar barato
Abaixo da crítica:
o que é que há, bicho?
cercado de cadernos 2 por todos os lados.
há os de barbicha de mágico de mafuá
quando entram na entrevista
falando pelos cotovelos
há os que dão cotoveladas de amor
há os que ajoelhou tem que resenhar
carolas coronários do normal
há os que se escrevem de bruços
pra justificar o dialeto
de seus amigos diletos
há os que acertaram um dia
ao pegar de susto
e até hoje tiram o sono dos justos
- quem lhes publica a insônia ?
há os zagueiros violentos
que levantam sepulturas com seus podres
sem conseguir abrir mão do osso
há, principalmente, os impublicáveis,
hienas aplaudindo a volta da carniça
que dá vida e graça às suas claques
egos inflados por prisão de ventre,
digerindo os cheiros do passado heróico
- quem lhes conta a verdade ?
quarta-feira, março 01, 2006
O desafio de Issa e seus aquilos
escrevam aqui
amava haicai
e caqui
O Millôr Fernandes, o Guilherme de Almeida e a Olga Savary também andaram mexendo no vespeiro do japonês. Por essas e por muitas outras que é preciso uma boa dose de coragem, irresponsabilidade, cara de pau e doideira braba para entrar nessa seara. Justamente o que não nos falta. Metemos a mão na massa. Com muito respeito, é claro, pois, sem ele, você morre atropelado pelo carrinho de sorveteiro - como nos ensinou Nelson Rodrigues.
Mas, antes de conhecer algumas livre-adaptações minhas e do Thadeu, extraídas do livro Issa e seus aquilos, vai um original do Issa e a tradução em inglês. Como ficaria no idioma de Marcos Prado, Paulo Leminski e Torquato Neto? Sugestões para a caixa de comentários.

(Tradução de David G. Lananoue)
o mendigo olha
e reconhecendo-me
devolve a esmola
Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)
lua da montanha
ilumina também a mim
o ladrão de flores
sombras amigas
nas asas das borboletas
minhas outras vidas
Kobayashi Issa (livre adaptação de Antonio Thadeu Wojciechowski)
crisântemos
sobre o monte de estrume
um só perfume
Kobayashi Issa (livre adaptação de Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)
a neve mexe
no calor das crianças
a aldeia se derrete
terça-feira, fevereiro 28, 2006
As aventuras de Adriano Sátiro ou Quem avisa não vai pelos outros
Adriano Sátiro debulhando uma guitarra indefesa.
a nata está em festa
e nem é fim de ano
reunidos em sete
palmas
comemoram a pena
do décimo-segundo arcano
pobre de quem ri primeiro
porque o vigésimo vem
com o décimo-terceiro
Los cuatro amigos: Arrigo Barnabé, Osvaldo Rios, Adriano Sátiro e Carlos Careqa agradecem a atenção dispensada. Alta concentração de talento por m².tempesta:
o galho balança
o pássaro
incerto
pousa de asas abertas
na firmeza do vento
(Adriano Sátiro)
dá-lhe castiçal
castiga
enquanto
luz que liga
versus
vela antiga
em versos
levo a briga
(Adriano Sátiro)
mãos aos alto
as mãos voltadas
para cima
esperam algo
de mim
lá existe um céu
e um tanto de anjos
esse amontoado
de vazio
é apenas pra você
ficar cheio de mim
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Eu sou um poeta legal, agora só falta convencer a minha mãe.
Essa é minha mãe, a dona Nadyr do Prado de Oliveira, vestida com o seu velho manto sagrado. Esses dias fui visitá-la e a encontrei detonando um ameaçador tijolo de mil páginas do Harold Bloom. E ela sempre foi assim. Mente ágil e curiosa, fortalecida pelo halterofilismo vivencial de criar 7 filhos sozinha e sem um tostão. E haja fosfato para acompanhar a Dona Nadyr. Nunca esqueço que, quando criança, nos famosos festivais de música, ela ensinava a gente que bom mesmo era o Jards Macalé em Gotham City, Raul Seixas em Let me sing e Walter Franco em Cabeça. Kafka, Sartre, Cortázar, Borges, Cervantes são apenas alguns exemplos do que eram os nossos livros infantis. Mas o que eu quero dizer mesmo é que ela sempre foi o primeiro controle de qualidade dos Prado, antes de nossas gracinhas irem para a rua. Eu e o Marcos Prado, quando alguém elogiava demais os nossos textos, sempre dizíamos: - "Eu escrevo bem. O duro é convencer a minha mãe". As pessoas que não conhecem os modos da dona Nadyr podem até achar que isso é literatura. Mas não, é vida. Uma vida cheia de vidas.
domingo, fevereiro 26, 2006
Chora sorrindo, olha pra nada
Nesta foto a minha filha me pegou em flagrante rindo sozinho, fato que eu negava, para não dar o que falar e também para ficar sossegado no meu canto. Isso acontece de vez em quando e agora existe essa prova material. Mas acontece não por problemas nos neurônios e nem porque eu relembre a piada do mexicano que entra de chapéu na igreja. Geralmente rio de satisfação ao lembrar de alguém ou alguma coisa muito bacana. Uma pessoa, um verso, uma música, uma atitude. Repentinamente, o mundo deixa de ser tão mal quanto aparenta. Quer um exemplo? Leia o poema que o Adriano Sátiro me mandou. E se você me encontrar rindo por aí nos próximos anos, não me interne, ainda não. Pode não ser culpa minha, mas de algum amigo. Como o Adriano, por exemplo. volta ao batuque
(adriano sátiro)
acontece que há muito tempo
mas a escrita é santa e as palavras são sábias
sábado, fevereiro 25, 2006
Façam alguma coisa pelo nosso amor

A outra coisa é que já está nas boas bancas de jornal e livrarias o número 38 da revista Idéias, da Travessa dos Editores, com um texto meu. Quem reclama que eu fico escondido, que não saio da toca, que sou um jacuzão, que não divulgo, que estou fora da mídia, vai ficar feliz de me ler lá, ao lado de Fábio Campana, Dalton Trevisan, Ernani Buchmann, Luiz Geraldo Mazza. Podem experimentar um bocadinho. Mas a matéria completa, só na revista Idéias.
Do auto-atrapalho
à culpa dos outros:
a arte de dar errado
"De certo modo é reconfortante saber que o costume de dar com os burros n’água e ver a vaquinha brejeira atolada até o gorgomilo não é um problema pessoal, mas característica profunda da alma brasileira. Atire o primeiro projeto gorado aquele que dentre vós nunca fracassou. Por isso, não fique triste, não se zangue, sossegue o coração: esse tropismo ancestral para o infortúnio não é motivo de vergonha ou constrangimento. Não precisa discutir com a patroa, bater nos filhos e sair par aí atropelando velhinhas por uma coisinha à toa dessas. Sem escândalos e chiliques, por favor. Afinal, não é culpa de ninguém."
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
A brutal elegância da conversa com versos.

Antônio Thadeu Wojciechowski, Sérgio Viralobos, Marcos Prado e Roberto Prado desempenham com perfeição o papel de bons rapazes por ocasião do lançamento do livro Os Catalépicos, no qual autografaram com diversos carimbos: "amigo", "amiga", "gostosa" e "desconhecido".

Marcos Prado, Antonio Thadeu Wojciechowski e Márcio Cobaia Goedert em espetáculo musical na capital paranaense.

Antonio Thadeu Wojciechowski e Marcos Prado navegando para um compromisso social numa ilha deserta.
Temos aqui em Curitiba um grupo de amigos poetas, que se comporta, às vezes, como quadrilha, bando ou banda. Um pessoal, digamos assim, meio extravagante, maltrapilho, desastrado, meio... para ser bem sinceros mesmo, meio jacus. Mas, por conjunções cósmicas desconhecidas, até que fazemos uns versinhos interessantes de vez em quando. Pois bem. Os nossos amigos famosos no mundo das letras e das artes vivem tentando ajudar a gente e reclamam que os modos da turba assustam às visitas. Fazemos força, tentamos tranqüilizá-los:
pão seco na porta
eu bem que tento fazer tudo certinho
só preciso de um pouco de compreensão
o doutor disse: "- você vai ficar bom!"
e já me sinto bem mais bonzinho
tenho fé de que tudo vai melhorar
nunca mais vou precisar me desculpar
a vida não é brinquedo vocês sabem
e por mais que cuide acaba saindo bobagem
eu nunca fui ladrão, prefiro pedir
perdão se um dia ofendi sendo sincero
devo tudo a vocês, não canso de repetir
amor carinho é tudo que eu quero
que seja um bálsamo para tu’alma estas rimas
fiz de coração aberto e espírito desarmado
por sensível, acabam me tomando por viado
viu? acabei de fazer mais uma das minhas
(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)
Certa vez, estávamos prestes a nos dar bem com um grande editor de São Paulo (obrigado, amigos famosos), mas não resistimos à tentação de lhe mostrar nossa última criação, achando que, por ser um soneto, ia pegar bem:
ponto crítico
Saúde, luz e vida longa ao crítico,
Alma humana que merece salvação.
Escura morte morna à Crítica,
demônio doente com o diabo no corpo são.
Não odeia, aquele que foi bafejado pela razão,
os afastados de Deus pela ausência de prazer.
Não se exija do necrófilo nada além de saber
arrastar cadáveres para a prostituição.
As lingüiças existem, carentes de encheção.
Não erga a voz para justiçar sem dó
Àqueles que a dor do silêncio já respondeu.
Ame, também, os que estão abaixo da abstração,
sem querer chorar o que é riso só,
sem querer sorrir o que entristeceu!
(Roberto Prado, Marcos Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)
Bem, o editor foi educadíssimo, mas – acreditam nessa? – reclamou aos nossos amigos famosos que éramos talentosos, mas muito agressivos. Claro que não publicou nada: "fora do perfil". Nossa indignação foi proporcional ao tamanho da injustiça:
me enterrem vivo
Você vai acabar gostando
No começo pode até estranhar
Só que chorar não adianta
Chega uma hora que a gente cansa de lutar
Aí você bebe até se enlamear
De boca na valeta não levanta
Mas amanhã será o mesmíssimo dia
De todos eles a censura e o rancor
Da raiva saber que o mundo é assim
Só o vírus da dor me contagia
Não tenho amor nem por mim
E se você pensa que não vai cair na vida
Alegria, alegria, alegria, alegria
Começou a sua festa de despedida
(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)
Mas não somos de guardar mágoa. Logo nos reunimos à maloqueirada, conversamos, cantamos, demos umas boas gargalhadas e, inspirados, transformamos a frustração em uma mensagem altamente edificante:
sentado à beira do campinho
ninguém vai querer saber
se você presta ou não presta
a grande maioria te odeia
e o resto te detesta
eu já fui como você
não tenho vergonha de dizer
agora pernas pra que te quero
que ninguém é de ferro
na guerra entre o ponteiro
e o quarto zagueiro
quem vai na bola
sai pra reserva de padiola
só não me use como espelho
eu sou bonito e você é feio
tire a minha imagem do tubo
quadrado é o teu cubo
(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski )
Bom, hoje os nossos amigos famosos evitam apresentar a gente para as novas patroas ou nos convidar para as suas casas novas com as patroas antigas. E só nos chamam à festa para carregar caixa (depois que a festa começa, a gente fica na cozinha). Mas, só para você ter uma idéia da nossa boa vontade, desprendimento e superioridade moral, chegamos ao cúmulo de dar explicações e até revelar as origens do nosso transtorno:
imaginem se eu tivesse infância
não me venha cobrar pela agressão gratuita
ensinar que é bom ninguém ensina
depois ficam falando por trás das minhas gracinhas
paródias, deboches, escárnios sem o menor respeito
entendam de uma vez que esse é o meu jeito
nunca tive dinheiro pra comprar um livro
os que roubei eram de um mau gosto incrível
todos diziam que eu não valia o sermão que ouvia
dicas, palpites, orientações, exemplos sadios
meus amigos eram todos uns vadios
ler e escrever pra mim já é muito
os bons se acham demais pra perder tempo comigo
pra chegar onde cheguei só eu sei o que engraxei
disso ninguém lembra na hora de exigir qualidade
meu escrito e escarrado é o retrato dessa realidade
subnutrido não aprende nada na escola
a dureza da vida foi minha tese de pós-graduação
quem não teve sapato pra jogar tem que entrar de sola
repetidor, inculto, kitch, demodê, estilo indefinido
o que vocês tiram dos livros, eu tiro do ouvido
guardei na pele toda a sorte de humilhações
hoje, quando me querem no picadeiro de letrados
vejo que estava até certo ponto errado
abraços, beijos, elogios: dêem ao coitado do porteiro
minha parte da glória eu quero em dinheiro
(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)
É. Impressionante como esse mundo é mau mesmo. A gente crente que está abafando, quase com a mão na taça, a um passo do nirvana e na hora h, no dia d, sempre aparece alguém para sacanear. Você pode até achar que tudo isso é o fim do mundo. Com toda razão, pois é mesmo:
desta vez vai bater
em todos os textos antigos
desde os tempos mais remotos
maremotos e terremotos
ainda não foram castigos
o pior não está acontecendo
deixe o cometa halley voltar
o céu prepara um calote polar
nada se verá de tão tremendo
daquela vez ia bater
da próxima vez vai bater
desta vez vai bater
tem que bater
o mudo terror de tua alma em alarde
nem o mais escuro esconde
quer correr mas agora é tarde
quer gritar mas agora é longe
(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)
Essa é apenas uma das conversas que dá para montar com os poemas do livro Conversa com versos, que logo vai sair, só com poemas em parceria. Se algum amigo famoso quiser dar uma força, pode ficar tranqüilo, vamos nos comportar como na primeira foto..
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
As aventuras do Sátiro peralta e do santíssimo Trindade

De mãos para o céu, o Beto Trindade, diante de igreja histórica nos arredores de Londres, que ele recebeu com a missão de transformar num centro cultural.
Pois essas duas criaturas, hoje morando em locais antagônicos do planeta, moravam em Curitiba e tinham coisas em comum. Uma rebeldia natural contra qualquer rótulo, por exemplo e a facilidade de lidar com todas as artes, isso para resumir mal e porcamente a personalidade desses dois trabalhólatras assumidos. Claro que eles foram embora de Curitiba.
Mas o que eu quero dizer é que sob a batuta dessa dupla eu aprendi um bocado sobre música, poesia, sonoridade, teatro, coerência, respeito, honra e tradição. Suei um bocado para acompanhar o ritmo alucinado dos dois compositores mais rápidos no gatilho.
Uma letra é uma letra. Fiz algumas. Gosto delas, não esqueço e nem renego. Nunca. Mas o que me orgulha de verdade nessa história de letrista e compositor é ter sido capaz da proeza de colocar versos em músicas de caras que escrevem melhor do que eu, como o Adriano Sátiro e o Beto Trindade.
Além de canções, escrevi e atuei numa peça de teatro em parceria com o Adriano, Tô de cara, coração, em 1982, um espetáculo que chegou ao cúmulo de ter público na platéia.Fui operador de som e fiz a letra da música-tema de K, o Monólogo, peça da Familía Buty King, de assombrosa memória (Trindade, Julio Garrido, Gilberto Canabarro e Eduardo Prante). Com Trindade e Adriano, juntos ou separados, participei de muitos shows, dizendo meus versinhos e até cantando, para desepero dos músicos de pouca fé, temerosos de uma invasão massiva de poetas lhes tomando o ganha pão. Mas os dois não estavam nem aí.
Não sei direito o que o Adriano está aprontando no momento. Mas posso apostar que, com ele por perto, Penha já deve ter grupo de teatro, coral, banda de rock, estúdio. O Trindade tem uma banda lá em Londres, junto com um inglês e um Palestino, a Macogna, além da carreira solo.
O legal é que eles têm duas outras coisas em comum. A primeira é que os dois são parceiros do Carlos Careqa, que não é bobo nem nada e sabe que agregar talento é um dos seus grandes talentos. Procure os discos Os homens são todos iguais, Música para final de século e Não sou filho de ninguém. E ouça para ver o que é bom. A segunda coincidência é que os dois têm CDs solo produzidos pela Homem de Ferro, de Curitiba, a produtora dos heróis da resistência Rodrigo Barros e Luís Ferreira (anjos da guarda que, além de nos darem o Beijo aa Força e o Maxixe Machine, agora estão tramando os últimos detalhes do CD Wojciechowski, com as pérolas do cancioneiro do Thadeu).
Procure por aí. Nos Cds O melhor do bom do Trindade, do Beto Trindade, é claro, e em A caminho do céu, com Adriano Sátiro e os Bem Aventurados. Ou em mp3. Coisas geniais, maravilhas que você pode dar de presente a você mesmo, esteja você disposto ou não a ir para Penha/BR ou Londres/UK.
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Estamos nesse mundo de passagem

De dentro para fora: Nelson Cavaquinho observa a Mangueira.

De fora para dentro: Mangueira observa Nelson Cavaquinho.
"Todos têm o direito
De sorrir neste mundo
Só eu choro porque
Sou um rei vagabundo."
"Noites eu varei
Mas cada amor me fez um rei
Um rei vadio
Um poeta tão sem lei"
"Quando eu ouço
As badaladas do sino
daquela igrejinha
Julgo-me ainda feliz
E que és toda minha
E quando vejo
a torre bem alta
Daquela linda catedral
Fujo da tua amizade infernal"
Os Acadêmicos da Sapolândia
De repente o tal do Luís Américo nos dá o X da questão
em quem mexer com a minha nega
já dei colher de chá,
agora chega”.
homens que não vão nem vêm
parece que avante vão
entre doente e o são
mente a cada hora a espia
na meta do meio-dia
andais entre o lobo e o cão”.
“eu já disse a você
que malandro demais
vira bicho”
cabelos de cabra com pós de marfim
pés e puas de riso motivo
cabelos e topes motivos de rir”.
de um ninho, salta, no árdego trabalho
de árvore em árvore e de galho em galho,
com a rapidez duma semicolcheia.”
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta.”
“mamãe eu quero mamar”,
“alalaô ô ô, mas que calor ô ô”.
O the best do tempestuoso carnaval curitibano não é música, batuque, dança, alegoria e, sim, o glorioso nome de uma escola: Acadêmicos da Sapolândia, onde sílabas pulam animadamente. O solitário sambista de Curitiba é tão inédito que nem nós, que somos nós, conhecemos o Lápis. Luiz Carlos Paraná fez nascer Maria quando a folia, mas as mocinhas da cidade pensam que é filha do Roberto Carlos. Fazer o que, se é aqui
“onde moro que me sinto bem”?
Pois somente aqui,
“onde ela mora”, e "a avenida tem fim"
demora essa sonoridade
“eu nunca tive pinta de eunuco
nem de voyeur do teu balacobaco
meu passarinho saiu do teu relógio cuco
você deixou meu coração batendo fraco”.
Pra terminar, uma pergunta: ouvidos novos ouvem ou vêem os sons que vêm e botam ovos?
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Um antiensaio do aniquilamento

O cara da foto acima é o Marcos Prado posando para o livro Dois mais dois são três em um, parceria dele com o grande Sérgio Viralobos. Uma preciosidade na idéia, no texto, na concepção gráfica, foi o marco inicial de uma nova forma de ler, de sentir, de praticar e de se editar poesia. Poemas em parceria. Índice comentado. Epígrafes que complementavam. Tudo pensado nos mínimos detalhes. Fez revolução, mexeu com as cabeças e pôs as pernas para funcionar. A rapaziada em volta sentiu que o "faça você mesmo" não precisava e não devia significar indigência.
Onde eu quero chegar? Simples. Esse livro, que tanto sucesso fez, hoje é uma raridade. Conhecido mais por ouvir falar, sentido pela influência em outras obras, virou lenda. Quem tem, esconde para não roubarem. Marcos Prado ganhou recentemente uma edição primorosa, o Ultralyrics, pela Travessa dos Editores, que tem até CD encartado. Mas outro grande livro da mesma dupla ainda está inédito: O livro póstumo de marcos prado e sérgio viralobos.
E isso me faz lembrar de obras misteriosas, como a do título matador Um antiensaio do aniquilamento. Quem me passou um exemplar, entusiasmado, foi o César Bond, em algum dia do meio da década de setenta. Eu e o Marcos lemos e concordamos: o cara era forte. Mas, como bons meninos, devolvemos o exemplar ao Cesinha. Pronto. Nunca mais conseguimos botar a mão no livrinho. Sobrou apenas o que ficou na memória. Muitos amigos duvidavam da sua existência e um chegou a dizer que desconfiava ser um heterônimo nosso.
Mas eu sei que o autor era do interior de Minas Gerais, seu nome era Eduardo Alcântara e na época (quase 30 anos atrás) já não era nenhum jovenzinho. Ele existe (ou existiu) sim, senhores, e espero que algum mineiro bem informado diga onde encontrar Um antiensaio do aniquilamento e outras bossas do mesmo poeta.
Enquanto isso, sobra o que me ficou na memória. Pois ela insiste em teimar que caras assim não merecem ser esquecidos:
Anticredo
Creio na sombra que me isola,
creio na inútil mansidão
que rumina o passado; e creio
nos erros digeridos;
na assimilação anticonfessada
de emoções que frutificam
sem Ti.
Creio na fuga do sol
e na ausência da flor.
Creio no prematuro, o inacabado;
na volúpia do tempo
e na fortuna do espaço,
que afastam os germes;
creio no Id, no Ed, e no Supered
que me obrigam a crer
no sonho, na angústia e o antiímago.
Creio em Ti
Como sombra que afaga tanto Nada
para que a luz não se extinga entre meus dedos
de esqueleto sem pés e sem história.
Amém. Ou talvez não.
Eduardo Alcântara, de algum lugar das Minas Gerais.
sábado, fevereiro 18, 2006
Quem resiste, apanha. Quem espera, desiste.

Ler a poesia completa do Bertolt Brecht é esporte radical, passeio em montanha russa sem cinto de segurança.
Num momento, somos levados para os abismos da alma humana, flertamos com a eternidade e recebemos o universo de bandeja. Em outros, caímos de bode com textos datados, panfletos antifascistas e loas ao partido comunista.
Aí, damos um trilhão de descontos, pois o sujeito não estava posando de esquerdista na TV, mas enfrentando Hitler e a SS. Breve intervalo e passamos para saborosos poemas zen-taoístas, linguagem límpida, força primitiva, um misterioso ar oriental mexendo delicadamente com as cortinas da nossa cachola.
No final, novo susto e saímos maravilhados com algumas das mais gloriosas e estonteantemente belas odes à amizade que este planeta já ouviu, repletas de afeto, honra, gratidão, fidelidade.
Você, que conhece a alma humana, já deve saber que os poderosos de qualquer regime não deixariam um sujeito desses viver sossegado em lugar nenhum do planeta (e olha que ele rodou meio mundo):
De cidade em cidade
Sento na beira da estrada
Enquanto o motorista troca a roda.
Não gosto da cidade de onde venho.
Não gosto da cidade para onde vou.
Então por que espero essa troca de roda
Com tanta impaciência?
E o cara continuou, incorrigível, metendo o bedelho em tudo, incapaz de fingir que não era com ele:
Fora essa estrelinha apagada,
pensei, não temos nada
E ela está toda suja e devastada
Ela é nossa casa, nossa única casa
E olhe só o estado da coitada.
(Bertolt Brecht - tradução de Roberto Prado)
Só de olhar a foto dá para imaginar que ele não estava nem um pouco preocupado em agradar à cachorrada. Vão lá. Tem muito mais de onde saíram esses dois.
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
Estou cansado, onde é meu lar?
Eu estava aqui pensando com meus botões, mas, como a roupa que uso não tem botão algum, acabei lembrando do Arnaldo Baptista.
Um cara que, desde antes dos Mutantes até depois de hoje, deixa bom tudo o que toca - há mais de 40 anos. Não que precisasse tanto o cara que fez um verso como “meu trem/ você vai demorar/ estou cansado/ onde é meu lar?”.
Daí, lembrei que o Sérgio e o Thadeu fizeram um poema só com frases desentranhadas de entrevistas do Arnaldo:
o a e o z
pulou na frente quando era pra eu pular
no futuro haverá um museu cheio de novidades:
amplificadores valvulados, guitarras gibson e energia solar
explicações que minha profundidade tem a dar:
no transístor a distorção é sibilante!
meu sonho pessoal amplificado em milhões de watts
o equipamento vai me deixar transmitir isso?
(Sérgio Viralobos e Thadeu Wojciechowski)
Lembro também que, quando voltou à ativa nos palcos, diziam que o Arnaldo Baptista estava maluco e não levaram à sério sua insistência de que era preciso voltar a usar os amplificadores valvulados em shows profissionais. Hoje a ciência sabe que ele tinha razão. No auge dos Mutantes, era um modelo, um ícone, um símbolo e imagino que isso não deve ter sido fácil para um ser com sua estranha sensibilidade. O bando é cruel e, depois de um tempo, acha que sabe como você deve ser melhor do que você saberia.
Pois foi então emendei outra recordação, uma obra prima da mesma dupla de poetas sobre esse assunto:
abraço aos amigos ursos
um rosto que nunca vi mais fino
chegando, sorrindo e me nomeando:
- ó, chefe dos escoteiros junkies!
não, não era um filme de david cronenberg
era um sonho em curta-metragem sobre meus amigos
eu por todos e todos cada um por si
perdido e me perdendo pelos outros
como boi de piranha da manada nihilista
atravessando velha que não queria ser atravessada
só acordei com a fisgada na carteira
meu melhor amigo com a arma na minha cara
foi então que a lâmpada acendeu-me uma idéia:
- declaro aberta a temporada de caça !
(Sérgio Viralobos e Thadeu Wojciechowski)
E foi aí que me deu saudades do Sérgio Viralobos, hoje em SP, um cara que, como o Arnaldo Baptista, deixa o ar da sua genialidade em qualquer texto onde ponha a mão.
Me toquei também que, com tantas parcerias cruzadas entre eu, ele, o Marcos e o Thadeu, só em uma se juntaram os quatro mosqueteiros:
chão de brasas
sonho pela barriga
o vídeo da última comida
não há piquenique sem formiga
salva de sal grosso
nas partes do elefante
acordo para o almoço:
espetinho sem carne
(Marcos Prado, Roberto Prado, Sérgio Viralobos e Thadeu Wojciechowski)
