quarta-feira, setembro 09, 2009

Sob a lupa do lupo




Sob o impacto dos últimos acontecimentos, lembrei deste poema feito por um trio da pesada e que depois foi magistralmente musicado pelo Beto Trindade. Vejam só:



uma enorme pedra
rolou sobre nossa casa
ela era de palha
como num conto de fada

moído cada utensílio
restou juntar os trapos
contar o que sobrou de filho
e chorar pelos barracos


(Marcos Prado, Antonio Thadeu Wojciechowski e Rodrigo Barros Homem Del Rei)

terça-feira, setembro 08, 2009

Três dedos de prosa




Neste mundo, o que é bom a gente tem que garimpar, meter a unha e não deixar escapar. Aqui vão textos escolhidos a dedo de três escritores de mão cheia. O Mário Bortolotto está em São Paulo, a Léia Leite no Rio de Janeiro e o Luiz Antônio Fidalgo eu não sei (onde você está, Fidalgo?)



1.

Trecho de Soda Pop, de Mário Bortolotto


Ninguém anda com ele e o cara detesta ficar sozinho. Deus, esse cara lê Olavo Bilac em voz alta e faz performances sob a luz do poste. Deus, eu ando aplaudindo meu único amigo. Deus, acho que eu sou menos que um escriturário, estou me sentindo menos que um escriturário. Ando falando com uma lata de biscoitos ando bebendo muito pra achar engraçado o lero com a lata de biscoitos. Deus, os biscoitos são tão apetitosos, eu choro quando penso em comê-los. Deus, eu não sei mais nenhuma oração mas eu rezo muito. Olha, eu vou embora vou enforcar a estátua do Aleijadinho vou arquitetar um plano de conseqüências terríveis para os mineiros cantores só vou livrar a cara dos que já morreram. Só bêbado tem saco pra ler o que escrevo. Deus, eu procurei uma clínica psiquiátrica e minha irmã estava na recepção me sorrindo e pedindo dados pessoais. Deus, eu preciso me desintoxicar eu toco a campainha e ela nunca atende eu vou na casa dela e ela deixa bilhetes com a mãe. As garçonetes não anotam meu pedido. Os mendigos não me pedem esmola. Até a acne está ameaçando me abandonar. Deus, você sabe como fazer as coisas.


2.

Conto de Dalton Fêmea, de Léia Leite


De uma hora pra outra, o rei da batucada.

Para ele o novo Francisco Alves.

Batucava nas panelas, bacias, baldes, tudo, até a tampa da privada, credo, ele chamava de surdo.

Sorte que sem cigarro e copo ele não fica. Com copo e cigarro, nada de samba batucado, porque começava a cantar. Um hipopótamo dando o último suspiro.

Que de dormir os esfomeadinhos gêmeos?

Agora ele, dou graças a Deus, um silêncio de morte.

É hoje.

Ele não vivia cantando que era para mulata sapatear no seu caixão?



3.

Aniversário, conto de Luiz Antônio Fidalgo


Pronto! Agora ele já tinha dez anos de idade. Já podia brincar com o grupo dos primos mais velhos, como sempre sonhara. – Seja bem-vindo, primo, disseram, colocando-lhe uma venda nos olhos e prevenindo de que só tirasse a tal venda, após ter contado até cem. Então, o levaram assim, cego, pra algum canto em alguma parte daquela casa enorme. – Noventa e dois... ele foi contando ... noventa e sete... enquanto o som da voz dos primos sumia por completo... cem! - Tirou a venda dos olhos. Surpresa! Tudo continuou escuro. Ele ficou ali, aguardando o que viria a seguir. Viu então, um pequeno ponto luminoso que foi crescendo, crescendo e iluminando todo o ambiente. Então ele pôde ver o que era: – Fogo, gritou, e percebeu que nas paredes da peça onde estava não havia interruptores de luz, portas ou janelas.

sábado, setembro 05, 2009

belo pesadelo

oração partida

acordei em um sonho esquisito
eu mesmo era o estranho

que me falava coisas desconhecidas

e de vez em quando sumia


fiz força para decorar

aquelas tão belas palavras

não dava tempo de anotar

a metade que eu entendia


tentei voltar a dormir

como todo sonhador que se preza

mas continuei surdo às súplicas

- não mereço ouvir minha própria reza



Roberto Prado

sexta-feira, setembro 04, 2009

Eu na Piperácea - um carinho bem condimentado

Esta é a Valéria, caprichando no visual cravo & canela.

Quem disse que a vida só de bica na canela? Olha só o que saiu no Piperácea, blog da incrível Valéria Prochmann. Valeu, Valéria!


Canções do Beco

Duas canções com letras do talentoso publicitário, jornalista e amigo Roberto Prado - Beco para os íntimos - e músicas de Luiz Ferreira foram escolhidas para a trilha sonora do filme “Insolação”, dirigido por Felipe Hirsch e Daniela Thomas, com Paulo José no elenco. Ambas do repertório do conjunto musical Beijo AA Força, as canções são “Primeira aula de cartografia aplicada” e “A partida”. O filme, por sua vez, estará no Festival Internacional de Cinema de Veneza 2009. É uma grande alegria dar esta notícia! Sou amiga do Beco desde 1980, quando eu era aprendiz no Correio de Notícias, com 14 anos, e ele já era um talento consagrado, com apenas 19 anos. Já conhecia os poemas dele publicados na antologia “Sala 17″, que marcou época no meio cultural curitibano apresentando uma nova geração de poetas que conseguiram publicar o livro apesar da ditadura que a tudo censurava na época. Ajudei a vender esse livro de porta em porta, pois era uma produção independente. De lá pra cá, além de continuarmos muito amigos, eu e o Beco fizemos algumas boas parcerias profissionais, como uma campanha de promoção da leitura para a Biblioteca Pública do Paraná (quando fui diretora no início dos anos 90 e ele atuava na saudosa Oss Propaganda), um relatório corporativo para O Boticário em 2002 (que venceu prêmio publicitário) e recentemente trabalhos para a Unimed Paraná e para a Athena Incorporadora. Tudo o que o Beco faz é primoroso!

Esclarecimento ao público: a canção A partida citada na matéria tem dois outros parceiros: Rodrigo Barros e Renato Quege.


sábado, janeiro 10, 2009

Um poema do Marcos Prado

Marcos de chapéu rindo da minha distração no lançamento do livro Catalépticos, em mil novencentos e lá vai pedrada.

a mentira é a melhor é a melhor amiga das artes
nela, gelatinosa, as glosas seculares
minúcias de paisagens inexistentes
um coração onde cabe um milhão diferentes

dondoca de agora, amanhã de coturno
segue sempre os passos de um antigo perjuro
a arte imita a arte que imita tudo
e é profunda, é verdade, bem no fundo

mas somos piores que os pintores de florença
ridículos comparados aos poetas de provença
michelângelo cagaria em cima de nossas estátuas
bethoven se limparia com as nossas pautas

que é a nossa dança diante de um delírio índio?
que é um soco nosso perto de um clay vindo?
por que, se finda é a arte, continuar mentindo?
repetir o que se repetiu de novo se repetindo?

(Marcos Prado)

quinta-feira, janeiro 01, 2009

Jacus, jacutingas e outros bichos




Essa é do tempo em que os animais falavam. Sabe-se Deus quando, eu o Luís Antônio Ferreira e o Edilson Del Grossi, fizemos essa canção (provavelmente nunca mais cantada). Vai aqui só como poeminha.


O jacu e a jacutinga


(Roberto Prado, Edilson Del Grossi, Luiz Antônio Ferreira)



desfilando na caatinga

recostado à sombra

do xique-xique

aí que tá a jacutinga


ela é um colosso

você fazendo piquenique

no fundo do poço

mordendo carne de pescoço


as vezes você tem que decidir

entre o fogo e a frigideira

entre a beira do abismo

e a total destruição


todo mundo indo em frente

você morrendo à míngua

fazendo a alegria dos vizinhos (*)

e a riqueza dos parentes


teu santo protetor é do pau oco

teu anjo não te guarda

o cão te mordeu

e ficou louco


às vezes você tem que decidir

entre o fogo e a frigideira

entre a beira do abismo

e a total destruição


(*) Verso adaptado do Livro de Tao, de Lao-Tsé, tradução de Aberto Centurião de Carvalho, Antonio Thadeu Wojciechowski e Roberto Prado


Para quem gosta de simplificar




vou te contar


o vento venta
deixe eu pensar
não sei de cabeça
é oito ou oitenta?

porém não esqueça
que antes e depois e no meio
- isso só contando
no sentido horário -
tem outros novos números
que esqueci num dicionário

o vento venta
o oito não é o começo
o oitenta não chega ao fim
é oito ou oitenta?
conte pra mim



(Roberto Prado)

sábado, dezembro 27, 2008

Nunca é demais


Sérgio Viralobos exibindo foto da Helena Kolody no lançamento de Os Catalépticos.


É sempre bom lembrar do que é genial. Puxando pela memória, lembrei de dividir com vocês um poema inédito do Sérgio Viralobos, feito em parceria com o Plínio Gonzaga. E quem quiser mais que clique aqui e vá ao Malocabilly, uma mina de textos do Sérgio Viralobos, Chico Capetão e Edilson Del Grossi.


TAPÃO NAS COSTAS


odeio trazer alguém de volta

se deixo lá é pra ficar lá mesmo

não adianta bater na porta


fazer um favor me amarfanha o cenho

gratidão, então, é uma operação plástica

dar a mão é como se perdesse um membro


não pense que tenho recheio de máquina

é que o amor afeta meu desempenho

e a solidariedade não é lá muito prática


fora isso, sou um homem bem bom

existe coisa mais bela que natureza morta ?

a vida fica bem melhor num desenho


sou sensível a tudo que não me toca


(Sérgio Viralobos e Plínio Gonzaga)


terça-feira, novembro 25, 2008

Lírica embriagada

Li Po, poeta chinês, deixou um dos primeiros registros históricos de poema de louvor à embriaguez. Algo assim:

Traga o vinho

Veja: as águas do rio caem do céu,

vão para o oceano e voltam de um jeito ou de outro.

Veja: as madeixas lindas nos espelhos límpidos,

negras pela manhã, brancas de neve à noite.

Deixe um homem de espírito atrever-se a ir onde lhe agrada.

E nunca erga sua taça vazia para a lua.

Já que o céu deu o talento, deixe-me usá-lo.

Faça um teste: rode milhares de moedas de prata

e repare como todas elas voltarão para você.

Asse o carneiro, carneie o boi, aguce o apetite

e prepare para mim, com trocentos copos, uma longa bebida.

Para o velho mestre e o jovem que promete, traga o vinho!

Que sua taça nunca descanse.

Deixe eu cantar uma canção para você.

Que seus ouvidos me ouçam.

O que são o violão e o tamborim, raros pratos e tesouros?

Deixe-me ficar bambo para sempre e nunca mais voltar à razão.

Esquecidos os homens sábios e sóbrios de antigamente

somente os grandes bebedores merecerão a glória eterna.

Reza aquela lenda: o príncipe Ch’en em tempos idos

pagou num banquete no Palácio da Perfeição

dez mil moedas de ouro por um barril com muitos risos e pilhérias.

Então por que dizer, meu bom anfitrião, que o seu dinheiro se foi?

Saia, traga o vinho e nós o beberemos juntos.

Meu cavalo sangue puro e seus enfeites de diamante,

minhas peles raras que valem milhões,

entregue tudo ao rapaz e traga o vinho

para afogarmos as mágoas de dez mil gerações.

Li Po

É preciso ficar bem claro que não estou aqui fazendo comercial de bebida ou dando força para que alguém tome caipirinha de raiz de capim. Aliás, eu nem bebo. Não que uma coisa ou outra tenha importância. Aliás, o apaixonado e lírico Li Po era contemporâneo, amigo e defensor do quase monge poeta - e abstêmio - Tu Fu. Dividiram as torcidas, mas nunca deixaram que as conversas de lavadeiras da corte chinesa interferisse no respeito e admiração que tinham pela obra um do outro. Uma lição de sabedoria que muitos poetas atuais poderiam praticar, para o bem dos nossos ouvidos e das suas reputações. A obra dos dois atravessou os milênios assim como também ficou na memória e chegou até nós as definições que o povão chinês fez a respeito deles: Li Po, o poeta feiticeiro e Tu Fu, o poeta sábio.

Lembrei agora dessa pequena obra prima de uma dupla que soube pegar em flagrante e eternizar um simples freqüentador de bar de uma periferia qualquer:

o velho e o bar

o velhinho é a alma do negócio

deixa a nota amassada

e sai catando cavaco

pensou que via o carlos drummond de andrade

mas era uma valeta no meio do caminho


o pau d’água mergulhou na areia movediça

transformando-se no monstro do pântano


Marcos Prado e Márcio Cobaia Goedert



Artes e mágicas da poesia que, bêbado ou sóbrio, só quem sabe ver viverá.

terça-feira, março 27, 2007

Genialidades expostas


Solda e Rettamozzo, sozinhos, já são um bando de talentos. Imagine agora um evento que une estas criaturas plurais, múltiplas e, ao mesmo tempo, donos de assombrosa coerência ética e estética, que ultrapassa as décadas sem perder a surpreendente pegada. Pois saiba que esse encontro além da imaginação vai acontecer mesmo, a partir do dia primeiro, no Beto Batata. Anote. A gente se encontra por lá.

sexta-feira, março 02, 2007

Uma dupla de matar a mãe do guarda

Edson de Vulcanis: assombroso talento









Marcos Prado: o ritmo da sutileza

É fato: Marcos Prado e Edson de Vulcanis escreveram juntos alguns dos mais belos poemas do orbe oval que os meus pés tocam. Para você ver e comprovar, selecionei algumas gemas da dupla, pura delícia, para deleite das boas almas.


ação entre amigos
vamos à churrascada de empalamento do padre estuprador, meu amor
vamos ao coquetel de linchamento do rubem fonseca, meu amor
eu já matei o escritor, matei inês
antes que talhasse o sangue do freguês



bercinho boiando no rio grande do sul
o farofeiro feio brilhava à beira de um luau
ouvindo solos de clarineta de seu pai

atocaiando jacarés e fazendo onda no mar de merda



o bêbado saldável
quando eu morri
meu pai tinha três anos

o saldo da minha alma está em retalhos

e o meu corpo em liquidação

sou vítima de uma bala perdida do antônio bivar

não sei se sou eu ou ele que não está nem aí

o pior é que atirou desmunhecando



descarregadores de cadáveres
homens, mulheres, crianças, velhos, cães e gatos maltrapilhos
aqui o cheiro das flores podres empesteia o ambiente

bagos no arame farpado arranco

fugindo do haroldo de campos



(Poemas de Marcos Prado e Edson de Vulcanis)

terça-feira, fevereiro 27, 2007

João do Sol

O mais barbudo à direita é o meu grande amigo João Otávio Malheiros que, há quase 30 anos, tomou a sábia decisão de ir para um lugar ensolarado, à beira mar e bem longe. Fora a saudade minha e dos muitos outros curitibanos que lhe prezam a amizade, temos de concordar que ele estava coberto de razão (apesar de manter sua maluquice bem além do que a lei permite). Lá na ilha de São Luís do Maranhão, entre outras coisas, fundou uma ONG, a Amavida, que faz um trabalho muito bacana e pela qual realiza inenarráveis andanças pelos caminhos mais esquisitos, estreitos e escamosos do roçado do bom Deus (obrigado, Plínio Marcos). Numa dessas viagens foi um dos coordenadores de um encontro da ONU com a singela denominação de Sixth Session of the COP of the United Nations Convention to Combat Desertification. Onde era? Na Cuba de Fidel, com praia, sol e... bem longe (a foto é desse encontro, que eu localizei pelo São Google). Pois bem. Esses dias o meu filho Rodrigo deu um jeito de consertar umas coisas misteriosas no meu computador e eu, finalmente, consegui acessar o inacessível: os poemas que o João Otávio havia me mandado há uma pá de tempo. Alegria, alegria. Vejam aí embaixo algumas pérolas deste curitibano de Londrina que virou ludovicense (morador de São Luís, anarfas). Seja bem-vindo, João, mais um com defeito de fabricação.

Meus amigos gays depois do pôr-do-sol

Eles morrem de amores
Eles sofrem sempre horrores
Eles tremem cedo de medo
Não sabem guardar um segredo

Eles sonham acordados
E choram abafado no escuro
Eles às vezes cortam os pulsos
E riem às vezes a noite inteira

É quando dançam nas pedras
E atiram beijos pra lua
Não fingem então os sempre farsantes
As cores com que se maquiam

Guerra moderna

corre
abaixa
é natasha

ela morre
agorinha
na minha tv

as pessoas na ponte
com alvos no peito
estão tão prontas no prompt

já mortas de medo
mas ainda querem morrer
ao vivo na minha tv

Fila imensa

nunca
tanta
nuca.

O amigo morreu

é findo
o enterro
o morto
foi lindo
foi rindo
eu berro
e bebo.

Locações para filmar o vento

Ilha, Beira-Mar
um palito de fósforo riscado
na calçada
ao meio fio

o palito mascado
jogado no chão

folhas secas
é tarde

e o vento chega com a noite
misturando os restos da cidade.


Aconteceu na beira do rio

É raso
E não tem pedras
Garantias-me antes da travessia.

Acreditei em ti
Mentias
E a água estava fria.


Lendo o jornal burguês

O New York Times não
mente jamais!

(mas pode mesmo a verdade
toda
caber dentro dos nossos jornais?)

O Sunday Times não
erra jamais
(vem todo o acerto do mundo
impresso em preto
nos nossos jornais).

Por isso o New York e o Sunday
não trazem a cotação
da bolsa de Maputo: eles não mentem.
Só a verdade pode manter o giro dos nossos capitais.

É inútil leitor, tu te iludes
Se procuras mentiras em nossos jornais.

(Poemas de João Otávio Malheiros)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

O samba que é de outros carnavais

O grande Cartola agradece a atenção dispensada, na foto de Milton Montenegro.

Aproveito a deixa para republicar um texto sobre a folia de Momo.


Quando o ano chega a estas épocas lembro que muita gente não sabe separar o samba-samba, a instituição, com o samba-enredo ou as marchinhas, duas de suas vertentes. Algo assim como um norte-americano confundir o som do Lou Reed com o de uma dessas bandas especializadas em mega-concertos carnavalescos. Aí me lembrei de um texto que escrevi junto com o Thadeu para o encarte de um CD do Maxixe Machine, que contém a trilha sonora do filme Barbabel. Um breve ensaio que fala de samba, de poesia e de carnaval (ou a ausência dele nestas paragens subtropicais). E acabou ficando bem divertido. E quem ainda não conhece o Barbabel, corra. Por enquanto, leia o texto:

Os Acadêmicos da Sapolândia

De repente o tal do Luís Américo nos dá o X da questão

“Vou dar bolacha

em quem mexer com a minha nega

já dei colher de chá,

agora chega”.

O povão é louco mesmo. Do brejo das almas salta uma tessitura de ecos e ressonâncias, sambando a la John Donne

“cuidais que são e não são

homens que não vão nem vêm

parece que avante vão

entre doente e o são

mente a cada hora a espia

na meta do meio-dia

andais entre o lobo e o cão”.

Pérolas bóiam na lavagem atirada aos porcos da mídia, puro deleite, entortando a gramática, bagunçando a lógica (ouvide Adoniram), nos apaixonando

“pela dona do 1º andar”.

Mas

“eu já disse a você

que malandro demais

vira bicho”

por isso não confunda com vanguardismo. Já no século XVII, Gregório de Matos misturava coisas de todos os povos que por aqui saqueavam e andavam

“pés de puas com topes de seda

cabelos de cabra com pós de marfim

pés e puas de riso motivo

cabelos e topes motivos de rir”.

Ouça os fonemas oclusivos bilabiais (P – surdo- e B – sonoro), nos linguodentais (T – surdo- e D – sonoro), e no velar C – surdo - formando os pares aliterativos. Quero morrer na cadência bonita do samba. Augusto dos Anjos, poeta singular, em Gemidos da Arte, faz as letras A e R voarem

“Um pássaro, alvo artífice da teia

de um ninho, salta, no árdego trabalho

de árvore em árvore e de galho em galho,

com a rapidez duma semicolcheia.”

Por outro mesmo lado, Cruz e Sousa imporia ritmo forte, frenético e penetrante no soneto Acrobata da Dor

“Da gargalhada atroz, sanguinolenta,

agita os guizos, e convulsionado

salta, gavroche, salta clown, varado

pelo estertor dessa agonia lenta.”

O mestre negro ensinou nossos brancos a amar Baudelaire e Edgar Poe. Em Noel Rosa, o pulo inverso: um branco ensina nossos negros que

“batuque é um privilégio”.

A doida brasileirice ecoa nas marchinhas, onde o espaçotempo desintegra a realidade

“ô abre alas que eu quero passar”,

“mamãe eu quero mamar”,

“alalaô ô ô, mas que calor ô ô”.

Momo hoje perdeu graça, graças à reciclagem mecânica do que já está na parada. Kojak devia meter bronca nesta moçada, junto com o kung fu, chinês valente, homem pra chuchu. Mas não importa, afinal, carnaval é um bando de dedo pra cima, fantasiado de turista. Samba é de outros carnavais.

O the best do tempestuoso carnaval curitibano não é música, batuque, dança, alegoria e, sim, o glorioso nome de uma escola: Acadêmicos da Sapolândia, no qual as sílabas pulam animadamente. O solitário sambista de Curitiba é tão inédito que nem nós, que somos nós, conhecemos o Lápis. Luiz Carlos Paraná fez nascer Maria quando a folia, mas as mocinhas da cidade pensam que é filha do Roberto Carlos. Fazer o que, se é aqui

“onde moro que me sinto bem”?

Pois somente aqui,

“onde ela mora”, e "a avenida tem fim"


demora essa sonoridade

“eu nunca tive pinta de eunuco

nem de voyeur do teu balacobaco

meu passarinho saiu do teu relógio cuco

você deixou meu coração batendo fraco”.


Pra terminar, uma pergunta: ouvidos novos ouvem ou vêem os sons que vêm e botam ovos?


(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

sábado, fevereiro 17, 2007

Dureza: um abraço pro gaiteiro


Divido com vocês uma maravilha roubada do blog Malocabilly (link ao lado), por obra e graça do grande Sérgio Viralobos. São coisas assim que me sustentam entre as colunas de trevas que evolam do incêndio de Babilônia.

MARRÉ DE SI

tempo é dinheiro
mas dinheiro foi-se o tempo
quase que perco tudo
à procura da agulha no palheiro

o quase acabou ficando
na fronha de algum travesseiro
o corpo fica mais puro
sem um puto no bolso

a consciência, mais leve
quando se falta o tanto
hoje sou mais valioso
que um dicionário de esperanto

ando de cabeça erguida
se pisar em moeda, eu passo
meu testamento são folhas em branco
só o gaiteiro me espera pro abraço.

(Sérgio Viralobos)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Uma flor do mal do velho Bode

Charles Baudelaire, o autor das Flores do Mal, era do bem. Para comprovar, veja uma das duas traduções que eu e meus parceiros fizemos, já publicada no livro Os catalépticos e que inspirou um belíssimo e corajoso estudo do professor Édison Costa (na revista Letras, da UFPR) comparando as nossas versões do velho Bode com as dos poetas simbolistas.

O VINHO DOS AMANTES

indo belo lindo um dia todo sim
é proibido proibir que tenha fim

bebo o vinho mel, divino néctar,

o céu ainda por cima parece concordar

um par de arcanjos, que figuras!
ambos puros artífices das alturas
eu e a taça, vinhetas da paisagem
o vinho volta à uva, eu, à miragem

no embalo dos tragos a terra gira
mecanismos de um turbilhão inteligente
que tudo ouve vê e só delira

o paraíso já era aqui e paralelamente
em outro entramos agora como um só

ic! epa! ops! rum...rum...ã? ó!


(Charles Baudelaire – versão brasileira de Roberto Prado, Marcos Prado e Antônio Thadeu Wojciechowski)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

linha morta, rima posta

apuro indícios após o crime
faca não, nenhum revólver
denuncio a mim, juro que vi-me
bem mal o enigma se resolve

volta ao local a alma mordoma
quem cometeu nada o detinha
digital zero, testemunha em coma
o fim da linha não foi a rima

(Roberto Prado)

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O sangue e o batuque


no batuque do coração


rimo rindo
rimo porque sim

rimo indo e vindo

quanto mais rimo melhor

rimo sim e daí?

vivo porque rimo

se rimo amanhã saberei

rimo sempre

rimo uma eternidade

rimo porque morri

confesso que rimei

rimo porque em verdade

em verdade eu sei

que mesmo naquele dia

se a rima me faltar

rimarei

tantã

por fora
por dentro e entre
pela vida afora
e antes
hora após hora
por exemplo, agora,
eu rimo sempre

dono de batuque nato
às vezes bato fraco

nenhuma razão para dor
nenhuma razão de orgulho
somente mais uma canção
apenas mais um coração
fazendo barulho

(Roberto Prado)

domingo, fevereiro 04, 2007

Cruz e Souza pede passagem


Amigos. Estamos hoje aqui reunidos para ler o Cruz e Souza. Sem mais rodeios, vamos ao poema.

Vida Obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-se mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu, que sempre te segui os passos,
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!

Cruz e Souza (1861 – 1898)

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

O sorriso da Iara


A Iara Teixeira deu um susto em todos que amam a graça, o charme e o veneno do seu talento luminoso.
Bateu no hospital, quicou na UTI, mas foi aventura passageira: já está voltando para casa, sã e salva. Na foto, à esquerda, o sorriso da artista completa uma das suas obras-primas.
Bom retorno, Iarinha e parabéns para a irmãzinha Dóris Teixeira, foto à direita (arquiteta com alma), por ter cuidado tão bem deste patrimônio.

domingo, janeiro 28, 2007

Yes, nós temos Miran


Osvaldo Miranda, o Miran, é uma lenda viva das artes gráficas curitibanas. Ele, o Solda, o Rettamozzo, o Marchesini, o Rogério Dias, a Iara Teixeira e outros cobrões, trabalhando juntos, trocando figurinhas, botando o bloco na rua, criaram um padrão de excelência e um ambiente criativo que beneficiou muito a rapaziada mais recente. Abaixo, um orgulhoso exemplo, que tenho a soberba de relembrar, de um trabalho que tive o prazer de dividir com o mestre Miran (cuja edição ele, inclusive, viabilizou). Para ler o texto junto com a arte, clique aqui.