terça-feira, março 27, 2007

Genialidades expostas


Solda e Rettamozzo, sozinhos, já são um bando de talentos. Imagine agora um evento que une estas criaturas plurais, múltiplas e, ao mesmo tempo, donos de assombrosa coerência ética e estética, que ultrapassa as décadas sem perder a surpreendente pegada. Pois saiba que esse encontro além da imaginação vai acontecer mesmo, a partir do dia primeiro, no Beto Batata. Anote. A gente se encontra por lá.

sexta-feira, março 02, 2007

Uma dupla de matar a mãe do guarda

Edson de Vulcanis: assombroso talento









Marcos Prado: o ritmo da sutileza

É fato: Marcos Prado e Edson de Vulcanis escreveram juntos alguns dos mais belos poemas do orbe oval que os meus pés tocam. Para você ver e comprovar, selecionei algumas gemas da dupla, pura delícia, para deleite das boas almas.


ação entre amigos
vamos à churrascada de empalamento do padre estuprador, meu amor
vamos ao coquetel de linchamento do rubem fonseca, meu amor
eu já matei o escritor, matei inês
antes que talhasse o sangue do freguês



bercinho boiando no rio grande do sul
o farofeiro feio brilhava à beira de um luau
ouvindo solos de clarineta de seu pai

atocaiando jacarés e fazendo onda no mar de merda



o bêbado saldável
quando eu morri
meu pai tinha três anos

o saldo da minha alma está em retalhos

e o meu corpo em liquidação

sou vítima de uma bala perdida do antônio bivar

não sei se sou eu ou ele que não está nem aí

o pior é que atirou desmunhecando



descarregadores de cadáveres
homens, mulheres, crianças, velhos, cães e gatos maltrapilhos
aqui o cheiro das flores podres empesteia o ambiente

bagos no arame farpado arranco

fugindo do haroldo de campos



(Poemas de Marcos Prado e Edson de Vulcanis)

terça-feira, fevereiro 27, 2007

João do Sol

O mais barbudo à direita é o meu grande amigo João Otávio Malheiros que, há quase 30 anos, tomou a sábia decisão de ir para um lugar ensolarado, à beira mar e bem longe. Fora a saudade minha e dos muitos outros curitibanos que lhe prezam a amizade, temos de concordar que ele estava coberto de razão (apesar de manter sua maluquice bem além do que a lei permite). Lá na ilha de São Luís do Maranhão, entre outras coisas, fundou uma ONG, a Amavida, que faz um trabalho muito bacana e pela qual realiza inenarráveis andanças pelos caminhos mais esquisitos, estreitos e escamosos do roçado do bom Deus (obrigado, Plínio Marcos). Numa dessas viagens foi um dos coordenadores de um encontro da ONU com a singela denominação de Sixth Session of the COP of the United Nations Convention to Combat Desertification. Onde era? Na Cuba de Fidel, com praia, sol e... bem longe (a foto é desse encontro, que eu localizei pelo São Google). Pois bem. Esses dias o meu filho Rodrigo deu um jeito de consertar umas coisas misteriosas no meu computador e eu, finalmente, consegui acessar o inacessível: os poemas que o João Otávio havia me mandado há uma pá de tempo. Alegria, alegria. Vejam aí embaixo algumas pérolas deste curitibano de Londrina que virou ludovicense (morador de São Luís, anarfas). Seja bem-vindo, João, mais um com defeito de fabricação.

Meus amigos gays depois do pôr-do-sol

Eles morrem de amores
Eles sofrem sempre horrores
Eles tremem cedo de medo
Não sabem guardar um segredo

Eles sonham acordados
E choram abafado no escuro
Eles às vezes cortam os pulsos
E riem às vezes a noite inteira

É quando dançam nas pedras
E atiram beijos pra lua
Não fingem então os sempre farsantes
As cores com que se maquiam

Guerra moderna

corre
abaixa
é natasha

ela morre
agorinha
na minha tv

as pessoas na ponte
com alvos no peito
estão tão prontas no prompt

já mortas de medo
mas ainda querem morrer
ao vivo na minha tv

Fila imensa

nunca
tanta
nuca.

O amigo morreu

é findo
o enterro
o morto
foi lindo
foi rindo
eu berro
e bebo.

Locações para filmar o vento

Ilha, Beira-Mar
um palito de fósforo riscado
na calçada
ao meio fio

o palito mascado
jogado no chão

folhas secas
é tarde

e o vento chega com a noite
misturando os restos da cidade.


Aconteceu na beira do rio

É raso
E não tem pedras
Garantias-me antes da travessia.

Acreditei em ti
Mentias
E a água estava fria.


Lendo o jornal burguês

O New York Times não
mente jamais!

(mas pode mesmo a verdade
toda
caber dentro dos nossos jornais?)

O Sunday Times não
erra jamais
(vem todo o acerto do mundo
impresso em preto
nos nossos jornais).

Por isso o New York e o Sunday
não trazem a cotação
da bolsa de Maputo: eles não mentem.
Só a verdade pode manter o giro dos nossos capitais.

É inútil leitor, tu te iludes
Se procuras mentiras em nossos jornais.

(Poemas de João Otávio Malheiros)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

O samba que é de outros carnavais

O grande Cartola agradece a atenção dispensada, na foto de Milton Montenegro.

Aproveito a deixa para republicar um texto sobre a folia de Momo.


Quando o ano chega a estas épocas lembro que muita gente não sabe separar o samba-samba, a instituição, com o samba-enredo ou as marchinhas, duas de suas vertentes. Algo assim como um norte-americano confundir o som do Lou Reed com o de uma dessas bandas especializadas em mega-concertos carnavalescos. Aí me lembrei de um texto que escrevi junto com o Thadeu para o encarte de um CD do Maxixe Machine, que contém a trilha sonora do filme Barbabel. Um breve ensaio que fala de samba, de poesia e de carnaval (ou a ausência dele nestas paragens subtropicais). E acabou ficando bem divertido. E quem ainda não conhece o Barbabel, corra. Por enquanto, leia o texto:

Os Acadêmicos da Sapolândia

De repente o tal do Luís Américo nos dá o X da questão

“Vou dar bolacha

em quem mexer com a minha nega

já dei colher de chá,

agora chega”.

O povão é louco mesmo. Do brejo das almas salta uma tessitura de ecos e ressonâncias, sambando a la John Donne

“cuidais que são e não são

homens que não vão nem vêm

parece que avante vão

entre doente e o são

mente a cada hora a espia

na meta do meio-dia

andais entre o lobo e o cão”.

Pérolas bóiam na lavagem atirada aos porcos da mídia, puro deleite, entortando a gramática, bagunçando a lógica (ouvide Adoniram), nos apaixonando

“pela dona do 1º andar”.

Mas

“eu já disse a você

que malandro demais

vira bicho”

por isso não confunda com vanguardismo. Já no século XVII, Gregório de Matos misturava coisas de todos os povos que por aqui saqueavam e andavam

“pés de puas com topes de seda

cabelos de cabra com pós de marfim

pés e puas de riso motivo

cabelos e topes motivos de rir”.

Ouça os fonemas oclusivos bilabiais (P – surdo- e B – sonoro), nos linguodentais (T – surdo- e D – sonoro), e no velar C – surdo - formando os pares aliterativos. Quero morrer na cadência bonita do samba. Augusto dos Anjos, poeta singular, em Gemidos da Arte, faz as letras A e R voarem

“Um pássaro, alvo artífice da teia

de um ninho, salta, no árdego trabalho

de árvore em árvore e de galho em galho,

com a rapidez duma semicolcheia.”

Por outro mesmo lado, Cruz e Sousa imporia ritmo forte, frenético e penetrante no soneto Acrobata da Dor

“Da gargalhada atroz, sanguinolenta,

agita os guizos, e convulsionado

salta, gavroche, salta clown, varado

pelo estertor dessa agonia lenta.”

O mestre negro ensinou nossos brancos a amar Baudelaire e Edgar Poe. Em Noel Rosa, o pulo inverso: um branco ensina nossos negros que

“batuque é um privilégio”.

A doida brasileirice ecoa nas marchinhas, onde o espaçotempo desintegra a realidade

“ô abre alas que eu quero passar”,

“mamãe eu quero mamar”,

“alalaô ô ô, mas que calor ô ô”.

Momo hoje perdeu graça, graças à reciclagem mecânica do que já está na parada. Kojak devia meter bronca nesta moçada, junto com o kung fu, chinês valente, homem pra chuchu. Mas não importa, afinal, carnaval é um bando de dedo pra cima, fantasiado de turista. Samba é de outros carnavais.

O the best do tempestuoso carnaval curitibano não é música, batuque, dança, alegoria e, sim, o glorioso nome de uma escola: Acadêmicos da Sapolândia, no qual as sílabas pulam animadamente. O solitário sambista de Curitiba é tão inédito que nem nós, que somos nós, conhecemos o Lápis. Luiz Carlos Paraná fez nascer Maria quando a folia, mas as mocinhas da cidade pensam que é filha do Roberto Carlos. Fazer o que, se é aqui

“onde moro que me sinto bem”?

Pois somente aqui,

“onde ela mora”, e "a avenida tem fim"


demora essa sonoridade

“eu nunca tive pinta de eunuco

nem de voyeur do teu balacobaco

meu passarinho saiu do teu relógio cuco

você deixou meu coração batendo fraco”.


Pra terminar, uma pergunta: ouvidos novos ouvem ou vêem os sons que vêm e botam ovos?


(Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski)

sábado, fevereiro 17, 2007

Dureza: um abraço pro gaiteiro


Divido com vocês uma maravilha roubada do blog Malocabilly (link ao lado), por obra e graça do grande Sérgio Viralobos. São coisas assim que me sustentam entre as colunas de trevas que evolam do incêndio de Babilônia.

MARRÉ DE SI

tempo é dinheiro
mas dinheiro foi-se o tempo
quase que perco tudo
à procura da agulha no palheiro

o quase acabou ficando
na fronha de algum travesseiro
o corpo fica mais puro
sem um puto no bolso

a consciência, mais leve
quando se falta o tanto
hoje sou mais valioso
que um dicionário de esperanto

ando de cabeça erguida
se pisar em moeda, eu passo
meu testamento são folhas em branco
só o gaiteiro me espera pro abraço.

(Sérgio Viralobos)

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Uma flor do mal do velho Bode

Charles Baudelaire, o autor das Flores do Mal, era do bem. Para comprovar, veja uma das duas traduções que eu e meus parceiros fizemos, já publicada no livro Os catalépticos e que inspirou um belíssimo e corajoso estudo do professor Édison Costa (na revista Letras, da UFPR) comparando as nossas versões do velho Bode com as dos poetas simbolistas.

O VINHO DOS AMANTES

indo belo lindo um dia todo sim
é proibido proibir que tenha fim

bebo o vinho mel, divino néctar,

o céu ainda por cima parece concordar

um par de arcanjos, que figuras!
ambos puros artífices das alturas
eu e a taça, vinhetas da paisagem
o vinho volta à uva, eu, à miragem

no embalo dos tragos a terra gira
mecanismos de um turbilhão inteligente
que tudo ouve vê e só delira

o paraíso já era aqui e paralelamente
em outro entramos agora como um só

ic! epa! ops! rum...rum...ã? ó!


(Charles Baudelaire – versão brasileira de Roberto Prado, Marcos Prado e Antônio Thadeu Wojciechowski)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

linha morta, rima posta

apuro indícios após o crime
faca não, nenhum revólver
denuncio a mim, juro que vi-me
bem mal o enigma se resolve

volta ao local a alma mordoma
quem cometeu nada o detinha
digital zero, testemunha em coma
o fim da linha não foi a rima

(Roberto Prado)

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O sangue e o batuque


no batuque do coração


rimo rindo
rimo porque sim

rimo indo e vindo

quanto mais rimo melhor

rimo sim e daí?

vivo porque rimo

se rimo amanhã saberei

rimo sempre

rimo uma eternidade

rimo porque morri

confesso que rimei

rimo porque em verdade

em verdade eu sei

que mesmo naquele dia

se a rima me faltar

rimarei

tantã

por fora
por dentro e entre
pela vida afora
e antes
hora após hora
por exemplo, agora,
eu rimo sempre

dono de batuque nato
às vezes bato fraco

nenhuma razão para dor
nenhuma razão de orgulho
somente mais uma canção
apenas mais um coração
fazendo barulho

(Roberto Prado)

domingo, fevereiro 04, 2007

Cruz e Souza pede passagem


Amigos. Estamos hoje aqui reunidos para ler o Cruz e Souza. Sem mais rodeios, vamos ao poema.

Vida Obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-se mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu, que sempre te segui os passos,
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!

Cruz e Souza (1861 – 1898)

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

O sorriso da Iara


A Iara Teixeira deu um susto em todos que amam a graça, o charme e o veneno do seu talento luminoso.
Bateu no hospital, quicou na UTI, mas foi aventura passageira: já está voltando para casa, sã e salva. Na foto, à esquerda, o sorriso da artista completa uma das suas obras-primas.
Bom retorno, Iarinha e parabéns para a irmãzinha Dóris Teixeira, foto à direita (arquiteta com alma), por ter cuidado tão bem deste patrimônio.

domingo, janeiro 28, 2007

Yes, nós temos Miran


Osvaldo Miranda, o Miran, é uma lenda viva das artes gráficas curitibanas. Ele, o Solda, o Rettamozzo, o Marchesini, o Rogério Dias, a Iara Teixeira e outros cobrões, trabalhando juntos, trocando figurinhas, botando o bloco na rua, criaram um padrão de excelência e um ambiente criativo que beneficiou muito a rapaziada mais recente. Abaixo, um orgulhoso exemplo, que tenho a soberba de relembrar, de um trabalho que tive o prazer de dividir com o mestre Miran (cuja edição ele, inclusive, viabilizou). Para ler o texto junto com a arte, clique aqui.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Lamentações de um coitadinho subtropical

Aí vai mais um texto publicado originalmente na revista Idéias, da Travessa dos Editores.

Passei a acordar às dez porque estou cansado de nove horas. Mas, como encarnado que sou e, portanto, sofredor solidário das vicissitudes da matéria, ainda considero útil um nadinha de formalidade. Ou até, talvez, quem sabe, um dia, já sonhando alto, viajando e querendo demais, alguma gentileza, de vez em quando. Se não for incômodo.

Veja bem, não estou pedindo a ninguém para colocar cadeiras na calçada, sentar e conversar com os vizinhos, enquanto uns jogam canastra, outros cantam ao som do violãozinho e o restante esmerilha o Lula, o Requião e o Beto Richa. Nem me passa pela cabeça que façam serenatas, como aquele meu inesquecível tio de Santo Antônio da Patrulha. Menos, bem menos.

O que é que custa aos curitibanos aborígenes e agregados, meus caros companheiros de glórias e infortúnios subtropicais, responder emails, retornar ligações ou, sendo bem realista, ao menos retribuir os tímidos bons dias uns dos outros?

Afinal, não somos todos meio parentes por parte de Dalton Trevisan? Não trincamos a mesma broinha de fubá mimoso? Não bebericamos igual licor de ovo? Não viramos (ou estamos virando) mão-de-obra escrava à disposição de empresas paulistas e/ou multinacionais que para aqui vieram com a nobre intenção de economizar 80% nos salários? Não escrevemos textos estupidamente entupidos de perguntas? E, sobretudo, não compartilhamos a idêntica desconfiança de que os amigos ursos, autóctones do sul do Trópico de Capricórnio, entocados entre os rios Paranapanema e Iguaçu, são incapazes de gestos desprendidos, de espontânea generosidade e distraída boa intenção?

Sossegue. Essas minhas desconsiderações podem, muito bem, ser apenas azedume passageiro. Mas, às vezes, é conveniente tomar uma dose dupla de chá de losna com vinagre e limão galego, cujo fel, dizem, evita que se crie calo na alma e limo no coração. É bom manter-se purificado, pois vem aí a conflagração universal. Como dizem as profecias, ela vai começar de um encontro mau-humorado entre os tubões da torcida organizada Império Alviverde e os rosários dos fiéis da novena do Perpétuo Socorro –que, apesar de vizinhos há quase um século, nunca se cumprimentaram.

Agora chega desse desleixo com o espírito alheio. Vamos ser otimistas. Numa dessas, na última hora, vem a recompensa: o Papai Noel me traz mais um bonequinho do Homem Invisível para a coleção.

(Roberto Prado)

sábado, janeiro 20, 2007

A vida está pela hora da morte

Vivemos dias mortais. Vejam dois exemplos.


Primeiro (mais detalhes no blog do Solda), o Mário Celso Petraglia, poderoso chefão do Atlético PR, fica uma arara com um cartum do Tiago Rechia e liga ameaçando encher o artista de chumbo.

(Pausa para um diálogo imaginário:

"- Alô, aqui é o Mário..."

"- Que Mário?"

"- Aquele que te rodeou o fiofó de bala ao sair do armário.")


Mas, sério, dê uma olhada acima e, mesmo sem ser psicanalista, me ajude a entender o que pegou tão pesado e bateu tão fundo a ponto de magoar por dentro o dirigente esportivo. Para quem não sabe: o cara atendendo o celular representa o Petraglia e o sujeito pendurado simboliza o jogador Dagoberto, que sacaneia e é sacaneado publicamente pelo Atlético há uns bons dois anos. Uma relação nitidamente sadomasoquista, que o Tiago Rechia soube definir muito bem.

Segundo, o Thadeu finalmente virou réu confesso e vai publicar um capítulo a cada três dias da saga O dia que matei o Wilson Martins. Começando nesta segunda, dia 22. Para quem não sabe, o Wilson é um importante acadêmico, intelectual e crítico literário (neste quesito cometeu alguns pecados, especialmente em Poesia, área da qual o cara provou não manjar lhufas). Não sei bem que espécie de barbaridade o Thadeu inflingiu ao insígne professor-doutor, sua vítima. Mas não vou perder os capítulos nem morto. Viva!


Terceiro: mesmo que tudo esteja indo de mal a pior, lembre-se sempre que a vida é boa, a turminha é legal, o mundo é bacana e este é um país que vai pra frente. Por isso, recomendo, com grande entusiasmo que, por enquanto, ninguém pregue bala em ninguém. No mínimo, pelo inútil ridículo inerente ao ato, já que a morte, segundo consta, não existe.

domingo, janeiro 07, 2007

Fazendo chouriço com o próprio sangue

Beto Trindade, parceiro deste e de outros, diante de uma cerveja tcheca.


gentileza

maravilha
essa vida é uma uva
mesmo à pé
sem dinheiro, na chuva

ora viva lua estrela flor
samba

maravilha
só me sobra alegria
me maltratam
eu respondo bom dia

ora viva manitu pã ogum alá
krishna

agradeço
esta terra querida
só me enxotam
quando estou de saída

ora viva cor sabor amor
clima

(Roberto Prado e Beto Trindade)

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Um poema de mil novecentos e lá vai pedrada


Eis um poema de 1981, que acabou virando bela canção do Sidail, foi cantado pelas madrugadas dos caminhos mais esquisitos, estreitos e escamosos do roçado do bom Deus (como diria o Plínio Marcos), escoou pelos ralos, evaporou, tornou a chover e, sei lá por quais cargas d'água, eu não havia publicado até hoje. Aí vai, antes que vire fumaça.


Era bonito

foi bom
aquele pisar manso

as ruas de granito

era bonito
ter atirado pedras
na cidade

sem saber
que a cidade

é pedra

(Roberto Prado)

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Um poema aprovado pela minha mãe

Dona Nadyr e eu relembrando os bons tempos do rádio mudo.

Dia da criança

num lar ao léu onde chorar é a lei
alguém vagava pelas ruas do Brasil
vinha com saudades do Casimiro de Abreu
aurora da vida, imensa pátria sem pai

alguma coisa ali voltava aos trilhos
um calor carinho vindo de longe

pôs um novo menino entre meus filhos

com um sorriso não sei de onde

foi ali, na hora em que o céu era todo seu,
que eu acariciei meus cabelos por você

foi só ali, pai, que me adotei

e aí foi que senti, só, que só faltava eu

(Roberto Prado)


Outra coisa: dêem uma espiada no texto do Bortolotto sobre o Natal, Um presépio pra alimentar o incêndio

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Eu e a guerra de símios

Aí, macacada: o número 54 da revista Idéias, da Travessa dos Editores, saiu com esse texto, que versa, entre outras coisas, da minha reconhecida incompetência na arte do arremesso de fezes. E já tem outro engatilhado, para o número 56, com o singelo título de "Lamentações de um coitadinho subtropical", que deve estourar semana que vem nas bancas. Vejam lá.




Apela para a ignorância
o ser de alma macaca


Eu estava matutando cá com meus botões. Mas, como a roupa que uso não tem botão coisa nenhuma, garrei a imaginar se não somos todos um pouco responsáveis pela preservação das obras geniais que cruzam nosso caminho, tanto quanto pelo ar, pela água, pelas plantas, pelos bichos. Confesso a você – e peço que espalhe – que senti um tantinho de culpa ao verificar a degradação do habitat literário, a imundície jogada na terceira margem do rio, a asfixiante psicosfera que paira sobre a nação zumbi. O frágil ecossistema intelectual nativo virou atoleiro e, nesse brejo das almas, é natural que os tímidos pandas se recolham à sua extinção e os mosquitos da malária reinem absolutos. A gente deste século, assombrada, vê as últimas reservas cercadas de símios, esses sim, sempre dispostos a bater no peito, arremessar fezes e urinar nos cantos para demarcar seus territórios.

Agora chega desta ladainha: vamos empunhar as bordunas do espírito e defender a biodiversidade humana. Com muito respeito, é claro, pois sem ele você morre atropelado pelo carrinho de sorveteiro - como nos ensinou Nelson Rodrigues. Para começo de conversa, fim de papo, como disse o Marcos Prado: se eu, que sou eu, de vez em quando coloca um pouco de oxigênio nesta mistura, você, que é muito mais esperto, certamente será capaz de colocar muito mais. A primeira lufada de ar fresco, perfumado de araucária, eu mandei vir do Jamil Snege: “Já inspecionei a proa, / amarrei a carga, / desatei a vela. / O vento sopra forte / e enfuna meu coração de alegria. / Agora é contigo, Senhor. / Toma o leme / e risca o rumo do meu barco / - não penses que irei por este mar sozinho.” E de Minas Gerais, para as emergências asmáticas da vida, carrego sempre comigo uma bombinha de Affonso Ávila e o ar de sua graça: “dentro da faixa / fora do perigo / dentro da fauna / fora do perigo / dentro da farsa / fora do perigo / dentro do falso / fora do perigo / dentro do fácil / fora do perigo.” No meio do caminho tinha um Bertolt Brecht e com ele, respirando fundo, a gente aprende que o Brasil é lá e a Alemanha é aqui: “Sento na beira da estrada / Enquanto o motorista troca a roda. / Não gosto do lugar de onde venho. / Não gosto do lugar para onde vou. / Então por que espero essa troca de roda / Com tanta impaciência?” Você, que conhece a alma humana, já deve imaginar que, na maior tempestade, esse alemão um dia acabaria dizendo algo assim: “Fora essa estrelinha apagada, pensei, / Não temos nada / E ela está toda suja e devastada / Ela é nossa casa, / Nossa única casa / E olhe só o estado da coitada.” Da água corrente de uma montanha do Japão veio o Kobayashi Issa, para refrescar nossa pobre alminha com coisas como “o mendigo olha / e reconhecendo-me / devolve a esmola “ e molhar nossos olhos com uma alegria quase extinta: “a neve mexe / no calor das crianças / a aldeia se derrete”.

Bem, isso já é um começo. Agora é com você. Mas eu já vou avisando que participar dessa cruzada pela melhoria da atmosfera mental do país é arrumar para a cabecinha e encarar a ira da massa ensandecida (procedimento que eu sugiro seja realizado com bom humor, malícia e precisão). Portanto, nada de reclamações. A batalha é inglória para quem procura sarna para coçar, chifre em cavalo, cabelo em ovo – coisas que, muitas vezes, achará. Mas, em plena desgrama, garanto que, de vez em quando, ouvirá o Domingos Pellegrini, direto do seu sítio: “Cadê os chinelos / aquele sonho cadê / vou procurar de joelhos / assim já estou pronto para agradecer.”

Leia, espalhe e preserve o que é bom. Numa dessas você encontra por aí, soprando com o vento pelas ruas de Curitiba, os mestres Marcos Prado e Márcio Cobaia Goedert no exato momento em que flagaram e eternizaram um simples freqüentador da birosca de uma periferia qualquer: “o velho e o bar // o velhinho é a alma do negócio / deixa a nota amassada e sai catando cavaco / pensou que via o carlos drummond de andrade / mas era uma valeta no meio do caminho / o pau d’água mergulhou na areia movediça / transformando-se no monstro do pântano”.

E mais não digo, pois os meus botões preferiram guardar a boca pra comer farinha.


(Roberto Prado)


Notas:
1) “Apela para a ignorância o ser de alma macaca” - verso emprestado do poema “Todos os lugares a deus” de Marcos Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski. 2) Poemas de Bertolt Brecht – versão brasileira: Roberto Prado. 3)
Poemas de Kobayashi Issa – versão brasileira: Roberto Prado e Antonio Thadeu Wojciechowski

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Criatura memória

nossa senhora das minhas musas
minha angelical divina fada
que a treva bata em sua trave
antes da batalha ser travada

sopre sua brisa, diva santa elegância
relevo morno, enlevo doce, leite, úmida alvorada
me leve logo para que eu não esqueça
como essa vida é difícil de ser lembrada

(Roberto Prado)

sábado, dezembro 09, 2006

não acordei esta manhã porque não dormi

Tem coisa boa rolando na cidade. Confira abaixo e para ver os horários entre no site da Fundação.


Vai ter música, poesia, teatro, vídeo, cinema, performance, cartazes. Para sentir como vai ser, tome essa:

as mil e uma faces do desespero


não acordei esta manhã porque não dormi

ontem sorumbático, insone agora

com o mesmo olhar que te viu indo embora


quando é que você vai vir

e ver quem te viu e quer te ver?


só vejo no espelho angústia, depressão, melancolia

solidão, mágoa, saudade, desgosto

quando as madrugadas deixarão de ser noite e dia?


E mais esse:


se o teu amigo diz que entende

o que você está escrevendo

peça a ele um documento

mas antes registre a patente

se um inimigo diz que entende

o que não leu do que você está escrevendo

meta fogo em tudo que é documento

mate e descarregue na patente


se sentir, porém, que ninguém entende

o que você está escrevendo

jogue tudo que fez na patente


mas se sentir que você mesmo não entende

aquilo que está escrevendo

mergulhe, feliz, pela patente

(Marcos Prado)


segunda-feira, dezembro 04, 2006

Semana Marcos Prado: o andamento da parada


Lançamento de Os catalépticos. Ao fundo, o grande Adriano Sátiro.

Aos beijos, aos chutes, aos poucos, aos montes, Marcos Prado amava Curitiba e Curitiba amava Marcos Prado, cidadão que tinha uma presença capaz de fazê-la menos triste, menos cinza, menos pobre, menos jacu. Agora, passados 10 anos da sua morte, a rapaziada da cidade resolveu dedicar uma semana de dezembro (de 9 a 15 - data do aniversário do poeta) para colocar o bloco do Marcos Prado na rua. Saiba direitinho sobre os eventos clicando AQUI e indo a um belíssimo blog especialmente criado para a ocasião. Aproveito para postar três poemas e algumas fotos do Marcos.


Marcos, de chapéu, pressente a presença do fotógrafo no botecão. À mesa, Léia Leite observa.

todo dia encontro um artista novo
eu escrevo, eu pinto, eu desenho, eu canto
mas todos têm aquela cara de ovo
trato-os humildemente mas com espanto
isso não está escrito na cara deles
não vejo em nenhum o ar de sua graça
nem o trato nobre ou o ímpeto reles
raro o dono da própria desgraça

tenho por eles, porém, um amor triste
um amorzinho vagabundo, menos que inho
que de tão diáfano não sei como resiste
um dia pego um deles pelo colarinho
estrangulo no balcão aos gritos: despiste
não fique roxo, não obre, isso é um carinho

(Marcos Prado)

Marcos (à direita) observa Beijo AA Força detonando.

a mentira é a melhor amiga das artes
nela, gelatinosa, as glosas seculares
minúcias de paisagens inexistentes
um coração onde cabe um milhão diferentes

dondoca de agora, amanhã de coturno
segue sempre os passos de um antigo perjuro
a arte imita a arte que imita tudo
e é profunda, é verdade, bem no fundo

mas somos piores que os pintores de florença
ridículos comparados aos poetas de provença
michelângelo cagaria em cima de nossas estátuas
beethoven se limparia com as nossas pautas

que é a nossa dança diante de um delírio índio?
que é um soco nosso perto de um clay vindo?
por que, se finda é a arte, continuar mentindo?
repetir o que se repetiu de novo se repetindo?

(Marcos Prado)


O sofá é o melhor amigo do homem.

não há nenhum lugar melhor que o deserto para as idéias
ponha-se o nada sobre ou sob o absoluto e tudo será areia
o destino traçado e a rota escolhida do pensamento não calçam as mesmas pegadas
quando um homem pensa sozinho pensa por todos
não há liberdade maior do que estar sozinho no deserto nem sofrimento maior também
as idéias são como fragmentos de areia que se espalham e só
se juntam com exuberância quando
como dunas
cada dia num lugar diferente
quanto ao céu
ele não existe neste deserto por enquanto
onde ele está ninguém que caminha pelo deserto tem a mínima idéia

(Marcos Prado)